Domingo, 05 de Julho de 2020
   
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O Evangelho Estreito

Pastoral

Quando Paulo saiu da Galácia e voltou para a igreja de que fazia parte, em Antioquia da Síria, não imaginava que, pouco tempo depois de sua partida, os crentes daquela região virariam as costas para sua mensagem e tomariam as sendas de um “evangelho” diferente.

Ao receber as notícias de tamanho desvio, o apóstolo que, até então, tinha pouca experiência na tarefa de fundar igrejas, ficou alarmado. O que ele fez nesse caso? Com as emoções à flor da pele, em meio a picos, ora de tristeza, ora de indignação, ele compôs sua primeira carta canônica: a Epístola aos Gálatas.

O que Paulo escreveu nessa carta? Bem, basicamente, ele condenou a nova crença dos galateus dizendo que ela nada tinha a ver com o evangelho de Cristo. Ele chegou a chamá-la de “anátema” (Gl 1.6-9), isto é, maldita! Depois, lamentou profundamente, levantando a hipótese de ter trabalhado em vão na Galácia e sugerindo que, talvez, nenhum de seus leitores tivesse realmente entendido a mensagem da cruz, sendo todos ainda incrédulos (Gl 4.10-11).

Com isso, Paulo deixou claro que o evangelho verdadeiro é estreito, que sua mensagem não comporta qualquer crença que, porventura, apareça por aí, que suas asas não cobrem tudo, que seu leque de abrangência não é tão aberto como hoje ensinam os evangélicos em geral, sempre dispostos a chamar de “irmão” o integrante engravatado de qualquer seita, mesmo as que propõem os ensinos e práticas mais estranhas à fé apostólica.

Permitam-me fazer uma divagação para deixar mais clara a diferença entre o evangelho que Paulo pregava e a “visão” dos crentes modernos. Imaginem que nosso querido apóstolo tivesse a mesma cabeça da maioria dos evangélicos atuais. Se fosse esse o caso, qual seria a reação dele diante daquela nova “posição” dos galateus? Eu acredito que, nessa hipótese, a Carta aos Gálatas teria alguns trechos mais ou menos assim:

Queridos galateus, eu soube que, recentemente, vocês abraçaram uma posição teológica diferente da minha. Vocês agora acreditam que precisam guardar dias especiais e que também estão se submetendo a certas regras judaicas a fim de serem aperfeiçoados no caminho da salvação. Confesso que isso me deixou um pouco chateado, mas quem sou eu para julgá-los? De fato, eu não concordo com nada disso, mas respeito a opinião de vocês. Afinal de contas, o que importa é que somos irmãos e, como eu costumo dizer, no céu não haverá essas diferenças bobas e sem importância.

Eu soube, também, que essa nova visão doutrinária chegou a vocês por meio de alguns missionários judeus que, ao que parece, vieram da Palestina. Eu gostaria de, humildemente e sem hipocrisia, parabenizar esses homens. Afinal de contas, eles deixaram tudo para trás a fim de pregar a vocês. A verdade é que, mesmo sem aceitar algumas coisas que eles ensinam (não que eu me julgue melhor do que eles), como eu poderia criticar tais obreiros? Como poderia questionar o zelo cristão de homens que, em meio a tantas dificuldades e pagando um preço altíssimo, saíram de seu país de origem com o propósito de pregar em lugares tão distantes e hostis como a Galácia?

Ah! Para ser sincero, esses pregadores são fonte de inspiração para mim! São modelos! Que desprendimento! Que zelo! Que exemplo! Que amor pelo ministério! Eu estranho a mensagem diferente deles e adoto uma posição distinta. Porém, devo reconhecer que eles me superam no fervor e no trabalho. Fico até envergonhado quando me lembro deles, pois, enquanto estou aqui em Antioquia, atuando como mestre da igreja, eles estão aí no campo, fazendo o trabalho duro e suado de quem está na linha de frente.

No fundo, no fundo, acho que tenho muito que aprender com obreiros assim e, de certo modo, fico feliz porque, por meio deles, vocês ainda estão no evangelho. É uma versão nova de evangelho — é verdade —, com algumas noções e práticas diferentes do cristianismo que ensinei, mas é melhor vê-los nisso do que os ver nos vícios e nas práticas do paganismo.

Enfim, amados, eu sei que palavras machucam. Por isso, eu fui cuidadoso e peço perdão caso tenha magoado alguém. Creio que temos de construir pontes e não barreiras. Assim, mesmo que vocês tenham abraçado ideias diferentes, creio que devemos caminhar juntos, sem preconceitos e sem ninguém condenar ninguém. Cada um tem sua posição doutrinária e eu respeito todas elas, como bom cristão.

O que acharam do novo “Paulinho Paz e Amor”? Pois é... Esse é o Paulo que seria aceito e aclamado pelos evangélicos de hoje. Ele veria todas as invenções que maculam o evangelho, adulterando-o e enchendo-o de deformidades, e consideraria isso mera “posição teológica”.

Felizmente (para os crentes de verdade), os apóstolos de Cristo nunca agiram assim. Eles aprenderam, pela ação do Espírito Santo, que o evangelho verdadeiro é estreito e, por isso, conduz a uma porta também estreita. Junto à mensagem desse evangelho não há espaço para invenções, regras inúteis, revelações novas, falsidades e comportamentos grotescos. Trata-se do evangelho “intolerante”, “radical” e severo no trato com a mentira. E é exatamente por ser assim que, até mesmo muita gente que se diz evangélica, o rejeita, preferindo (ou, pelo menos, tolerando) doutrinas falsas, loucuras, embustes e bizarrices.

Pr. Marcos Granconato

Soli Deo gloria

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