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Obadias 17

 

“Mas no monte Sião estarão os sobreviventes e ali será um lugar santo. Então, a casa de Jacó possuirá as suas herdades” (Obadias 17).

Os dois versículos precedentes criaram a imagem crescente de um severo juízo que abateria Edom e que atingirá, um dia, todas as nações da Terra que se colocaram, pela incredulidade, como inimigas de Deus e do seu povo. O profeta é enfático na mensagem de que o dia do Senhor viria com uma força tão grande que abateria todos aqueles que comemoraram o sofrimento do povo do Senhor, recebendo o pagamento por sua maldade de tal modo que jamais pudessem se recuperar, sendo aniquilados para sempre.

Que diferença do quadro pintado pelo v.17. Enquanto as nações são abatidas e caem como quem ingeriu uma bebida forte até muito além do seu limite (v.16), aqui Israel é cuidado, tratado e recuperado pelo Senhor justamente “no monte Sião”, cidade chamada de “meu monte santo” no v.16. Nesse mesmo lugar de desventura para os israelitas dos dias de Obadias, haveria uma reviravolta. A palavra “mas” no início do versículo contrasta nitidamente o destino das nações, no final do v.16, com a sobrevivência do povo do Senhor.[1] A previsão profética é que ali “estarão os sobreviventes”. Apesar de diversos tradutores escolherem a palavra “livramento”, o significado preferível é o de “remanescente”, ou seja, os sobreviventes dentre os israelitas perseguidos e mortos em grande número. Como o texto presente não desenvolve o tema desse restante da descendência de Jacó, não se sabe se o profeta se refere aos sobreviventes da invasão dos seus dias ou de outra guerra futura nos dias que antecederão ao livramento.

Contudo, Joel, autor que escreve depois de Obadias e que adiciona mais cores ao quadro da revelação progressiva, aclara a questão dizendo: “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque, no monte Sião e em Jerusalém, estarão os que forem salvos, como o Senhor prometeu; e, entre os sobreviventes, aqueles que o Senhor chamar” (Jl 2.32). Trata-se da descrição de um conflito militar futuro que terminará no dia do Senhor com os judeus sobreviventes encontrando abrigo na cidade de Jerusalém. Essa é uma declaração cheia de grandes porções de esperança, pois deixa às claras o fato de que Israel não seria destruído ao longo da história, por mais que tentassem seus inimigos. Nem tampouco seriam destruídos nessa batalha final, cujas cores de tom fúnebre receberão a luz do dia do Senhor, no qual serão abatidos os inimigos perversos enquanto Israel terá no monte Sião seu bastião indestrutível onde encontrar refúgio.

Nesse dia glorioso para os sobreviventes de Israel, o monte Sião, além de refúgio e abrigo, também “será um lugar santo” ou “um santuário”. Quer dizer que a cidade voltará a ser o local que Deus separou para, em santidade, habitar no meio do povo a quem ele concedeu aquela terra e que escolheu para ser um povo santo e de sua propriedade peculiar (Êx 19.3-6). Na prática, isso significa que os inimigos de Deus e do seu povo serão desalojados dessa cidade, cumprindo a previsão de Jesus: “Cairão a fio de espada e serão levados cativos para todas as nações; e, até que os tempos dos gentios se completem, Jerusalém será pisada por eles” (Lc 21.24). Eis a razão pela qual Israel, atualmente, não importa quão duramente tente, não consegue ter domínio pleno de Jerusalém.

Porém, o mesmo texto indica que chegará o dia em que uma mudança repentina ocorrerá, de modo que, encerrado “os tempos dos gentios”, encerra-se também a previsão de que “Jerusalém será pisada por eles”, tornando-se novamente uma cidade santa e separada pelo Senhor ao povo eleito como instrumento da sua vontade a fim de habitar no território prometido aos patriarcas. Trazendo tais verdades para a mensagem de Obadias, conclui-se que o monte Sião, que havia se tornado um cenário de destruição para Judá, um dia se tornaria o lugar da sua libertação e resgate, deixando de ser profanado pelos estrangeiros e voltando a ser um lugar santo,[2] separado da adoração e glória do único Deus.

Como término natural desse processo, o texto conclui que “a casa de Jacó possuirá as suas herdades”. Casa de Jacó é uma expressão que designa a família de Jacó, que nada mais é do que o povo de Israel. Assim, tal povo tomará posse da sua herança, ou seja, a terra da promessa. Ao longo de toda história, o povo judeu foi sendo exilado para longe desse território e espalhado por muitas nações. Nem mesmo com o grande retorno, fruto dos movimentos sionistas nos séculos 19 e 20, foi possível trazer de volta toda a família de Jacó, que permanece habitando em muitos países do mundo. Olhamos para isso com grande compaixão pelos judeus, vendo-lhes o sofrimento, a desventura e as injustiças perversas com as quais foram tratados ao longo dos séculos. Entretanto, as Escrituras previram tais desventuras como uma disciplina de Deus ao povo que ele escolheu.

Em Deuteronômio 28.15-68 há a descrição dos castigos que o Senhor lançaria sobre os israelitas caso eles fossem rebeldes e infiéis à aliança que fizeram no monte Sinai, ao serem libertos da escravidão egípcia. Dentre tais castigos ― todos eles terríveis ―, há a promessa de que inimigos, como nos dias de Obadias, seriam levantados para fazer guerra e vencer Israel em meio a inúmeras mortes: “O Senhor levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra virá, como o voo impetuoso da águia, nação cuja língua não entenderás; nação feroz de rosto, que não respeitará ao velho, nem se apiedará do moço” (Dt 28.49-50). O exílio e a perda da posse da sua terra também estão entre as punições que Israel receberia por causa da sua infidelidade ao pacto: “O Senhor vos espalhará entre todos os povos, de uma até à outra extremidade da terra. Servirás ali a outros deuses que não conheceste, nem tu, nem teus pais; servirás à madeira e à pedra. Nem ainda entre estas nações descansarás, nem a planta de teu pé terá repouso, porquanto o Senhor ali te dará coração tremente, olhos mortiços e desmaio de alma” (Dt 28.64-65).

Quanto sofrimento e dor tais palavras produziram à descendência de Jacó! Entretanto, ainda que nos compadeçamos desse povo e sejamos simpáticos à sua dura luta na tentativa de reverter esses efeitos, o próprio Deus explica que tais desventuras não têm fonte nas infelicidades comuns da vida. A razão de tanto sofrimento está na desobediência e na quebra de uma aliança tremendamente vantajosa para o povo privilegiado pela eleição divina, mas que preferiu rejeitá-lo a fim de amar e seguir as crenças e os deuses falsos de outros povos. Por essa razão, é dito: “Todas estas maldições virão sobre ti, e te perseguirão, e te alcançarão, até que sejas destruído, porquanto não ouviste a voz do Senhor, teu Deus, para guardares os mandamentos e os estatutos que te ordenou” (Dt 28.45). Em resumo, apesar de Israel ser apresentado em Obadias como uma vítima, ele também tem uma lista de pecados puníveis. A grande diferença vislumbrada no v.17 é que, enquanto a punição dos ímpios não terá fim (v.16), a do povo do Senhor tem um limite que antecede sua restauração.

Duas lembranças surgem diante de uma realidade de tal porte. A primeira é que o Senhor não poupa seu próprio povo da disciplina corretiva quando este o abandona e se entrega aos caminhos dos quais foram separados e afastados para que não os trilhassem. Mesmo que Israel nunca tenha deixado de ser um povo escolhido (Rm 11.1-6), deixou, certamente, de desfrutar do cuidado divino para provar a dor das consequências de sua infidelidade nas mãos de inimigos que tanto lhes demonstraram terrível ódio como lhes atacaram com maldades sobre maldades por séculos a fio. O fato de os israelitas mais de uma vez serem reduzidos a um grupo de “sobreviventes” mostra que ignorar os caminhos e o amor do Senhor produz resultados amargos e duradouros para aqueles que deviam, pela boa comunhão com seu Deus, desfrutar de paz e da proteção que ele graciosamente rende aos seus. Temos de encarar o pecado com grande seriedade, pois seus frutos são muito sérios e dolorosos.

A segunda lembrança, por sua vez, é que a nossa infidelidade não faz com que Deus nos imite abandonando suas promessas: “Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2.13). Essa é a razão pela qual Israel ainda sobrevive, independente do empenho e esforço dos inimigos para o destruir, desde o passado até os nossos dias. Em vez disso, os israelitas permanecem e aguardam o cumprimento das promessas de restauração futura. Segundo diz Jeremias: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade” (Lm 3.22-23). Isso quer dizer que nosso Pai cuida de nós ao mesmo tempo que nos corrige e disciplina, sem nunca deixar de nos amar.

Portanto, não se deve abandonar as esperanças de ser perdoado pelo Senhor quando se peca contra ele. Muitos crentes, ao se verem sofrendo as consequências da desobediência e da rebeldia, imaginam que a rejeição divina é uma pena inevitável e impossível de ser alterada. Mas não é assim que a Bíblia expõe o trato de Deus para com seus filhos. Ainda que ele os corrija com a dureza de um pai que se preocupa em disciplinar os filhos, sua graça e amor permanecem sempre prontos a perdoar e restaurar os servos arrependidos e desejosos de voltar à sua plena comunhão. Por isso, diante do desvio e da impiedade, você deve imediatamente abandonar o mal e se voltar ao salvador Jesus Cristo, que persevera em amar e perdoar os que lhe pertencem: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Afinal, nossa santificação e purificação completas, tendo todo o traço de pecado extinto, também nos aguarda no futuro!

Pr. Thomas Tronco


[1] Clark, David J.; Mundhenk, Norm. A translator’s handbook on the book of Obadiah. UBS Handbook Series. London; New York: United Bible Societies, 1982, p. 31.

[2] Smith, Billy K.; Page, Franklin S. Amos, Obadiah, Jonah, vol. 19B, The New American Commentary. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1995, p. 198.

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