Quinta, 06 de Agosto de 2020
   
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Obadias, o Teólogo

Pastoral

É fácil confundir o título dessa pastoral associando-o a Obadias, o profeta e escritor de um dos livros do Antigo Testamento. Afinal, quem melhor que um profeta de Deus para ser identificado como um “teólogo”? Entretanto, tenho em mente outro Obadias: o servo do perverso Acabe, rei de Israel, o reino do Norte (874-853 a.C.). Outra confusão vem de ele ser descrito nesse título como “teólogo”. Pode dar a impressão de que ele fosse de um sacerdote ou um tipo de rabino, quando, na realidade, Obadias era o mordomo do rei. Apesar disso, seu correto conhecimento de verdades fundamentais a respeito de Deus faz com que ele mereça o título de “teólogo”.

A primeira demonstração do conhecimento teológico de Obadias é que ele conhecia o poder e a glória de Deus. Por isso, o autor do livro de Reis, ao introduzir Obadias (1Rs 18.3), explica quem ele era funcionalmente – o responsável pela casa do rei – e espiritualmente – “era temente ao Senhor”. Ao dizer isso, o escritor completa a descrição com o advérbio hebraico traduzido como “muito” (me’od). A ênfase, obviamente, recai sobre o modo verdadeiro com que Obadias se relacionava com o Senhor, por saber quem ele era, visto que “temor a Deus”, nas Escrituras, é um conceito que, além do próprio receio de ser alvo da disciplina divina, envolve respeito, amor, submissão e dependência.

O segundo conhecimento teológico de Obadias é a primazia de Deus nas escolhas dos homens. A certa altura do seu trabalho na corte, ele passou a presenciar a perseguição de Jezabel, esposa do rei, aos profetas de Deus a fim de exterminá-los. Diante disso, ele tinha duas opções: ser fiel à casa real ou ser fiel a Deus. Ele escolheu ser fiel a Deus e, mesmo com risco pessoal de se tornar alvo da ira diabólica da rainha, protegeu e preservou a vida de cem profetas de Deus (1Rs 18.4).

O terceiro conhecimento é o valor da Palavra de Deus. Ele foi ordenado a procurar, junto com seu senhor, erva para que os cavalos reais não morressem de fome, já que a punição do Senhor estava sob toda aquela terra na forma de uma dura seca. Nessa busca, Obadias foi por um caminho no qual encontrou o profeta Elias, a quem Acabe procurava havia bastante tempo para matar. Ao reconhecê-lo, prostrou-se e disse: “Meu senhor Elias” (1Rs 18.7). A questão é: “Por que Elias foi chamado de senhor?”. Certamente, não é porque tivesse alguma ligação direta com Obadias ou porque Elias fosse um homem especial em si mesmo, mas por ser ele o servo do Senhor que anunciava a Palavra de Deus, a qual Obadias valorizava (cf. 1Rs 17.1).

O quarto conhecimento teológico de Obadias era a atuação de Deus como guia. Quando Obadias encontrou Elias, o profeta o mandou anunciar a Acabe sua chegada. Obadias temeu levar ao rei essa informação, explicando a Elias: “Poderá ser que, apartando-me eu de ti, o Espírito do Senhor te leve não sei para onde, e, vindo eu a dar as novas a Acabe, e não te achando ele, me matará” (1Rs 18.12). Independente do temor de Obadias, é perceptível seu conhecimento da ação divina de guiar seus servos e enviá-los aonde lhe apraz.

O conhecimento teológico desse israelita do nono século antes de Cristo continua verdadeiro hoje, nos dias da igreja, e fundamental para aqueles que foram salvos por Cristo. Apesar do atual desprezo da teologia por parte da igreja moderna, sua importância continua a mesma – e os efeitos positivos dela, também. Quando um crente tem esses conhecimentos teológicos é muito comum vê-lo nutrir uma reverência a Deus que leva a cultuá-lo de modo agradável da perspectiva divina e não humana; fazer escolhas visando a cumprir a vontade de Deus e a glorificar seu nome; primar pela leitura da Bíblia e pela presença em todos os cultos e estudos bíblicos em que possa aprender o que Deus revelou ao homem; e, finalmente, ser sensível à direção de Deus pelo Espírito Santo que habita nos crentes.

Mas diga: não é exatamente assim que o crente deveria andar? E não é por agir diferente disso que a igreja tem assumido posturas estranhas ao cristianismo e tem deixado entrar pela porta da frente as doutrinas mais destruidoras da História?

Sendo assim, o melhor remédio para a igreja doente do século 21 é fazer com que cada crente se torne como Obadias, o teólogo. Nem todos serão teólogos profissionais, assim como Obadias não era. Mas todos seriam conhecedores da verdadeira Teologia: quem é Deus e como o servimos. Desse modo, apesar de sermos o “João, o marceneiro”, a “Márcia, a costureira” e o “Pedro, o contador”, seríamos todos nós conhecidos como “fulano de tal, o teólogo” – e “o bom servo do Senhor”.

Pr. Thomas Tronco

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