Segunda, 23 de Setembro de 2019
   
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A Dor e o Consolo no Crescimento

Pastoral

Conversei com uma pessoa que, tendo frequentado duas igrejas ao longo de um bom tempo, vive hoje afastada da comunhão por ter se decepcionado com o tratamento que recebeu de irmãos das igrejas das quais fez parte. Obviamente, eu a aconselhei mostrando que a vontade de Deus é que seus filhos congreguem como um corpo (Hb 10.25) e que, sabendo das nossas falhas e dos problemas que resultam disso, orientou-nos a ter no amor o suporte para convivermos em união (Cl 3.13), em uma atitude de verdadeira abnegação (Rm 15.1,2). Ainda assim, a vida cristã nem sempre é fácil e, muitas vezes, sucumbimos ao desânimo e à decepção. Nesse sentido, há dois tipos de desânimo.

O primeiro deles é causado pelas ações de terceiros. Há uma pequena ilustração que fala sobre os desconfortos gerados na necessária e vital convivência dos crentes: “A igreja é como um bando de porcos-espinhos durante o inverno. Eles precisam se aproximar a fim de se aquecer e não morrer de frio. O problema é que a proximidade, além de calor, promove algumas ‘espetadas’. Mas é melhor ser espetado que morrer de frio”. Isso é tão verdadeiro como verdadeira é a dor das “espetadas”. O que quero dizer é que o valor da comunhão cristã não diminui o sofrimento dos atritos dentro do corpo de Cristo. As falhas das pessoas podem causar sofrimentos em outros.

O segundo tipo de desânimo é causado pelas nossas ações pessoais. Se é ruim sofrer com a dor das “espetadas” que vêm de outros, ser aquele que “espeta” também é motivo de tristeza e desilusão. Com todo o desejo sincero que temos de servir a Deus, não é fácil olhar no espelho e ver um pecador, cheio de falhas e, pior, alguém que é causador de sofrimento nas pessoas amadas. É muito triste ser exposto diante dessa visão. Além do mais, nossas falhas precisam ser corrigidas para que cresçamos. Isso acaba por gerar novas dores, simplesmente porque não é nem um pouco fácil ter nossas falhas repreendidas pelos irmãos. O pecador que se importa com a santidade de vida e com a comunhão dos santos não deixa de sentir a dor desse processo.

Apesar da conclusão óbvia de que o sofrimento é parte da experiência eclesiástica até nosso encontro com o Redentor, o Senhor bondoso é sensível ao que sentimos e à tristeza que nos abate. Por isso, no trato com o pecado, nosso e alheio, as Escrituras sempre deixam exalar o perfume do consolo e da esperança que vem do trono do rei majestoso, que é tanto nosso Pai amado como pastor das nossas almas. O livro do profeta Isaías é um exemplo do tratamento preocupado e amoroso do nosso Deus diante da fragilidade dos seus servos.

A primeira parte do livro — capítulos 1 a 35 — tem como ênfase a acusação divina dos pecados de Israel e a garantia de que seu sistema de vida corrupto, imoral e contrário a Deus seria derrubado, havendo punição severa aos rebeldes. O problema é que nem todo mundo era rebelde. Sempre houve em Israel um remanescente fiel que confiava em Deus e que sofria com o pecado dos ímpios. Esses tinham um sofrimento duplo. Em primeiro lugar, sofriam com as injustiças dos pecadores, sendo atingidos pela ganância de homens egoístas, oprimidos pelos poderosos e abatidos pela impureza de quem devia ser luz no mundo. E, segundo, porque a punição que recairia sobre Israel atingiria a sociedade como um todo. No final das contas, as promessas de juízo e purificação da primeira parte do livro de Isaías constituíam um peso para os que temiam a Deus.

Mas o livro não para por aí. Depois de um interlúdio histórico — capítulos 36 a 39 —, a ênfase que surge a partir do capítulo 40 é a de restauração do povo de Deus pela ação do Servo que sofre por eles e do seu restabelecimento debaixo da graça e das bênçãos do Senhor. Mesmo tratando do pecado, Deus não deixa que seu povo que o ama seja abatido pela tristeza da desesperança. Ao contrário, ele consola e concede uma esperança futura que traz alento e coragem no presente. Assim, ele diz, com linguagem quase infantil: “Como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos e os levará no seio; as que amamentam ele guiará mansamente” (Is 40.11). Que palavras doces para quem está sofrendo! É como se Deus tomasse no seu colo crianças chorosas e lhes sussurrasse aos ouvidos para trazer-lhes não apenas a certeza do cuidado, mas a paz do seu trato amoroso e suave. Que conforto é se sentir amado pelo Pai bondoso!

Por outro lado, Deus também quer garantir aos integrantes de seu povo que eles continuarão caminhando com forças que ele lhes dará: “Faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços de exaustos caem, mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” (Is 40.29-31). O Senhor garante que sua atuação sobre seus servos enfraquecidos teria neles o efeito que as asas de um pássaro têm, permitindo-lhe voar sobre os perigos e pousar adiante, em um lugar seguro e com alimentos abundantes.

Por isso, por pior que sejam as dores causadas pelo pecado, nosso e alheio, é mais do que possível encontrar em Deus o verdadeiro consolo — o colo de Deus — diante das desilusões e seguir com coragem e capacitação divina — as asas do crente — rumo à santidade requerida pelo Senhor e à comunhão do corpo de Cristo com a qual fomos abençoados, a qual nos fornece calor afável em meio ao inverno do mundo perdido.

Pr. Thomas Tronco

 

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