Quinta, 19 de Maio de 2022
   
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Heresia

Pastoral

“Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino segundo a piedade, é enfatuado, nada entende, mas tem mania por questões e contendas de palavras, de que nascem inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas, altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.3-5). 

A palavra “heresia” vem do grego αἵρεσις (haíresis) e se refere, basicamente, àquilo que distingue o modo de pensar de um determinado grupo. Se, portanto, uma comunidade específica adota uma opinião ou dogma que a diferencia das demais, esse dogma é, a rigor, a “heresia” da tal comunidade. Obviamente, com o tempo, o termo assumiu um sentido negativo e hoje “heresia” é uma palavra usada indiscriminadamente pelos cristãos quando querem descrever doutrinas falsas. 

Ainda que todo termo tenha certa elasticidade, é, na verdade, chocante o modo irresponsável como a palavra “heresia” tem sido usada na atualidade. De fato, basta alguém discordar de outra pessoa em algum ponto da doutrina bíblica e imediatamente ela lança sobre seu “oponente” o rótulo de herege. Aliás, com a multiplicação dos “teólogos” de Internet, o número de sentenças condenando este ou aquele pastor como herege tem se multiplicado de modo assustador. É o resultado da ignorância que condena com rigor, sem conhecer os limites da linguagem, e que, do alto de sua pilha de cinco ou seis livros, julga-se o paladino defensor da Sã Doutrina.  

Tecnicamente, porém, o vocábulo “heresia” deveria ser empregado com critérios mais bem elaborados, apontando para ideias que, claramente, rompem com as bases do cristianismo, conforme descrito no Novo Testamento. Desse modo, fatores que desfigurem a fé cristã em sua raiz, estes sim deveriam ser classificados como heréticos. A rigor, os cristãos deveriam reconhecer, basicamente, somente quatro heresias: o maniqueísmo, o docetismo, o ebionismo e o pelagianismo. 

O maniqueísmo, grosso modo, aceita a existência de dois deuses, um bom e outro mau. Ambos são supostamente iguais em poder e vivem em constante conflito. Assim, sempre que um crente atribui ao diabo um poder independente e infinito, capaz de frustrar os planos de Deus, agir por conta própria e realizar obras fora da esfera da soberania do Senhor, esse crente flerta com o maniqueísmo e acaba por se afastar da ortodoxia cristã.  

No meio pentecostal, inúmeras são as evidências da heresia maniqueísta, posto que grande parte dos adeptos dessa vertente religiosa vê o diabo como o inimigo equiparado de Deus e reage veementemente contra a ideia bíblica de que o Senhor usa Satanás para realizar seus planos gloriosos e santos. De fato, para muitos evangélicos, o diabo é o “deus do mal” que dá um trabalho imenso para o “Deus do bem”, sempre atrapalhando a execução dos propósitos de Jesus. Isso é heresia! 

O docetismo, por sua vez, ensina que Jesus veio ao mundo apenas com uma aparência humana. Trata-se de uma doutrina que nega a real humanidade de Cristo, seja ao tempo da sua encarnação/humilhação, seja ao tempo da sua ressurreição/glorificação. O espiritismo, ao dizer que Jesus é agora um espírito de luz, esbarra em conceitos docetistas, mas qualquer crente que afirme que a humanidade do Senhor é diferente da nossa, sendo ele mais resistente ao sofrimento ou dotado de uma carne celeste, é docetista em certa medida e milita contra o papel de Cristo como nosso real substituto na obra de redenção do homem. 

O ebionismo era uma seita judaica que negava a divindade de Jesus, crendo nele como um messias meramente humano. Jesus seria, segundo pensavam, uma figura muito especial, mas não tinha nenhuma natureza divina. A teologia liberal é herética porque, como os ebionitas, rejeita a divindade de Cristo. As testemunhas de Jeová também podem ser consideradas heréticas pelo mesmo motivo. Na verdade, qualquer pessoa que acredite que Jesus era um “deus” ontologicamente inferior ao Pai, não sendo da mesma essência que ele, se aproxima em alguma medida do ebionismo e não somente rejeita a cristologia do NT, mas também destrói a soteriologia cristã. Isso porque um “ser criado” não é capaz de salvar ninguém, uma vez que seu eventual sacrifício pelo pecado é finito, ou seja, inadequado para resolver o problema da nossa culpa infinita. 

Finalmente, temos o pelagianismo como a quarta heresia. Segundo essa vertente, o homem é capaz de se salvar à parte da graça de Deus, sendo possível que, esforçando-se ao máximo, obtenha a vida eterna. Posteriormente surgiu também o semipelagianismo que ensina que o homem pode, de si mesmo, tomar a iniciativa na busca de Deus sem que este o mova. Quando, porém, Deus percebe esse esforço, ele vem em socorro do homem e o auxilia na salvação.  

Note-se, assim, que qualquer movimento que ensine que, para serem salvas, as pessoas precisam não apenas da graça de Deus, mas também de algum trabalho adicional, traz em si os germes do pelagianismo. O catolicismo romano, o adventismo do sétimo dia e muitos ramos do evangelicalismo, além de adotar diversos outros erros grosseiros, são movimentos aparentados com o pelagianismo, uma vez que ensinam que, para ser salvo, o homem precisa cumprir as leis e regras de suas comunidades. Aliás, sempre que alguém crê que, para ir ao céu, é necessário que a pessoa “faça sua parte”, nisso demonstra ter em sua alma o vírus pelagiano. 

Eis aí as quatro “heresias básicas” repudiadas pelo cristianismo neotestamentário. Essas quatro vertentes desfiguram o ensino apostólico e representam um forte rompimento com a verdade revelada nas páginas da Bíblia. Por isso, todo crente verdadeiro precisa se afastar de qualquer movimento, igreja ou pregador que apresente algum grau de comprometimento com essas coisas, pois, como diziam os escritores do passado, uma doutrina corrompida concebe uma vida que combina com ela. 

Pr. Marcos Granconato

Soli Deo gloria        

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