Domingo, 22 de Outubro de 2017
   
Tamanho do Texto

Pesquisar

A Formação da Teologia de John Nelson Darby (Parte 2/3)

A Formação da Teologia de John Nelson Darby

 

Paul Richard Wilkinson

 

* Extraído com permissão autoral do livro “For Zion’s Sake” (Por Amor de Sião), de Paul Richard Wilkinson.

** O referido livro foi recentemente relançado com o título “Understanding Christian Zionism”.

 

 

PARTE 2/3

 

Edward Irving

Um delegado da sociedade de Albury Park que causou um “dramático e breve”131 impacto no mundo evangélico foi Edward Irving (1792-1834). Descrito como “uma figura bizarra na Londres de 1820” e “um escocês de educação fragmentada”, Irving atingiu uma “inesperada eminência”132 depois de ser investido na Capela Caledônia de Londres, em 1822. O futuro primeiro ministro, George Cannig, frequentou sua igreja e chamou a atenção do Parlamento para o alto e elegante homem cuja “mente era como de um gênio, entretanto, tendendo à excentricidade”, e cujo “espírito era quase como de criança em sua simplicidade e ao mesmo tempo poderosamente masculino, cheio de coragem e inabalável convicção”, e quem, como pregador, “era conhecido como o maior orador da história”.133 William Wordshorth, Samuel Taylor Coleridge e William Gladstone também ouviram Irving pregar em sua igreja, que era frequentemente “lotada com nobres de todas as classes, lordes e damas, advogados, metafísicos, filósofos de todo tipo e membros da comunidade literária e científica”.134

Infelizmente, a reputação de Edward Irving foi manchada depois que ele foi destituído de seu cargo como ministro da Igreja da Escócia, em 1833, pelo Presbitério de Annan, sob cuja jurisdição ele ministrava. Sua demissão foi seguida pela publicação de sua controversa doutrina da encarnação e a eclosão de enunciados extáticos na sua igreja em Regent Square, Londres, em 1831. Irving se viu como “exilado entre o partido milenarista e seu nome se transformou em sinônimo de reprovação entre os evangélicos e cidadãos decentes”. Apesar de ser considerado como “um barco sem quilha”,135 ele tem sido descrito como “um homem que faz estremecer o que outros nunca estremeceram”,136 um “homem santo”,137 uma “grande aurora boreal”,138 e um homem de “habilidades torrenciais”139 que impressionou Londres “de repente”140 e “com valentia”,141 e que auxiliou a virar a maré escatológica na direção do pré-milenismo. Antes de sua prematura morte aos 42 anos, a “voz milenarista” de Irving foi ouvida “no deserto profético da Escócia”142 e sua “mensagem meteórica”143 causou impressão permanente em homens como Horatius Bonar, “o principal milenarista da segunda geração”144 e “mestre escocês defensor do pré-milenismo”.145

Lamentavelmente, a preocupação que os historiadores tiveram com as controvérsias em torno de Edward Irving encobriram sua considerável contribuição para a causa restauracionista. Sua crença no retorno iminente de Cristo e a prometida restauração de Israel ganharam proeminência a partir da publicação de seu livro Babilônia e infidelidade prenunciada (1826). Sua escatologia pré-milenista se manteve como “a única e maior influência sobre seu pensamento”146 devido, em pequena medida, à sua leitura do The coming of Messiah in glory and majesty, um livro que “acendeu a alma de Edward Irving”147 e o impulsionou a liderar o movimento restauracionista.

O Legado Lacunza

Escrito em espanhol sob o pseudônimo de Juan Josafat Ben-Ezta, o livro La venida del Mesias en gloria y majestad (A vinda do Messias em glória e majestade) marcou o decisivo ressurgimento da tradição pré-milenista”.148 O autor, um judeu jesuíta de nome Manuel Lacunza (1731-1801), deixou o Chile, sua terra natal, antes de encontrar asilo na Itália. Seu livro, que abordou a corrupção dentro do sacerdócio católico romano, teve sua primeira impressão na Espanha, em 1812, antes de ser abolido pela inquisição espanhola. O livro encontrou um modo de chegar à Inglaterra, em 1816, e foi parar nas mãos de Edward Irving, em 1826. Coincidentemente, Irving estava aprendendo espanhol com o objetivo de ajudar seu amigo, Giuseppe Sottomayor. Depois de ser convencido por sua igreja a gozar de um período sabático, retirou-se para o campo para traduzir a obra de Lacunza.149

A primeira divergência de Lacunza era que Jesus, o Messias, retornaria em glória para reinar sobre a Terra, contudo, não necessariamente por mil anos. Ele falou sobre como “os próprios sentimentos do apóstolo” o perturbaram ao ler Romanos 9.1-3:

E percebendo que meu coração estava oprimido pela força despertadora e renovadora daquela dor, a qual eu quase sempre suportei dentro de mim, eu imediatamente fechei o livro e corri para o campo para aliviar meu coração.150

Procurando oferecer “uma luz maior, outro remédio mais rápido e eficaz” para seus irmãos judeus “dos quais eram os patriarcas e de quem veio Jesus Cristo segundo a carne”,151 Lacunza proferiu um ataque contra a Igreja Católica Romana acusando seus teólogos de empregar “milhares de outros sentidos que não o literal”152 em sua interpretação da Bíblia e de demonstrar “desprezo pelos judeus”.153 Ele cria que o povo judeu não era “uma árvore totalmente ressequida e incapaz de florescer novamente, sendo apenas boa para o fogo”, mas que estava destinado por Deus a desempenhar “um grande papel no grande mistério da vinda do Messias”. Depois de serem replantados na terra dada a eles “em juramente solene e perpétuo”, eles seriam “ressuscitados e reanimados com aquele espírito de vida, do qual, por muitas eras, foram privados”. Lacunza sustentava que essa restauração progressiva cumpriria as promessas “inumeravelmente contidas em quase todos os profetas”, as quais aconteceriam “não sob a velha aliança, mas sob outro pacto, novo e eterno”.154

Irving adicionou seu próprio e substancial Discurso preliminar à obra de Lacunza, o que inspirou o “célere progresso”155 da doutrina da segunda vinda no sul da Inglaterra. Ele cria que “a irmandade de Jesus segundo a carne” seria “reunida em grande misericórdia, restaurada em grande poder e ávida de uma eterna posse da terra prometida aos seus pais”, e apesar de discordar com o rótulo de futurista, concordou que Lacunza “despertou” em sua mente:

A suspeita de uma possibilidade de que quando o tempo da última Grande Tribulação cristã chegar, estes números [1260, 1290, 1335 dias] tenham aplicação literal.

Irving por muito tempo suspeitou “que os três anos e meio de duração do ministério de sofrimento do Senhor” pudessem ter sido “um tipo de duração dos sofrimentos da igreja judaica quando assim será chamada novamente”, e acrescentou que cria ser “intercambiáveis os sofrimentos do Messias e os sofrimentos da igreja judaica nas profecias do Antigo Testamento, especialmente nos Salmos”.156

Como veremos, Darby conhecia a obra de Irving, mas não fez referência a Lacunza em seus escritos. Irredutíveis, os críticos amilenistas, pós-milenistas e pré-milenistas de Darby procuraram o desacreditar ao remeter a origem de sua escatologia a esse padre jesuíta. Há, de fato, similaridades entre eles, particularmente com relação à restauração de Israel, a apostasia da Igreja, o tempo dos gentios e o retorno físico do Senhor Jesus à Terra, mas não devemos nos surpreender quando estudiosos da Bíblia, de diversas tradições escatológicas, chegam a conclusões similares. Tendo dito isso, é importante apontar que há significantes disparidades nas teologias de Darby e Lacunza, especialmente a defesa de Lacunza ao dogma da Igreja Católica Romana, sua crença no anticristo como “um corpo moral, composto de inúmeros indivíduos (...) todos moralmente unidos e movidos por um espírito em comum”, e sua alegação de que as cartas de Paulo aos Tessalonicenses foram escritas para corrigir seu “erro (...) de aguardar o retorno do Senhor a qualquer momento”.157

É importante notar, nesse ponto, que Darby também foi acusado de formular sua doutrina acerca do arrebatamento pré-tribulacionista a partir de outro padre jesuíta de nome Francisco Ribera (1537-1591). Em 1590, esse jesuíta espanhol de Salamanca publicou um consistente comentário do livro de Apocalipse para contestar a visão protestante dominante que identificava o anticristo com o Papa. Ribera cria que, com exceção dos primeiros capítulos, os eventos registrados no livro do Apocalipse se relacionavam a um período futuro de 1260 dias literais, quando uma personalidade anticristã (não o Papa) seria recebida pelos judeus, entronizada no terceiro templo e que perseguiria a Igreja. Ao posicionar o anticristo no futuro, Ribera ajudou a “desviar de Roma a desaprovação protestante”.158 Sua posição foi prontamente adotada por inúmeros estudiosos romanistas, incluindo o cardeal Robert Bellarmine (1542-1621), o mais notável e polêmico jesuíta.

Apesar das similaridades, qualquer afirmação de que os futuristas protestantes, em geral, e Darby, em particular, adotaram e adaptaram o futurismo de Ribera é completamente sem fundamento. A teologia da substituição agostiniana e amilenista de Ribera e a ausência de uma posição escatológica quanto ao arrebatamento pré-tribulacionista o separam completamente de Darby em nível teológico. Isso aliado ao “amplo e variado arsenal de polêmica anticatólica”159 que Darby empregou na libertação de camponeses irlandeses da igreja romana é evidência suficiente para destruir qualquer conexão artificial que os críticos tenham forjado entre Darby e os jesuítas.

Irving e os Judeus

Edward Irving cria que a obra de Lacunza chegara às suas mãos providencialmente com o objetivo de expor a heresia do pós-milenismo, a qual, segundo seu entendimento, estava extinguindo “a chama mais brilhante da igreja apostólica e primitiva”, a saber, a segunda vinda. Esforçando-se para impedir os cristãos de serem enganados por esse erro destruidor e quase universal, Irving se dirigiu aos pós-milenistas de forma dramática:

Enquanto vocês estavam sonhando com águas tranquilas, uma tripulação harmoniosa e um refúgio seguro, nós vemos o céu se fechando, as ondas se agitando, uma tripulação se amotinando e um terrível naufrágio do qual poucos, pouquíssimos, sábios e prudentes escaparão.160

Ele notou que a Igreja na Escócia estava repleta de “ostentação farisaica”, com sua “vã pompa patriota”,161 e acusou os evangélicos em geral de cantar a “melodia suave de paz e prosperidade enquanto a Europa e todo o mundo era sacudida com as convulsões de um terremoto”.162

Irving estava convencido de que Deus estava a ponto de “derramar o Espírito Santo sobre seu antigo povo, os judeus, e de trazer sobre eles aqueles dias de restauração preditos por todos os santos profetas desde a criação do mundo”. Ele cria que isso demonstraria a imutabilidade da graça de Deus.163

Em Os últimos dias: um discurso sobre o caráter mau destes nossos dias (1828), ele falou sobre como “a recompensa de Sião” concluiria “a manhã angustiosa daquele longo dia, durante o qual eles [os judeus] deveriam começar a entender todas as bênçãos da Nova Aliança e ser irradiados com toda a glória do Messias, o Rei”.164 Irving e seus colegas delegados de Albury entenderam o quão importante era para a Igreja compreender a centralidade dos judeus no coração e propósitos de Deus. Tal como escreveu à sua esposa, no final da conferência de Albury, em 1830:

Hoje o assunto foi a respeito dos judeus, o que sempre produz muita discussão (...). Eu sinto que recebi muito mais iluminação no que tange a esse assunto do que em qualquer outro momento.165

Irving entendia que assim como o espírito não pode agir sem o corpo, o cristão não pode ter vida perfeita sem conhecer o propósito de Deus para os judeus. Crendo que “toda promessa feita a Abraão e sua descendência recebeu de Cristo o grande amém”,166 ele achava que a posição daqueles que espiritualizavam a Escritura era “absolutamente incompreensível”,167 e denunciou aqueles que “calaram quatro quintos, sim, nove décimos do volume sagrado” ao roubar a herança de Israel como um “sepulcro caiado”.168 Qualquer um que questionasse o que Deus havia prometido aos judeus era, em sua opinião, “um cético ou um infiel” que “não pode sequer ser chamado de crente”, uma vez que o crente em Cristo “é alguém que considera a Palavra de Deus como verdadeira e certa; não parte dela, mas toda ela”. Irving ardentemente advogava que preferia “ver uma dúzia revistas religiosas gastar seu veneno mensal sobre sua [pobre] cabeça, do que escrever uma dúzia de palavras contra a restauração dos judeus à sua própria terra”,169 tal como um escritor anônimo havia feito. Em um de seus mais tórridos artigos para o The Morning Watch, ele exclamou: “Ah! Por que não espera? Por que não anseia? Por que não geme o mundo pela restauração de Israel, que será como vida dentre os mortos? Deverão ser chamados dias de refrigério, pois só então a terra será aliviada”.

Não importava quanto zelo fosse despendido no trabalho filantrópico, missionário e na publicação de literatura cristã. Irving estava convencido de que o reino milenar de Cristo não se iniciaria “até que os muros de Jerusalém fossem reconstruídos e Sião fosse exaltado em toda a Terra”. Ele convocava verdadeiros cristãos a suplicar a Deus para “antecipar o dia da restauração de seu povo, que será para o mundo como vida dentre os mortos”.170

Apesar da avaliação negativa de Darby a respeito de Irving (veja abaixo) e suas radicais diferenças escatológicas, as similaridades de seus entendimentos sobre a profecia bíblica são surpreendentes. Irving, por exemplo, usou o termo “terra profética”171 ao limitar as profecias feitas exclusivamente aos judeus. Ele também compreendeu a importância da tipologia,172 referindo-se à presente era como “um período interrompido e intercalado”,173 conectando os sofrimentos de Cristo nos Salmos aos sofrimentos do remanescente de Israel no fim dos tempos,174 fazendo clara distinção entre Israel e a Igreja. Ele cria que a Igreja apóstata estava aguardando o “julgamento terrível” e assegurava aos cristãos verdadeiros que “há uma proximidade com a libertação dos fiéis pela conversão”.175 Apesar de sua escatologia não ser tão claramente definida como a de Darby, parece, pelos artigos que escreveu para a revista The Morning Watch e pelo testemunho de Robert Baxter, um amigo querido de outrora,176 que Irving cria no arrebatamento pré-tribulacionista. Ele também cria que possuía um único dever com relação à Igreja, o “de eletrizar sua fé paralisada ao fazê-la ter contato com a bateria da verdade acerca da restauração de Israel e a vinda do Emanuel contida nos Profetas”.177 Em um artigo sobre as profecias veterotestamentárias citadas no Novo Testamento, Irving fez a seguinte acusação contra a Igreja:

Maldito seja o homem que despojar a semente de Abraão, irmãos de Cristo segundo a carne, de sua precedência, a qual está escrita sobre eles pela mão de Jeová! (...). Eu não posso, e não ousaria, ter parte com aqueles que esvaziam essas profecias literais e as ocultam da esperança de Israel e do desejo de todas as nações da Terra com o objetivo de tê-las para si mesmos e de manter esse mundo como eterna habitação dos demônios. Eu abertamente denuncio tais homens, não apenas como céticos da Palavra de Deus, mas como inimigos que a querem destruir.178

Assim como vimos, há uma clara correlação entre os aspectos da teologia de Darby e os da teologia de seus contemporâneos, incluindo Edward Irving. Isso é de se esperar, se cremos que Deus levantou homens durante o século 19 a fim de proclamar a verdade sobre a restauração de Israel e sobre o retorno de Cristo. Entretanto, difamadores que tentaram denegrir a doutrina bíblica do arrebatamento pré-tribulacionista formularam mais dessas similaridades do que o necessário. Já havendo rompido a ligação de Darby com os jesuítas, nós agora voltamos nossa atenção a Margareth MacDonald e Edward Irving, os quais os críticos afirmam ter fornecido a base para o entendimento de Darby acerca do arrebatamento.

A Controvérsia sobre o Arrebatamento

Os oponentes de Darby citam consistentemente Samuel Tregelles quando o comparam a Edward Irving. Em A esperança da segunda vinda (1864), Tregelles remontava a doutrina de Darby a um suposto enunciado na igreja de Irving:

Quando a teoria da vinda secreta de Cristo foi apresentada pela primeira vez (por volta de 1832), ela foi adotada com avidez: ela se adequava a certas opiniões preconcebidas e foi aceita por alguns como a teoria que harmonizava visões contraditórias (...) (Não tenho conhecimento de ter havido algum ensinamento definitivo sobre o arrebatamento secreto da Igreja e uma vinda secreta até que apresentassem uma declaração da igreja do Sr. Irving (...) mas se alguém já afirmou tal preposição ou não, é decorrente dessa suposta revelação que surgiram a doutrina moderna e a fraseologia moderna acerca do assunto. Não veio da Santa Escritura, mas daquele que enganosamente finge ser o Espírito de Deus (...) Depois que a opinião de um advento secreto foi adotada, muitas expressões em escritores antigos parecem defendê-la).179

Tregelles foi posto de lado como “uma testemunha preconceituosa”180 devido ao apoio que deu a seu primo, Benjamim Wills Newton, logo após Darby ter incriminado Newton de herege. William Kelly acusou Tregelles de implica-lo no erro de Newton e de conduzir uma vingança contra Darby ao atribuir uma cara irvinita à sua doutrina do arrebatamento.181 Assim como Huebner assevera, a declaração de Tregelles “procedeu de animosidade”.182

Críticos como Iain Murray estão convencidos de que todos “os traços notáveis do esquema de Darby são encontrados em Irving”.183 Stephen Sizer reivindica que há “evidência convincente” da “influência de Irving” na doutrina de Darby sobre “uma igreja enfraquecida e a futura dispensação judaica”184 Victoria Clark segue o exemplo, afirmando que Darby “aperfeiçoou seu pré-milenismo com a ajuda de Irving”185, enquanto Dan Cohn-Sherbok argumenta que o uso de Darby da “dispensação” o conecta diretamente a Irving que utilizou o termo de antemão.186 (Cohn-Sherbok falha ao perceber que esta terminologia era de uso comum na época). Sizer justifica sua declaração de que Darby apenas “desenvolveu as ideias de Irving”187, principalmente, devido à afirmação de Darby de que a “maior expressão de piedade e santidade (...) é encontrada nos escritos de Irving, os quais são abençoados e preciosos também”.188 Sizer, entretanto, se esquece da importância de seu ponto quando afirma que essa declaração foi realizada no contexto da “dissociação de Darby das profecias fantasiosas dos Irvinitas e da Igreja Católica Apostólica”189. Ele também erroneamente diz que esta é a única referência à Irving “nos trinta e três volumes de Darby”190 Ao contrário, Darby sabia e escreveu “uma grande porção”191 sobre o clérigo escocês.

Darby e Irving

Apesar de sua admiração pelo “profundamente interessante, (...) proveitoso e oportuno sermão”192 de Irving sobre intercessão, Darby cria que “a efetiva obra do inimigo” era “claramente manifesta”193 na igreja de Irving. Em 1844, ele relembrou como, “pelo menos 14 anos atrás”,194 ele contestou Irving com relação aos dons espirituais e, mais tarde, recordou ter sido arrastado para o conflito com ele cerca de trinta anos antes por causa de “sua proposição metafísica para a pessoa do Senhor”.195 Darby descreveu a doutrina da encarnação de Irving como “claramente perversa e má, contrária à Palavra de Deus e seu Espírito”.196 Ele alegava que os dons irvinitas foram “constituídos sobre essa doutrina”,197 e lamentava “todas as pobres heresias e divagações de Irving”.198 Darby também descreveu elementos do Discurso preliminar de Irving como “evidência, cumulada evidência, de seu grande descuido” e chamou atenção às passagens “altamente injuriosas à obra e honra de Cristo e, nela, o conforto justo, santo e influente dos crentes santos”. Ele também criticou os sermões de Irving sobre a visão de Daniel das quatro feras e sua interpretação de Isaías, a qual, ele cria, demonstrava “a extrema negligência das Escrituras e da profecia propriamente dita, com o mero objetivo de ter um objeto em mente”.199 Esses, dificilmente, seriam comentários de um homem que supostamente tem admiração e está em dívida com Edward Irving.

Em uma coleção de escritos e conversas de Benjamim Newton,200 encontramos um registro inestimável do relacionamento de Darby com Edward Irving e sua avaliação sobre ele. Newton lembra como, durante os anos constituintes da Irmandade de Plymouth, havia alguns que, como o capitão Percy Hall, criam que a Bíblia falava sobre um arrebatamento secreto. Newton, contrário a esta doutrina, lembra-se de como Darby “não tomara partido” e de como expressou, em carta pessoal a ele, “não ter convicção” com relação a um “arrebatamento secreto”.201 Ele ainda recordou uma carta que Darby havia escrito a ele sobre Thomas Tweedy, que havia auxiliado Darby a esclarecer seu pensamento sobre o momento do arrebatamento. De acordo com William Kelly:

Não havia ninguém tão longe de dar ouvidos às vozes ímpias e profanas dos quase-inspirados irvinitas do que o Sr. T [Tweedy], a menos que fosse o próprio J. N. Darby que houvesse investigado de perto suas pretensões e julgado sua heterodoxia peculiar sobre a humanidade de Cristo como anticristã e blasfema.

Kelly também observou como a Irmandade havia admirado Irving como um pregador, mas como todo irmão sério na comunhão considerava que as declarações em sua igreja eram apavorantes e pareciam emanar não do entusiasmo humano somente, mas de um demônio que aparentava portar o poder do Espírito Santo”.202

Darby e MacDonald

Em 1830, Francis Newman recebeu uma carta “vívida com fervor religioso”203 da região de Gare Loch, na Escócia. A carta foi entregue a Newton e Darby foi devidamente nomeado pela Irmandade para investigar a questão em seu nome. O entusiasmo se tornou presente em torno do lar de Isabella e Mary Campbell, em Fernicarry, o qual se tornara uma espécie de santuário local após relatórios de que as irmãs haviam recebido uma experiência de êxtase. Deus, segundo a crença, estava derramando seu Espírito na Escócia. De acordo com Oliphant, “quase todo homem cristão notável da época considerou o assunto com devoção e ansiedade”,204 incluindo Edward Irving. Os dons sobrenaturais que Mary Campbell alegava ter recebido chamaram a atenção de Irving e conduziram sua atividade “durante o resto de seus dias na Terra”.205 Ele e seus associados estavam convencidos de que as “manifestações extraordinárias”206 advinham “de Deus”.207 Darby não compartilhava da mesma convicção de Irving e as razões para que ele descartasse tais manifestações eram significantes. Assim como Newton recordou:

Darby foi extremamente cuidadoso ao não nos oferecer uma opinião. Mas o que o fez decidir, ao ser pressionado, foi quando aqueles que se diziam inspirados estavam expondo textos proféticos, como aqueles em Isaías que falam de Israel e Jerusalém, afirmando que tais textos se aplicavam às igrejas cristãs desta dispensação. Isso me motivou também, pois havia escrito, há pouco tempo, um relatório para o encontro da Sociedade dos Judeus.

Darby informou Newton de “que não havia um encontro ou uma entrevista na qual os espíritos não se debruçassem sobre a noção de que as bênçãos dirigidas a Israel fossem aplicadas a nós agora”. Assim como Newton recorda, “aquilo me fez decidir prontamente e Darby também”.208 Francis Newman, que inicialmente acreditava serem provenientes de Deus os supostos enunciados proféticos, registra como sua opinião mudou depois de Darby enviar a ele:

Um relato completo do que ele havia escutado com seus próprios ouvidos; com efeito, nenhum dos sons, vogais e consoantes eram estrangeiros; as estranhas palavras eram formadas a partir da gramática latina (...) apenas para demonstrar pobreza na formação ao invés de autoria espiritual; e não havia interpretação. Este último ponto me convenceu: qualquer crença que eu tivesse nisso seria, no presente, inútil.209

Em O irracionalismo da infidelidade (1853), Darby incluiu um relato da família MacDonald de Port Glasgow, os quais eram amigos pessoais dos Campbells. O registro pessoal da visita de Darby à região parece ter sido ignorado por muitos de seus críticos, mas se mostra determinante no debate e exonera Darby completamente de qualquer acusação de que sua doutrina do arrebatamento pré-tribulacionista foi derivada da declaração de Margaret MacDonald:

Dois irmãos (respeitados construtores de barco em Port Glasgow, de nome M’D_), e sua irmã, foram os senhores que falaram em línguas com uma empregada doméstica gaélica e com uma Sra. J_ em inglês. Nesta ocasião, J. M’D_ falou por volta de quinze minutos com grande influência e energia em uma língua que soava como o latim e, logo após, cantou um hino nessa mesma língua. Tendo encerrado, ele se ajoelhou e orou para que houvesse alguém que interpretasse (...) sua irmã se levantou do outro lado do cômodo e afirmou dar uma interpretação; mas tratava-se de uma série de textos sobre superação e não era o hino que fora cantado. Ademais, um texto, senão mais, fora citado incorretamente (...). Uma vez, a empregada doméstica gaélica falou brevemente em “uma língua”, a qual, se o “clérigo irlandês” (Darby) lembra corretamente, não ocorreu na mesma noite. O desejo que ele tinha do poder do Espírito Santo na igreja o fez querer ouvir e ver.  No entanto, ele se tornou testemunha da experiência de outros e não da própria. Seu entusiasmo era tamanho que, mesmo não sendo uma pessoa empolgada, sentiu fortemente os efeitos. Com certeza, seu julgamento não aprovou essa reação, mas outras coisas contribuíram para isso. Tudo era muito escandaloso. Antes da manifestação dos dons, eles liam, cantavam salmos e oravam sob a liderança de alguém (...). Com essa parte finalizada, o “clérigo irlandês” estava indo embora quando alguém lhe disse “não vá embora, a melhor parte provavelmente está por vir”. Então ele permaneceu e ouviu o que acabou de ser relatado. Ele aceitou de modo cortês, como alguém que não cria, mas que queria conhecer a verdade sobre o caso. As festas eram, em sua maioria, mortas ou dispersas e muitos se soltavam publicamente durante o delírio; por isso, ele não se sentia culpado de qualquer indiscrição ao fornecer um relato correto do que vivenciou. Ademais, sem mencionar nenhuma pessoa, qualquer vaidade feminina e qualquer característica mundana distinta, não foi capaz de confirmar, em sua opinião, que tudo aquilo proviesse do poder do Espírito.210

William Kelly perguntou: “Desconhecendo outros fatos, uma pessoa honesta diante de Deus poderia conceber maior improbabilidade do que J. N. Darby adotar a declaração do que ele acredita ser demoníaco como verdade de Deus?”.211 Dave MacPherson aparentemente pôde, a julgar pela omissão da referência direta ao suposto enunciado pré-tribulacionista de Margaret MacDonald no relatório de Darby. Para um “detetive teológico” como MacPherson, a explicação para essa omissão é simples: Houve um “acobertamento”, Darby teria roubado a doutrina do arrebatamento pré-tribulacionista de MacDonald. MacPherson irresponsavelmente sugere isto à época em que Darby escreveu seu relato, em 1853:

Ele preservou um interesse especial compreensível na jovem e despretensiosa dama escocesa, de quem ele havia emprestado um ingrediente fundamental para seu sistema dispensacionalista de interpretação profética!

Apesar de reconhecer que a “dama”, em questão, “viu uma série de arrebatamentos”, apenas o primeiro ele considerou como uma “translação pré-tribulacionista” e, apesar de rotulá-la como “uma pré-tribulacionista parcial”, MacPherson insiste que “Darby emprestou dela, modificou suas posições e então as popularizou em seu próprio nome sem concedê-la o crédito”.212 Tais alegações irrestritas não somente falham em infligir “uma ferida devastadora no campo do pré-tribulacionismo”,213 do modo como ele afirma causar, mas também não correspondem ao retrato que temos de Darby, de seus escritos e dos testemunhos daqueles próximos a ele. O “estilo jornalístico descontraído”214 de MacPherson pode ajudar na venda de livros, mas pouco contribui para a pesquisa crítica,  além de prejudicar a integridade e reputação de um homem cujo “único objetivo” era “a glória de Deus”.215 John Nelson Darby era um cuidadoso estudante da Bíblia que encontrou uma base exegética para a doutrina do arrebatamento pré-tribulacionista nas Escrituras, a qual ele consistentemente mantinha como seu único guia.

O registro pessoal de Margaret MacDonald sobre sua declaração de 1830 (veja o apêndice) é citado por Robert Norton em Memórias de James e George MacDonald de Port-Glasgow (1840), e nos garante uma análise detalhada. Rennie reconhece que sua declaração não era tão clara como sugere MacPherson.216 Certamente não há “uma série de arrebatamentos”, como MacPherson afirma. Após análise detida do relato de MacDonald, podemos concluir adequadamente que ela estava, de fato, advogando um arrebatamento pós-tribulacionista em que a Grande Tribulação era “o julgamento ardente para nos testar”, a qual será “para expurgação e purificação dos membros reais do corpo de Jesus”. Ela também descreveu esse período como sendo “do anticristo”, quando Satanás “tentará estremecer cada detalhe de nossa crença”, quando “a terrível visão de um Cristo falso será visto nesta Terra” e quando “nada além de Cristo vivendo em nós poderá detectar essa tentativa horrível do inimigo de nos enganar”.217 MacDonald se incluía entre os fiéis que seriam tentados depois que o anticristo se manifestar e durante o período da Tribulação. Essas “revelações” são completamente inconsistentes com o ensino de Darby.

Explorando o Mito

Apesar de duvidar de MacPherson e afirmar que Darby realmente rejeitou as manifestações de Port-Glasgow como um delírio, Ian Rennie obstinadamente se recusa a abrir mão desse “cabo de guerra com a verdade”.218 Relutante em absolver Darby por completo, ele sugere que a declaração de MacDonald foi o “empurrão para o moinho de Darby” e que, ao sair da Escócia, Darby “levou consigo impressões das quais, depois de anos de reflexão, desempenhariam um papel fundamental na formação do ensino de um arrebatamento secreto pré-tribulacionista”.219

Flegg e Weber estão entre aqueles que expressaram insatisfação com Tregelles e com as “inconvincentes”220 arguições de MacPherson, e concluíram que “seus argumentos não resistem à crítica séria”.221 Sandeen acusa aqueles que citaram Tregelles contra Darby de fazerem “uma infundada e perniciosa acusação”,222 enquanto o livro de MacPherson tem sido ignorado como uma “vingança contra o pré-tribulacionismo”,223 livro este que é “ridículo”224 e cheio de “polêmicas enfadonhas”.225 Benware e Nebeker afirmam que “não há claras evidências de que Darby derivou suas posições de Margaret MacDonald ou de Edward Irving”,226 e que qualquer indicação de uma “conexão diretamente” entre Darby e Irving é “excessivamente reducionista”.227 O estudioso F. F. Bruce também distanciou Darby de Irving e de MacDonald, reconhecendo que a doutrina do arrebatamento pré-tribulacionista estava “nas discussões de ávidos alunos de profecia não cumprida entre os anos 1820 e 1830”.228 Assim como Weber admite, aqueles que criticam Darby “deverão se contentar com a explicação do próprio Darby”.229

O Jornal Morning Watch

A vox populi dos evangélicos no século 19 na Igreja da Inglaterra era o Christian Observer, uma revista lançada pela seita de Clapham. Seus editores notaram o despertar pré-milenista na edição de julho de 1825 e revisaram certo número de escritos representativos, mas, por volta de 1830, seu foco se distanciou do pré-milenismo. Dali em diante, os pré-milenistas começaram a propagar suas doutrinas “em seus próprios periódicos”,230 dentre os quais estavam o Christian Herald (Dublin, 1830-1835) e o Investigator (Londres, 1831-1836). Durante a Conferência Albury, em 1828, os delegados tomaram a decisão de dar um alerta à igreja como um todo. Financiado por Henry Drummond e editado por John Tudor, o Quarterly Journal of Prophecy and Theological Review (Jornal Trimestral de Profecia e Avaliação Teológica), ou Morning Watch, foi lançado. Quatro anos depois, em sua última edição, Tudor declarou qual fora o propósito da fundação do jornal:

E agora, quando a Igreja Protestante se tornou tão morta e formal quanto a Igreja Papal; quando o amplo volume da palavra de Deus, projetada para preencher cada compartimento da alma humana, saciar todos os seus desejos e transcender suas expectativas; quando esse presente de Deus para todos os homens, concebido para ser livre como o ar do céu (...) foi comprimido em artigos, entravada por comentaristas, e em sua maior porção (...), a porção profética, foi proibida e banida por todos os governantes em todas as igrejas da nação; nessa ocasião, e sob tais circunstâncias, nasceu o Morning Watch, para proclamar toda palavra de Deus a toda a igreja; para asseverar o direito de cada indivíduo de interpretar toda a palavra, a qual revela o Senhor Deus, de quem somos imagem e semelhança.231

Tudor cria que o mundo estava à beira da catástrofe e que certos eventos tumultuosos foram descritos pela Bíblia, incluindo um “especialmente designado por Deus como aquele que peculiarmente redundaria em sua glória diante dos homens (...), a saber, a restauração dos judeus”.232 Esforçando-se para levantar a igreja da sarjeta, Tudor incluiu um discurso, escrito em 1785 pelo bispo de Lescar, em uma edição do jornal de 1833. Nesse discurso, Lescar insistiu que as “melhores esperanças” da Igreja estavam “entrelaçadas” com a restauração de Israel e lamentou o desprezo da Igreja pelos judeus:

Ó, miserável remanescente desse povo, arrastado para o pó e pisoteado debaixo dos pés das nações, eu não sou cúmplice do desprezo injusto com o qual estás sobrecarregado. Eu adoro a mão do Todo-poderoso, a qual tem pesado sobre vós por dezessete séculos; mas eu sempre esperei em sua misericórdia. Eu medito sobre o posto do qual vocês foram destituídos e para o qual vocês foram destinados; eu os vejo no remanescente dos filhos de Abraão, segundo a carne ― os pais dos filhos de Abraão segundo o Espírito (...) e, atônito a tais privilégios transcendentes, eu me uno à igreja em oração diária a Deus para que ele se digne a agir com misericórdia ― reunindo-vos a Ele e, por meio de sua restauração, cumprir suas promessas, silenciar seus inimigos e assegurar o repouso, glória e estabilidade da igreja.233

O Morning Watch parece ter defendido um arrebatamento pré-tribulacionista, possivelmente “parcial”, crendo que a assunção ou translação da igreja estaria confinada somente àqueles que foram fiéis a Cristo e almejaram seu retorno. Sucessivas edições se referiram ao modo como “Deus prometeu que, por meio da vigilância e oração, escaparemos de todas as coisas que acontecerão”,234 e como “os membros do corpo de Cristo serão reunidos a Ele antes que os membros do anticristo (...) se unam contra o Cordeiro e seus exércitos”,235 como durante o “longo período” de seu retorno apenas “aqueles que permanecem em vigilância, oração e no aguardo de seu Senhor, e somente a estes, Cristo se manifestará no início do DIA de sua vinda”236 e como “podemos diariamente aguardar o cumprimento” desta “translação”237 da igreja. Apesar de Darby ter acusado o jornal de ser “tendencioso com suas próprias posições”238 e rejeitar seu historicismo subjacente,239 a contribuição do Morning Watch para o pré-milenismo, em geral, e para o Restauracionismo cristão, em particular, foi significante. A publicação do jornal terminou quando John Tudor assumiu maiores responsabilidades na Igreja Católica Apostólica.

Conclusão

Antes de consideramos como o Restauracionismo se tornou interligado com a política durante o século 19, é importante identificar aqueles que, ao lado de Darby, foram instrumentos para acabar com o monopólio da escola historicista, a qual caiu em descrédito devido a previsões fracassadas. Assim como Robert Anderson destacou, “nos dias atuais, estudantes de profecia se tornaram profetas e, com uma mescla de insensatez e ousadia, têm procurado fixar o exato ano do retorno de Cristo à Terra”.240

Em A escola apostólica de interpretação profética (1849), Charles Maitland241 denunciou a escola historicista em favor do futurismo defendido por seus “silenciosos pioneiros”,242 William e Thomas Whiterby, e também por Samuel Roffey Maitland, William Burgh e Joseph Tyso. Na tentativa de tirar o véu que encobriu a profecia bíblica por séculos, Tyso, que descreveu o sistema ano-dia como “um tecido sem base”,243 diferenciou entre a “chave literal” que abre “os tesouros da verdade profética” e a “chave mística” que havia sido “feita para se encaixar em tudo, mas que na verdade não se encaixava bem em nada”. Ele sustentava que apenas utilizando a chave correta, a igreja compreenderia que os judeus deveriam ser restaurados “à sua própria terra” e que o Templo e o sistema sacrificial seriam restaurados antes do retorno de Cristo.244

Em sua Revisão da Escritura (1818), William Witherby descreveu a restauração dos judeus como “um peso profético” do Antigo Testamento e afirmou que a ressurreição de Cristo confirmou “todas as promessas feitas ao Israel que é irmão de Moisés e dos profetas”. Ele asseverou que “nenhuma parte profética do Apocalipse” foi cumprida além do “que está declarado a respeito das Sete Igrejas Asiáticas”, e citou Apocalipse 11 como “evidência irrefutável de que o Templo de Deus será restaurado”. Ele também limitou o reino do anticristo a um período de 42 meses.245

Em uma série de diálogos, Thomas Witherby alegou que era “tanto dever como interesse dos cristãos examinar suas opiniões acerca dos judeus”. Ele cria que a história mostrou “que é terrível para uma nação agir com hostilidade contra os judeus sem a permissão do Senhor Deus de Israel”, assim como aconteceu com a Assíria e com a Babilônia (cf. Is 10.5; Jr 51.20), em que “o menor excesso cometido na execução” dessa comissão “certamente redundaria em duras punições”. Apesar de Deus ter prescrito juízo para o povo judeu, Seu Filho em breve retornaria “para reuni-los como povo eleito de Deus e novamente restaurar o reino a Israel com esplendor dez vezes maior”. Witherby lamentava o fato de que, na Igreja da Inglaterra, a confissão de fé fosse “completamente muda quanto ao tema da restauração dos judeus”,246 além de ser notavelmente ausente nos credos antigos da igreja.

Embora Darby não faça menção a Tyso ou aos Witherbys em sua Coleção de escritos, ele se refere a Maitland e Burgh. Samuel Maitland, membro da LSPCJ e conhecido de Charles Simeon, refutou como “erro” a teoria do ano-dia, argumentando que os 1260 dias eram “dias naturais”.247 Isso desencadeou uma exaustiva reação em Edward Bishop Elliott (1793-1875), cuja defesa do historicismo em quatro volumes, intitulada Horae Apocalypticae (“Horas com o Apocalipse), tem sido descrita como “o manual padrão”248 da escola historicista. Darby adquiriu uma cópia para sua coleção particular. Na edição original de 1844, Elliott explicou como o futurismo de Maitland:

Começou a causar uma forte impressão nos investigadores proféticos, assim como em outros estudantes da literatura bíblica e eclesiástica. E igualmente acarretou considerável dúvida na mente de muitos no tocante à (...) teoria do ano-dia profético, comumente aceita na Inglaterra desde a Reforma.249

Darby estava familiarizado com a obra de Maitland e tinha um “profundo respeito”250 por sua formação. Ele também estava a par da obra de William Burgh, um colega diplomado pelo Trinity College, em Dublin.

Em uma série de doze palestras publicadas em 1832, Burgh descreveu os judeus como “chaves para a profecia”, afirmando que Deus “nunca fez e nem fará nada independentemente desse povo”.251 Ele cria que o povo judeu retornaria à sua terra antes de reconhecer Jesus como o Messias e que o anticristo faria uma aliança com eles antes de se estabelecer no Terceiro Templo. Ao escrever para o Christian Herald, em 1832, Darby falou do “progresso da convicção quanto à veracidade e proximidade da vinda do nosso Senhor” e sugeriu que os escritos de Burgh continham “a exposição mais popular e comum (...) atualmente entre as expectativas da vinda do nosso Senhor”.252

Esta breve introdução ao futurismo não apenas conecta Darby aos inúmeros evangélicos que ficaram cada vez mais desiludidos com a escola historicista, mas silencia aqueles críticos que o caracterizavam como uma nódoa no cenário pré-milenista. Determinados aspectos da escatologia de Darby certamente não foram singulares, mas como o historiador evangélico David Bebbington e Eliayahu Tal, do Fórum Internacional por uma Jerusalém Unida, têm reconhecido, John Nelson Darby foi “a figura mais importante” do século 19 “a adotar uma forma de pré-milenismo futurista”.253

Paul Richard Wilkinson

Este site é melhor visualizado em Mozilla Firefox, Google Chrome ou Opera.
© Copyright 2009, todos os direitos reservados.
Igreja Batista Redenção.