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O Gênio da Guerra

Pastoral

A primeira vez que li algo sobre Napoleão Bonaparte, o autor se referia a ele como “o Gênio da Guerra”. Muitos historiadores, especialmente os franceses, concordariam com essa descrição. Outros tendem a colocá-la em dúvida, afirmando, na maioria das vezes, que as vitórias de Napoleão não foram devidas tanto ao seu “gênio”, mas sim a um conjunto de circunstâncias que, em várias ocasiões, coincidiram de forma surpreendente, favorecendo seu sucesso. Quando essa curiosa combinação de circunstâncias, finalmente, deixou de ocorrer, o “gênio” deu mostras de chocante incapacidade e até de covardia.

Eu, por conhecer um pouco da antropologia bíblica e também adotar uma filosofia cristã da história, tendo a duvidar da grandeza dos “gênios” e dos heróis. No caso de Napoleão, duvido mais ainda. Creio que, no princípio, ele se deu muito bem simplesmente porque Deus, o verdadeiro autor e condutor do drama humano, tinha seus decretos a cumprir por meio desse homem. Isso, longe de ser novidade, ocorreu também com os imperadores assírios e babilônicos, por exemplo. De fato, os chefes dos grandes impérios se deram bem porque Deus tinha decretos a cumprir por meio deles. Ocorreu, porém, que esses líderes, assim como Napoleão, ao se verem no ápice de sua glória, começaram a acreditar em si mesmos como a fonte da própria grandeza e, então, Deus, tendo já alcançado seus objetivos com a elevação deles, mostrou quem era mesmo o chefão do pedaço.  

Na história de Napoleão, a noção de grandeza que precedeu sua ruína ficou evidente na invasão da Rússia (1812). O imperador francês e seu exército entraram ousadamente nos domínios do czar Alexandre I e, depois de alguns embates de menor impacto, as tropas inimigas se enfrentaram na batalha de Borodino, a mais sangrenta da campanha de Napoleão, na Rússia. Ambos os lados sofreram milhares de baixas e até hoje não se sabe ao certo qual foi o exército vencedor. O fato é que os russos, mesmo obtendo bons resultados nessa batalha, bateram em retirada, seguindo para Moscou. Depois, também abandonaram Moscou, deixando a cidade de presente para Napoleão. Este, cheio de si, entrou na grande capital, passando a agir como um novo czar, o rei do strogonof, senhor absoluto do Ocidente e, agora, do Oriente.

Napoleão acreditou nessa bobagem até que a “ficha caiu”. Ele, então, pensou: “Tem algo errado nisso tudo. Eu perdi uma boa parte do meu exército em Borodino. Agora estou a  milhas e milhas distante da França, sem poder repor essas perdas e aumentar minhas tropas. Além disso, aqui em Moscou não tem suprimentos porque esses russos malucos botaram fogo em tudo. Pra piorar, os generais russos estão agora em algum canto desse país reunindo mais e mais homens com facilidade e formando um exército gigante. Não sei... Acho que os meus inimigos me atraíram para uma arapuca. Moscou não é um troféu. É uma gaiola! Que danados! Eles fingiram que estavam fugindo para me atrair o máximo possível para o interior da Rússia onde, sozinho com um exército reduzido e sem suprimentos, serei esmagado como um rato”.

O imperador francês estava certo. Só que ele acordou para isso tarde demais. Desesperado, tentou marchar de volta para a França, mas o inverno russo começou e milhares de seus soldados morreram de frio e de fome no caminho. O exército russo, a essa altura, retomou os combates e, pra piorar, Napoleão teve de enfrentar, ainda, um novo tipo de confronto com o qual ele não estava acostumado: a guerrilha. Sim, grupos de camponeses começaram a se reunir para assaltar os franceses em retirada, a fim de roubar tudo que tinham. Esses guerrilheiros saíam dos bosques e das florestas em pequenos grupos e atacavam de surpresa o exército cansado, faminto e maltrapilho de Napoleão, sem que esse pudesse opor grande resistência. Foi um desastre! Quando tudo terminou, Napoleão praticamente não tinha mais exército. Ele havia invadido a Rússia com 610 mil homens. Agora retornava à França com apenas 10 mil. Sua ruína completa era mera questão de tempo.

Que relevância uma história desse tipo tem para os cristãos? Bem, logo de cara eu detecto duas. Em primeiro lugar, nunca acredite na tolice da sua própria grandeza. Qualquer realização sua só é sua porque lhe foi dada por aquele que é a verdadeira fonte de tudo. Foi isso o que João Batista ensinou quando disse: “O homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu” (Jo 3.27 veja-se tb. 1Co 4.7).

Em segundo lugar, nunca confie no brilhantismo de seus planos. Tiago já nos alertou acerca disso quando escreveu: “Agora, prestai atenção, vós que aclamais: ‘Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá nos estabeleceremos por um ano, negociaremos e obteremos grande lucro’. Contudo, vós não tendes o poder de saber o que acontecerá no dia de amanhã. Que é a vossa vida? Sois, simplesmente, como a neblina que aparece por algum tempo e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis afirmar: ‘Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo’. Entretanto, estais agora vos orgulhando das vossas capacidades. E toda vanglória como essa é maligna” (Tg 4.13-16).

Quanta falta esses versículos fizeram para Napoleão! Sem conhecer essas verdades, o “gênio da guerra” se deixou levar por ilusões de grandeza que precederam sua queda completa, provando, mais uma vez, que o homem sem Deus não passa de um tolo orgulhoso, só sendo idolatrado por outros tolos como ele.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

 

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