Quarta, 17 de Julho de 2019
   
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Gramática, Educação e... Teologia

Pastoral

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo” (Gl 3.16).

Verbo, sujeito, complemento nominal, objeto indireto, predicado e tantos outros termos não despertam qualquer simpatia na maioria dos alunos do Ensino Fundamental ou Ensino Médio. Admito que, mesmo tendo excelentes professoras de Língua Portuguesa, nunca fui muito fã de gramática em meus tempos de escola. Não era raro ouvir outros alunos comentarem que “não era importante” identificar uma oração subordinada substantiva ou saber se um verbo era transitivo ou intransitivo. A qualidade do ensino no Brasil também não favorece o aprendizado do português. É fato, também, que os bons professores superam inúmeros desafios para suprir as carências estruturais da educação em nosso país.

Seja como for, quero de antemão destacar meu ponto: a educação (em especial, o aprendizado da língua portuguesa) é essencial para uma vida cristã saudável e crescente. Trata-se de uma área crucial, não apenas para os mestres da igreja, mas também para o “crente comum”.

É claro que um cristão humilde, com pouca condição de estudar, também pode compreender o conteúdo da Escritura por meio do ministério iluminador do Espírito Santo (Jo 14.26). Entretanto, Deus registrou sua revelação em um livro (Jo 20.30-31; Ap 22.18-19). Parece um tanto evidente, portanto, que, ao estudar esse material, conheceremos mais do Senhor. E isso, sem dúvida, envolve aprimorar-se na compreensão de questões gramaticais, seja da língua portuguesa ou mesmo do grego e do hebraico.

O texto bíblico que abre a pastoral é um singelo exemplo dessa verdade. Em Gálatas 3.16, o apóstolo Paulo se apega a uma palavra do Antigo Testamento e se utiliza de uma sutil diferença para ilustrar seu argumento teológico a respeito da singularidade de Jesus no cumprimento das promessas feitas a Abraão. A palavra em questão é “descendência” (Gn 12.7) e, mesmo tendo um sentido “coletivo” (como acontece com as palavras “time” e “grupo”), está no singular, de modo que Paulo percebe uma ênfase profética em um indivíduo específico dessa linhagem: Jesus Cristo.

Olhar para o tema da educação a partir desse simples exemplo deve mover o crente preguiçoso para a escrivaninha de sua casa a fim de estudar, com afinco, questões da nossa própria língua. Não estamos falando apenas de um item de currículo profissional, mas do enriquecimento pessoal e coletivo no estudo da Palavra do próprio Deus, criador de todos os idiomas (Gn 11.9). De fato, se temos acesso a excelentes traduções em português é porque crentes estudiosos se debruçaram sobre nossa língua a fim de transportar corretamente o significado e a função gramatical das palavras originais para o nosso contexto.

Historicamente falando, uma das grandes contribuições da igreja para o mundo foi a criação das universidades, proporcionando ambientes acadêmicos que giravam em torno da teologia como objeto de estudo. A Reforma Protestante também foi grande catalisadora do ensino popular, já que permitiu que o “povão” tivesse acesso à Escritura em sua própria língua. Lutero, inclusive, é tido como um dos responsáveis por sistematizar o idioma alemão em sua tradução bíblica.

Assim, em dias de polarização política, em que tanto se fala sobre corte de verbas na educação e sobre a ausência de conteúdos básicos na grade curricular, os crentes devem ser os maiores defensores e promotores do ensino de qualidade, seja por meio do homeschooling ou lançando mão de instituições que prezam pelo bom conteúdo acadêmico, sem focar em doutrinações ideológicas.

Além disso, pastores-mestres (Ef 4.11) devem ser “aptos a ensinar” (1Tm 3.2), o que exige certo domínio da língua portuguesa a fim de evitar erros tolos ou interpretações controversas. Assim, como teólogo público, o presbítero deve ensinar verdades bíblicas por meio de uma interpretação de texto transparente, fazendo uso de recursos hermenêuticos que servem também de aprendizado para os demais crentes. Em outras palavras, o professor deve “escavar” o texto bíblico, ensinando os fiéis a estudar a Escritura por conta própria a partir dos recursos disponíveis.

Por fim, vale ressaltar que, diferente do mundo, o cristão não vê a educação como um “messias” que salvará a humanidade. Ainda que possa, sim, promover melhora substancial na qualidade de vida, a educação não tem o poder de libertar o pecador de seu estado de perdição. Entretanto, são as “sagradas letras” que, conhecidas desde a infância, “podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm 3.15).

Níckolas Ramos

 

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