Quinta, 05 de Dezembro de 2019
   
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‘Uma Só Carne’: Muito Além do Leito Conjugal

Pastoral

“Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24).

É ponto pacífico entre os estudantes da Bíblia que ser “uma só carne” se refere diretamente à intimidade sexual desfrutada no contexto do casamento. Sem dúvida, esse entendimento está correto e ressalta a dimensão singular da vida conjugal no plano de Deus para expansão do seu reino na Terra (Gn 1.27). Entretanto, essa expressão se refere apenas à união física entre um homem e uma mulher ou pode tratar de realidades mais abrangentes?

Recorrente nas Escrituras (Mt 19.5-6; Mc 10.7-8; Ef 5.31; 1Co 6.16), ser “uma só carne”, de fato, parece apontar para algo de caráter mais profundo. Aliás, o próprio contexto imediato de Gênesis 2.24 demonstra que Moisés tinha um foco muito maior do que a simples consumação sexual, já que, no versículo anterior, apresenta a unidade do homem e da mulher em termos essenciais — “osso dos meus ossos e carne da minha carne”.

Além disso, a própria concepção judaica a respeito do ser humano amplia o significado da expressão aqui estudada. “Carne” aparece, por vezes, como palavra correlata de “coração” e “alma” (Sl 84.2). A ideia não é de uma pessoa segmentada em várias partes, mas sim de uma unidade completa e indivisível. Desse modo, os termos são quase sinônimos. A própria morte era descrita como a separação entre o corpo e a alma (Gn 35.18), o que ilustra o fato de que o homem sempre era visto em seu caráter integral. Por isso, “uma só carne” não retrata apenas o intercurso sexual, mas também a união completa entre indivíduos em corpo e alma. Trata-se de uma realidade espiritual e não apenas física.

O Novo Testamento corrobora essa visão a partir da indignação expressa pelo apóstolo Paulo em 1Coríntios 6.15-16, em que ele confronta os imorais de Corinto. Paulo destaca que a convivência sexual fora do contexto do casamento também gera “uma só carne”. Entretanto, na sequência, o paralelo traçado pelo apóstolo esclarece que a união física entre um homem e uma mulher abarca também uma realidade mais profunda. O versículo 17 destaca que “quem se une ao Senhor é um espírito com ele” e, a partir desse contraste, o pressuposto evidente de Paulo é que a intimidade conjugal também aponta para uma comunhão de caráter espiritual. Uma observação semelhante pode ser vista nas conclusões do apóstolo em Efésios 5.25-33, ao tratar, de modo análogo, o cuidado dos maridos para com suas esposas e o zelo de Cristo para com a igreja.

As aplicações práticas dessa verdade são muitas. Em primeiro lugar, fica evidente que o casamento é uma união de corpo e alma, o que reforça a inviabilidade do jugo desigual (2Co 6.14). Outra implicação desse princípio bíblico se dá ainda no namoro ou na busca de um pretendente, quando o cristão não deve se apoiar única e exclusivamente na atração física pelo sexo oposto, mas também na vida espiritual do candidato (Pv 31.30).

Além disso, em resposta aos que defendem que o divórcio anula apenas uma realidade social, sem levar em conta qualquer resultante do matrimônio na esfera espiritual, responde-se que o vínculo existente entre marido e mulher é muito maior que a simples convivência sexual. Não é por acaso que Paulo reprova o recasamento em termos tão definitivos (Rm 7.2-3; 1Co 7.39).

Por fim, a manutenção do relacionamento conjugal deve ir além da intimidade matrimonial, haja vista que a única exceção para a interrupção temporária dessa área é, justamente, um propósito de oração de ambas as partes (1Co 7.5). Assim, o marido deve nutrir a vida espiritual de sua esposa. Da mesma maneira, a mulher sábia deve auxiliar seu marido em suas disciplinas espirituais. Ser “uma só carne”, portanto, vai muito além do leito conjugal — aponta para vidas comprometidas integralmente entre si. Esse é o ideal do Senhor para o casamento.

Níckolas Ramos

Coram Deo

 

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