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Ideias Erradas Sobre o Louvor Cristão

Pastoral

A liturgia cristã contemporânea é, sem dúvida, a maior expressão da ignorância bíblica do evangelicalismo moderno. Igrejas históricas têm sucumbido rapidamente a um modelo litúrgico emocionalista, teologicamente vazio, focado na experiência individual e que usa recursos artificiais para “prender” a atenção do público. Na prática, muitos cultos nada mais são do que shows musicais, nos quais o conceito de “adoração” se tornou subjetivo e o foco da reunião passou a ser o adorador em lugar do adorado.

Dentre tantas bizarrices litúrgicas, o “louvor” se tornou o queridinho do movimento evangélico. Nas redes sociais, perfis eclesiásticos postam duas ou três fotos do momento destinado à pregação e à oração, enquanto as sete ou oito fotos restantes focalizam o palco iluminado com tecnologia de primeira linha, o guitarrista “ungido” que faz solos quase davídicos, os vocais “consagrados” de olhos fechados e a congregação dançante no maior estilo baladinha. Sob o pretexto da luta contra a liturgia fria e impessoal das igrejas reformadas (o que é verdadeiro em muitos casos), diversas comunidades locais adotaram um formato mais contemporâneo afirmando preservar o conteúdo bíblico. Entretanto, ao comparar os ideais da Escritura com a realidade atual, percebem-se pelo menos duas ideias erradas a respeito do louvor cristão.

O primeiro erro é crer que os músicos da igreja são os “levitas cristãos”. Não é preciso ir muito longe para saber o quão ridícula essa ideia é, pois o termo “levita” se aplica exclusivamente aos descendentes físicos da tribo de Levi, os únicos que eram autorizados a ministrar diante de Deus na comunidade israelita. Inclusive, certificar tal linhagem é uma das razões para que haja tantas genealogias no Antigo Testamento. O culto do Novo Testamento, porém, não é vinculado a linhagens ou cargos, já que todos os crentes são considerados sacerdotes diante de Deus (1Pe 2.9).

Além disso, vale lembrar que o levita do Antigo Testamento não era responsável apenas pela música do culto público. De fato, Davi instituiu músicos levitas em 1Crônicas 6.31-32, equipe da qual o famoso compositor Asafe fazia parte (1Cr 16.4-7 cf. Sl 50; 73-83). Entretanto, os levitas eram responsáveis também pela execução de todos os demais ritos sacrificiais do Tabernáculo e do Templo. Visto que tais práticas se encerraram com o sacrifício definitivo de Cristo e com a instituição da Nova Aliança (Hb 8.6,13), a função levítica não tem qualquer conexão com a igreja. Tentar impor tais coisas à comunidade cristã é judaizar a liturgia do Novo Testamento.

Infelizmente, ainda que muitos músicos não façam uso do título levítico, vivem como se fizessem parte de uma elite espiritual, colocando-se acima de qualquer crítica e negligenciando responsabilidades básicas de todo cristão, como o estudo bíblico, a santidade e o zelo pelos irmãos. Muitas vezes, são pessoas soberbas que, desdenhando das coisas santas, terminam o “show” e ficam a conversar no fundo da igreja durante a pregação. Não é de se admirar que muitos sejam até incrédulos. Se fossem, de fato, levitas, seriam os da pior espécie, a exemplo de Nadabe e Abiú (Lv 10.1-3) e Hofni e Fineias (1Sm 2.12-17).

O segundo erro é acreditar que o louvor é uma expressão individual de adoração. É evidente que cada crente deve nutrir uma disposição pessoal ao cantar músicas no culto público. Entretanto, o Novo Testamento sempre coloca os “salmos, hinos e cânticos espirituais” no contexto coletivo, em que a edificação, exortação e consolo mútuos acontecem por meio das verdades entoadas em louvor a Deus (Ef 5.18-21; Cl 3.16). A ideia de apagar as luzes, fechar os olhos, erguer as mãos e entrar em um transe individual é absolutamente estranha ao Novo Testamento.

Ainda nesse desvio, muitas igrejas se esquecem do princípio da congregacionalidade. Esse valor inegociável, fruto do simples bom senso, diz que uma música entoada em um culto público deve ter ritmo, volume e letra acessíveis a todas as faixas etárias presentes na igreja. Essa abrangência não é mero capricho, mas expressa, justamente, a coletividade da reunião, pois assegura, por exemplo, que os idosos acompanhem o louvor junto aos mais jovens, entendendo a letra e seguindo a melodia. Porém, muitas igrejas montaram verdadeiras bandas de rock que, insensíveis à realidade local, estouram o volume das caixas de som em ritmos totalmente incompatíveis com a pluralidade etária da comunidade cristã local.

Mas, afinal, de quem seria a responsabilidade de reverter esse quadro tão triste? Além dos crentes individuais, cabe aos pastores a tarefa de ensinar e dirigir as ovelhas na construção de uma liturgia saudável e de um louvor realmente bíblico. O cajado pastoral deve ser usado para corrigir erros, levar à edificação do povo santo e promover genuína adoração a Deus. A experiência comum diz que problemas semelhantes aos listados anteriormente tendem a se espalhar para as demais áreas da igreja, comprometendo a autoridade da pregação e até mesmo a pureza da comunidade. Afinal, um presbítero que não zela por uma liturgia correta já comprometeu muito de seu trabalho pastoral. Na prática, tal aprisco é formado por crentes que, ao invés de cantar em harmonia e crescimento, apenas balem emocionados e perdidos, como “ovelhas sem pastor” (Mc 6.34). É hora, portanto, de abaixar os instrumentos e aumentar o volume da Palavra!

Pr. Níckolas Borges
Coram Deo

 

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