Sexta, 05 de Março de 2021
   
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Reflexões sobre o Orgulho

Pastoral

... não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do Diabo” (1Timóteo 3.6).

O texto acima está inserido no trecho que trata das qualificações necessárias ao pastor e, dentre tantas virtudes, é destacado que o presbítero não deve ser recém-convertido (isto é, neófito). O perigo de ordenar alguém novo na fé ao ministério pastoral é assinalado pelo apóstolo na sequência: a soberba, tema que a Bíblia fala bastante e que o ser humano conhece bem. Apesar disso, como bem escreveu C. S. Lewis sobre o orgulho em Cristianismo Puro e Simples, “não existe defeito mais difícil de ser detectado em nós mesmos”. De fato, é fácil apontar tal pecado no comportamento alheio, mas é um trabalho hercúleo admitir a própria soberba.

De tantas considerações bíblicas que poderiam ser feitas a respeito desse tema, algumas simples reflexões partem do texto que abre esta pastoral. Ainda que Paulo não esteja preocupado em fazer um tratado sobre o orgulho em si, é possível detectar três características do orgulho.

Em primeiro lugar, o orgulho é um pecado antigo. O apóstolo relaciona a soberba à queda de Satanás, um evento histórico que ocorreu em um passado remoto, mas desconhecido. Certamente, aconteceu antes do terceiro capítulo de Gênesis, mas qualquer tentativa de estipular uma data mais precisa é meramente especulativa. Inclusive, a Bíblia fala pouco a respeito desse episódio, sendo o texto em questão um dos poucos trechos que falam abertamente do assunto. Sabe-se, portanto, que a queda do diabo está intimamente atrelada ao orgulho, o que torna esse pecado particularmente antigo.

Se é verdadeiro o ditado de que “a prática leva à perfeição”, não é diferente com o orgulho. Praticado desde a queda de Satanás e presente no coração humano desde o pecado de Adão, o orgulho refinou-se com o tempo e assumiu formas dissimuladas e sutis. C. S. Lewis lembra que “o orgulho é usado com frequência para vencer os vícios mais simples”. É possível que alguém se mantenha sexualmente puro apenas para ser tido como bom exemplo diante dos demais. Ou, ainda, é comum que a produtividade e a excelência sejam aguçadas pelo temor aos homens, uma nítida expressão de orgulho. Por ser antigo, o orgulho se tornou um pecado refinado, de modo que é necessário que o servo de Deus sempre avalie suas reais intenções naquilo que faz a fim de não cair nas armadilhas da soberba.

Em segundo lugar, o orgulho é um pecado democrático. O texto bíblico afirma que a soberba afetou os anjos e pode atingir os homens, especificamente os pastores. Porém, sabe-se que não se limita a essa classe humana, espalhando-se também pelos corações de crianças e adultos, homens e mulheres, ricos e pobres, crentes e incrédulos. Não há nenhum ser moral na criação caída que não sofra a iminente ameaça do orgulho.

Na prática, isso significa que os pobres não são menos propensos à soberba que os ricos. Inclusive, não é raro conhecer pessoas necessitadas que se recusam a receber a ajuda dos outros por simples orgulho. Também é comum ver pessoas com muitas posses resistindo a admoestações na igreja, pois indagam: “Quem aquela pessoa pensa que é para falar desse jeito?”. Os homens expressam a soberba na teimosia, enquanto as mulheres experimentam esse pecado na comparação cruel entre guarda-roupas. Jovens se orgulham de uma pseudo-experiência, enquanto idosos incorrem na obstinação característica da terceira idade.

Em último lugar, o orgulho é um pecado pueril. Trata-se de uma falta “infantil” e relacionada à imaturidade. Obviamente, não por ser restrita ao contexto das crianças, mas por estar ligada à falta de crescimento cristão. Observe que Paulo associa o perigo da soberba ao recém-convertido que é colocado no ministério pastoral precocemente. Isso ocorre porque alguém novo na fé ainda precisa de conhecimento bíblico, experiência cristã e sabedoria divina. Não se trata de algo vinculado apenas ao tempo cronológico, mas está especialmente ligado à maturidade espiritual.

Quanto mais “velho” alguém fica na vida cristã — o que envolve não apenas o tempo de conversão, mas também o grau de conhecimento bíblico e a própria experiência na luta contra o pecado —, aprende que a jornada da fé não tem espaço para qualquer tipo de orgulho. Tudo que acontece na vida cristã é fruto da ação de Deus no homem (1Co 4.6-7). Não há qualquer mérito humano, desde a salvação até a consumação. Logo, percebe-se que alguém espiritualmente maduro será menos orgulhoso, ao passo que alguém inflado pela soberba demonstra sua falta de maturidade espiritual, exatamente como mostra o contraste entre o fariseu e o publicano, em Lucas 18.9-14.

A vitória sobre o orgulho não acontece por simples esforço humano. Na verdade, o primeiro passo para combater a soberba é a conversão, na qual o homem admite sua absoluta incompetência na salvação, sujeitando-se completamente ao senhorio de Jesus Cristo pela fé (Ef 2.8-9). Feito isso, o próximo passo é, em obediência ao Espírito Santo, imitar os passos do Salvador, o qual é “humilde de coração” (Mt 11.29).

E você, consegue admitir o orgulho em sua vida?

Pr. Níckolas Borges
Coram Deo

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