Quarta, 17 de Julho de 2019
   
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O Exemplo de Abraão

Pastoral

“É o caso de Abraão, que creu em Deus e isso lhe foi imputado para justiça” (Gl 3.6).

Esse versículo envolve um dos temas centrais do cristianismo: a justificação pela fé somente. Muito cedo na história da igreja cristã, essa verdade foi deixada de lado. Basta dar uma olhada nos escritos dos “Pais Apostólicos” (século 2) para ver o quanto eles se afastaram do ensino de Paulo exposto aqui. Na verdade, parece certo dizer que os pregadores devem manter esse tema sempre aceso, dada a tendência humana em realçar a suposta participação do homem na obtenção de sua salvação.

O texto começa com a palavra grega kathós, cujo significado é “como” ou “tal como. Assim, fica evidente, a partir desse vocábulo, que Paulo está prestes a fornecer um exemplo que comprova o que ele disse nos versículos anteriores. Ora, nas linhas anteriores Paulo realçou que os bens espirituais procedem da fé e não da observância das normas da Lei. Agora, querendo dar um exemplo bíblico disso, o apóstolo recorre a Gênesis 15.6, que fala da fé que teve Abraão e do efeito que ela produziu. Cerca de nove anos mais tarde, Paulo citaria novamente essa passagem em Romanos 4.1-3, 9-10, 13.

O exemplo paulino é perfeito. Isso porque, ao tempo em que Abraão creu, a circuncisão sequer havia sido estabelecida (Rm 4.10) e a lei mosaica tampouco tinha sido dada (Gl 3.17). Isso destruía o ensino dos falsos mestres da Galácia que diziam que essas coisas eram necessárias ao homem que quisesse se salvar (Gl 5.2-6). Desse modo, o exemplo fornecido pelo apóstolo desmascarava os doutores legalistas, mostrando que o que eles exigiam dos gálatas — a circuncisão e outras formas de guarda da Lei — não tinha relevância alguma para a salvação.

Mais tarde, na mesma epístola, Paulo mostra que o real interesse dos falsos mestres era evitar a perseguição dentro da comunidade judaica, à qual pertenciam. Eles também pregavam suas mentiras para serem admirados pelos membros daquela mesma comunidade como grandes expoentes dos ensinos judaicos entre os gentios e ativos ganhadores de prosélitos. Na vida real, porém, não se importavam com o bem espiritual de ninguém e não aplicavam a si próprios o rigor que exigiam dos seus ouvintes (Gl 6.12-13).

Prosseguindo na construção desse importante versículo, o apóstolo usa uma expressão contábil para descrever o que ocorreu com Abraão depois que ele creu. A palavra logízomai significa “creditar”. Desse modo, o texto deixa claro que a justiça foi “lançada na conta” de Abraão porque ele creu na Palavra do Senhor e não porque praticou esta ou aquela obra de retidão.

Esse ensino gera duas questões. Primeiro: em que sentido a fé que teve Abraão se assemelha à fé cristã, já que ele creu na promessa de que seria uma grande nação e não no evangelho conforme o conhecemos? Segundo: por que Tiago parece ensinar o oposto disso em sua epístola (Tg 2.20-24)?

A resposta à primeira questão pode ser formulada a partir de Romanos 4.18-22. Nesse texto é possível descobrir em que sentido a fé que teve Abraão se assemelha à fé dos cristãos. Em primeiro lugar, a fé confiança de Abraão foi depositada no que Deus prometeu (Hb 11.11) e os cristãos fazem o mesmo ao crer nas promessas que Deus fez em seu Filho (2Tm 1.1; Hb 9.15; 10.23; 2Pe 3.13; 1Jo 2.25). Além disso, a fé do patriarca se manteve mesmo contra todas as circunstâncias (Rm 4.21). Ora, a fé cristã também é assim, tendo a perseverança como uma de suas marcas (Hb 10.39). Finalmente, Abraão creu que Deus era poderoso para cumprir sua promessa (Rm 4.21), e os cristãos também têm esse traço em sua fé (Fp 3.21).

Assim, Paulo mostra a semelhança entre a fé que Abraão teve e a que os cristãos têm com base na natureza e na qualidade dessa fé e não com base no conteúdo dela. Até porque Abraão, obviamente, não conhecia o conteúdo específico do evangelho. É claro que ele foi salvo pela fé, mas sua fé foi em Deus e não nos componentes específicos do evangelho que ainda não tinham sido revelados. É por isso que o paralelo que Paulo faz é referente à natureza da fé e não ao seu conteúdo.

Quanto à antiga questão de Tiago, deve-se entender que ele escreveu numa época em que o vocabulário paulino ainda não era conhecido (cerca de 45 AD) e, por isso, usou o termo “justificar” num sentido diferente daquele que Paulo adotou.

De fato, para Paulo, o verbo “justificar” tem sentido jurídico e significa “perdoar judicialmente” ou “declarar livre de culpa”. Ora, o emprego desse sentido técnico do termo em Romanos e em Gálatas deixa claro que o cancelamento da culpa do pecado (e sua consequente condenação) advém ao homem unicamente pela fé, sendo as obras incapazes de produzir esse efeito.

Tiago, por sua vez, usa o verbo “justificar” num sentido distinto. Para ele, justificar significa “demonstrar” ou “comprovar” (veja-se Mt 11.19). Assim, ele ensina que o crente tem uma forma específica de evidenciar sua salvação e essa forma é o conjunto de obras boas que ele produz.

Não há, portanto, contradição entre Paulo e Tiago. A única diferença que existe entre os dois é a forma como usam um mesmo termo. Quando isso é entendido, o impasse desaparece por completo.

É realmente lamentável que esse tema tão central do evangelho tenha sido esquecido pela igreja atual que, afastando-se da Bíblia, passou a acreditar somente em jargões politicamente corretos. O preço que agora pagamos por isso é o avanço de seitas legalistas (como o Adventismo do Sétimo Dia) e de propostas doutrinárias que escravizam os homens, prometendo, em troca do zelo legalista, uma salvação que só se obtém pela fé no Salvador morto e ressurreto.

Pr. Marcos Granconato

Soli Deo gloria

 

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