Quarta, 13 de Novembro de 2019
   
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Para que Tanta Cerimônia?

Pastoral

O brasileiro é conhecido mundialmente, dentre outras coisas, por sua irreverência e informalidade. Na abertura de eventos esportivos, no recebimento de prêmios internacionais, na posse de chefes de Estado e nos discursos públicos, a famosa “quebra de protocolo” é presença garantida e virou marca registrada de representantes de nosso país. Uma cambalhota na rampa do Palácio do Planalto, um discurso em libras na posse presidencial ou um abraço inesperado em uma autoridade estrangeira demonstram que o brasileiro não se dá bem com etiqueta e ritos cerimoniais.

Parece que essa inquietação diante de um ato solene é inerente à cultura brasileira. Com efeito, a descontração pode tirar a sisudez da cerimônia, tornando-a mais agradável, alegre e espontânea. Contudo, o excesso de irreverência pode esvaziar o rito de seu significado e objetivo ao ponto de banalizá-lo. E, infelizmente, a fama mundial que nos precede denota que já ultrapassamos os limites.

Em oposição ao comportamento tupiniquim de insolência e atrevimento, a Bíblia mostra Deus sobremodo preocupado com as solenidades e com o estrito cumprimento de inúmeros detalhes cerimoniais (Êx 13.5-7; Lv 1-4). O modo como o homem se relacionou com Deus durante o período do Antigo Testamento foi marcado por indispensável formalidade e respeito.

Ainda que as prescrições rituais relativas ao trato entre Deus e Israel não se apliquem mais à presente ordem (Hb 9.10), os princípios reguladores são imutáveis, tal como o caráter do Senhor (Ml 3.6; Tg 1.17), e demonstram três objetivos por trás do zelo cerimonial.

O primeiro objetivo era didático e mnemônico (Êx 12.26-27; Hb 9.9). A observância dos detalhes cerimoniais tinha por propósito perpetuar a lembrança e ensinar as próximas gerações acerca das obras do Senhor realizadas no passado. A utilização de recursos visuais (Dt 6.8-9) e disciplina na preparação e execução dos rituais visavam a fazer o povo recordar constantemente de Deus e seu senhorio sobre eles. Não foram poucas vezes que os profetas afirmaram que Israel se esqueceu do Senhor (Jr 13.25; Ez 23.35; Os 8.14).

O segundo objetivo das cerimônias no Antigo Testamento era dar segurança aos israelitas acerca do modo como Deus desejava ser adorado. O Senhor que se revelara a Abraão, Isaque e Jacó, prometendo-lhes território e descendência, livrou os israelitas do jugo egípcio com feitos miraculosos, provando cabalmente ser o Deus verdadeiro ao inserir aquele numeroso povo na terra prometida.

A fidelidade no cumprimento das imposições cultuais impediria que Israel adorasse o Senhor de forma imprópria. Aliás, quando esse desvio aconteceu, a punição da parte de Deus foi imediata e implacável (Lv 10.1-2). Portanto, todas as condições cerimoniais tinham por finalidade estabelecer o que Deus esperava do povo no tocante à adoração pública e cultual. Israel, já provado pela história, deturpou essas ordenanças e foi punido (Jr 2.32; 18.15; Os 2.13).

Por fim, as cerimônias veterotestamentárias tinham por objetivo enaltecer a santidade de Deus (Lv 11.45; 20.26; 21.8; 22.32). A santidade do Senhor era publicamente anunciada na realização dos atos solenes. Isso conferia aos israelitas um temor reverencial e evitava excessos de irreverência nos atos solenes diante de Deus. Aliás, a santidade de Deus é princípio inegociável capaz de fulminar alguém que, mesmo bem-intencionado, desobedeceu a determinação cerimonial (2Sm 6.5-7).

O cenário acima está anos-luz de distância do que vemos nas igrejas modernas. Com objetivo dissimuladamente financeiro, os mercadores do evangelho inventaram as igrejas seeker sensitve (sensível ao que busca), que nada mais são que comunidades com propósito de agradar o adorador com música contemporânea, show de luzes, mensagens de autoajuda e ambientes escuros e estimulantes ao êxtase emocional.

Entretanto, por mais que, na dispensação atual, não haja inúmeras cerimônias a serem observadas, o culto cristão deve seguir os mesmos princípios cerimoniais apontados acima, sob pena de praticar idolatria e ser alvo da disciplina do Deus verdadeiro.

O culto está, obrigatoriamente, sujeito ao princípio regulador, a saber, o modo como Deus deseja ser adorado de acordo com sua santidade (Jo 4.23-24; Rm 12.1; 1Co 11.23-33; Ef 5.18-20). Todos os atos devem ser realizados com ordem e decência, visando à edificação da igreja (1Co 14.26-40), o que confere ao adorador segurança sobre o que esperar da adoração coletiva e o que é esperado dele. De igual modo, a prática dos itens cultuais tem por objetivo ensinar a congregação acerca de Deus, suas obras e mandamentos (At 2.42; Rm 12.2; 1Tm 4.13).

Pr. Isaac A. Pereira

 

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