Segunda, 08 de Março de 2021
   
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Amor e Ódio

Pastoral

As cartas que Jesus mandou João escrever às igrejas da Ásia, no livro do Apocalipse, abrigam algumas expressões que nem sempre conseguimos entender numa leitura rápida. Uma delas é a que aparece na carta à igreja de Éfeso: “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (Ap 2.4). Já ouvi algumas explicações sobre o significado de “primeiro amor”. A mais comum é a de que se refere ao fervor inicial da vida cristã, aquela fase em que o crente vive empolgado em sua conversão que acabou de ocorrer e, assim, evangeliza todo mundo, lê e ora com mais frequência e quase vai morar na igreja. Sem dúvida, essa explicação é atraente. Infelizmente, porém, não há elemento textual nenhum que a apoie, de modo que é bem difícil que Jesus tivesse essa noção em mente quando falou sobre o abandono do primeiro amor.

Outra interpretação, mais sensível a certos sinais presentes no livro, sugere que o primeiro amor é o testemunho vivo do crente que se dispõe até mesmo a morrer pelo evangelho. Esse entendimento tem algum peso porque o substantivo “amor” e o verbo “amar” quase nunca aparecem em Apocalipse para se referir à experiência cristã e, quando aparecem (no texto em análise, em 2.19 e 12.11), mostram certa ligação com o amor expresso no testemunho sacrificial. Daí a conclusão de alguns de que o “primeiro amor” se refere ao amor que se dispõe a morrer para preservar o testemunho da fé. O problema com esse entendimento é que, no v.3, Jesus elogia precisamente a firmeza do testemunho dos efésios dizendo: “E tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer”. Se o primeiro amor, portanto, se referisse ao compromisso sacrificial com Cristo, o Senhor jamais diria, logo no versículo seguinte, que os efésios o estavam negligenciando.

Um terceiro sentido, também possível (e esse é o meu preferido), decorre de traços que pertencem especificamente à carta dirigida à igreja de Éfeso. Nessa carta, o v.2 afirma que aquela igreja travava uma luta violenta com homens maus, pondo-os à prova e demonstrando o quanto eram mentirosos. O texto diz que a igreja de Éfeso não suportava essa gente e, quando era preciso, descia o porrete sem dó em quem tentava enganar os outros, fingindo ser apóstolo. Sem dúvida, os efésios demonstravam aos hereges de plantão que não estavam ali para brincadeiras! Em face disso, o que se sugere é que a igreja de Éfeso, em meio a essa luta tão feroz contra os falsos mestres, acabou se embrutecendo, perdendo a ternura, a benignidade, a mansidão e a docilidade que marcam o verdadeiro amor. Provavelmente, sendo tão severos contra os maus, os efésios se tornaram crentes ásperos, antipáticos e mal-humorados até mesmo no trato entre si. Isso explicaria a bronca de Jesus, exortando-os a que voltassem ao “primeiro amor”.

Se essa última alternativa for a correta, então aprendemos de Jesus que a igreja boa é aquela em que existe um convívio amoroso em que cada crente serve com brandura ao seu irmão, tratando-o com bondade, paciência e respeito.

Isso é muito lindo, mas é necessário ter cautela para não imaginar que a igreja ideal é integrada por pessoas parecidas com os “ursinhos carinhosos”. Isso porque, supreendentemente, logo depois de condenar a falta de amor dos efésios, Jesus diz: “Tens, contudo, a teu favor que odeias [odeias?!] as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio” (v.6). Note o imenso contraste: Jesus condena a falta de amor dos crentes e, logo em seguida, os elogia porque eles odeiam! E mais: o Senhor acrescenta — contrariando as noções do Jesus fofinho, com pele rosada e cachinhos dourados — que há coisas que ele, em sua santa perfeição, também odeia. “Isso é discurso de ódio!”, diriam os mimizentos de hoje. Pois é... Mas esse é o Jesus de verdade. Quem não gosta dele como ele é, tem como única opção a teologia do algodão-doce que os pastores-cinderelas pregam por aí.

Enfim, de tudo que foi dito, o que se depreende é que a igreja que nosso Senhor aprova é um misto de amor e ódio. O cristão que Jesus quer que sejamos é aquele que ama tudo que ele ama e odeia tudo que ele odeia. Assim como Jesus é um Cordeiro (Ap 5.6) e também um Leão (Ap 5.5), da mesma forma seus seguidores devem ser brandos e severos, maleáveis e duros, implacáveis e clementes, cheios de amor e cheios de ódio. Nutrir um lado só dessa díade fará com que Cristo, de alguma forma, se volte para nós e diga: “Tenho, porém, contra ti...”.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

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