Segunda, 10 de Agosto de 2020
   
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Réveillon no Deserto

Pastoral

Entre 2018 e 2019, tive o privilégio de realizar uma daquelas “aventuras da juventude” com dois grandes amigos. Fizemos um grande “mochilão” por alguns países da Europa, pernoitando em albergues, aeroportos e ônibus entre cidades. Foi uma experiência fantástica que alterou muitas das minhas percepções de mundo. Confesso que um dos momentos mais marcantes da viagem foi a virada do ano em Barcelona, na Espanha, no topo de um shopping center, de frente para a praça principal da cidade. O espaço antes era uma grande arena de touradas e, tempos atrás, fora transformado num lugar com restaurantes e uma vista privilegiada. Assistimos a um espetáculo incrível, repleto de fogos de artifício, luzes e projeções. Sem dúvida, um momento muito especial.

A Bíblia não trata de “viradas de ano” por diversas razões, mas é evidente que todas as culturas possuem uma espécie de réveillon, evocando o encerramento de um novo ciclo e início de uma nova fase. Depois de liberto do Egito, Israel teve sua primeira “virada de ano” no deserto e, assim como minha experiência em Barcelona, foi um momento memorável. Portanto, diferente do misticismo popular que cerca a mudança de ano, gostaria de olhar para a história de Israel no deserto e extrair duas perspectivas nas quais nós, cristãos sob a nova aliança, podemos meditar durante a contagem regressiva para 2020.

Em primeiro lugar, o início de ano é um momento de gratidão e adoração. O primeiro mês da agenda judaica era conhecido por abibe (ou nisã), confirme Êxodo 12.2. Em nosso calendário, fica entre março e abril. Tratava-se de um período singular para o povo, não apenas por iniciar o calendário religioso, mas especialmente pela celebração da Páscoa (Dt 16.1), a festa mais importante dos israelitas, que começava no dia 14 de abibe. O início do ano, portanto, trazia à memória do povo a preservação dos primogênitos em meio às pragas e a libertação do jugo egípcio. A primeira Páscoa celebrada pelos israelitas no deserto está registrada em Números 9.1-5. O início do ano judaico, portanto, evocava o favor, o poder e a fidelidade de Deus para com seu povo.

De modo análogo, para nós, o dia 1º de janeiro mostra a providência divina em movimento, preservando o globo em mais uma rotação em torno do Sol, concedendo as estações do ano e sustentando a vida na Terra (Gn 1.14; Dn 2.20-21; At 14.17). A exemplo dos judeus, portanto, podemos iniciar 2020 adorando ao Deus Todo-poderoso que mantém o cosmos em ordem por sua palavra (Hb 1.3) e expressa seu amor e bondade ao presentear-nos com mais um ciclo de 365 dias. É um momento propício para louvar ao Senhor pelas bênçãos concedidas no ano que passou e exaltá-lo por sua fidelidade.

Em segundo lugar, o início de ano é uma oportunidade de consagração. Mais do que fazer votos de ler a Bíblia toda em 2020 ou crescer em virtudes cristãs, o início do ano marca um novo ciclo que deve ser vivido na presença constante de Deus, em obediência e temor. O primeiro réveillon de Israel no deserto ilustra essa verdade de modo curioso.

Êxodo 40 diz que, no dia 1º de abibe, depois de um ano no deserto, o tabernáculo deveria ser montado e ter todos os seus utensílios devidamente ungidos sob as rigorosas instruções divinas. Obedientemente, Moisés e os demais responsáveis executaram essa tarefa tão importante e, ao final do processo, lemos que “a nuvem cobriu a tenda da congregação e a glória do Senhor encheu o tabernáculo” (v.34). Era a expressão visível da habitação de Deus em meio ao povo, o que exigia de Israel santidade e reverência (Êx 29.43-46; Lv 20.7).

Ainda que não estejamos mais sob calendários festivos judaicos (Cl 2.16-17) ou sirvamos em locais sagrados (Jo 4.21-24), podemos olhar para a instrução divina dada a Moisés como uma ilustração daquilo que o Senhor espera dos seus servos no ano que se inicia: consagração completa. Trata-se de submeter obedientemente todas as áreas da vida ao senhorio de Cristo, abandonando pecados velhos (Cl 3.5-10) e rogando pelo fruto do Espírito (Gl 5.22-23). Por meio da habitação perene do Espírito Santo no crente (Rm 8.9), desfrutamos da presença do Senhor 365 dias no ano. Não precisamos mais consagrar tabernáculos ou aguardar colunas de fumaça e de fogo. Deus habita em nós e o ano que se inicia deve trazer as implicações dessa verdade.

Portanto, seja na igreja, em família ou entre amigos, recorde-se do deserto enquanto aguarda 2020. Lembre-se do réveillon do peregrino povo de Deus e, com o coração grato, louve ao Senhor pelas bênçãos e provisões desfrutadas em 2019. Celebre com alegria e festa as dádivas do nosso bom Deus, regozijando-se especialmente pela libertação do jugo do pecado por meio da obra de Cristo. Além disso, consagre ao Senhor cada plano do próximo ano, priorizando uma vida de dependência, santidade e submissão. E, caso ainda não seja um crente, por que não aproveitar o réveillon para iniciar não apenas um novo ano, mas também uma nova vida ao lado do Salvador? Garanto que será mais especial do que qualquer passagem de ano em Barcelona.

Feliz ano novo! Feliz 2020!

Pr. Níckolas Ramos

Coram Deo

 

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