Quarta, 17 de Julho de 2019
   
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Um Ópio Chamado ‘Autoajuda’

Pastoral

Há alguns anos, graduei-me em administração de empresas. No decorrer do meu curso, conheci vários professores competentes que, além de lecionar, prestavam consultoria em algumas organizações. Um deles, porém, destacava-se, não pela competência, mas pelo desmazelo, despreparo e arrogância. Lembro-me bem do dia em que ele, gabando-se do retorno financeiro que obtinha da sua atividade como consultor, disse à nossa turma: “É muito fácil ganhar dinheiro com isso; empresários desesperados pagam o preço que for por qualquer ‘receita de bolo’”.

Fiquei particularmente chocado com essa declaração. Afinal de contas, várias instituições estavam sendo enganadas por larápios como aquele professor. Companhias estavam investindo alto por “receitas de bolo” ao invés de em metodologias realmente eficazes. Por outro lado, indaguei a mim mesmo: como empresários poderiam ser tão ingênuos ao ponto de se submeterem a “profissionais” daquele nível? Como donos de empresas e administradores se deixavam levar pela falácia de enganadores daquela estirpe?

Infelizmente, tenho notado que o evangelicalismo moderno imita a índole de homens como aquele professor. Basta observar a onda do momento que tem inundado vários púlpitos. Refiro-me às “pregações de autoajuda”. Alguns podem discordar do que estou dizendo e chamar marmanjos que beiram a meia idade, que se apresentam com uma roupagem juvenil e que adornam seu linguajar com palavras de autoafirmação, de pregadores. Desculpem-me, mas chame-os do que quiser, menos de pregadores da verdade.

As pregações de autoajuda não se fundamentam nas Escrituras e seu conteúdo deriva dos insights de seus proponentes. Sendo assim, o que despejam sob seu público ludibriado não é “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça” (2Tm 3.16). Para que serve, então, esse tipo de pregação? Muito simples: serve para criar pessoas mimadas, rasas e idólatras. Quando se esvazia a pregação da Palavra da Verdade, os mortos seguem em suas sepulturas, entregues aos seus desejos egoístas e a toda espécie de imundícia. Ao se esvaziar a pregação do alimento sólido, que é a Palavra de Deus, os desnutridos seguem definhando e permanecerão dessa forma, cadavéricos, errantes, assim como são seus pregadores, a quem Judas chama de “nuvens sem água impelidas pelos ventos; arvores em plena estação dos frutos, destes desprovidas, duplamente mortas, desarraigadas” (Jd 12).

Negligenciando as Escrituras, os pregadores de autoajuda falham naquilo que é fundamental: a exposição do evangelho. Desse modo, a miséria do homem e a grandeza de Cristo Jesus são ocultadas. O teólogo alemão Dietrich Bonhoefer chama isso de “graça barata”. Em seu livro Discipulado, ele diz: “Nessa igreja [adepta da graça barata], o mundo encontra fácil cobertura para seus pecados dos quais não tem remorso e não deseja verdadeiramente se libertar. A graça barata é, por isso, uma negação da Palavra viva de Deus, negação da encarnação do Verbo de Deus. Graça barata significa justificação do pecado e não do pecador”.

A pregação bíblica, por outro lado, tem Cristo, e não o indivíduo, como centro. Além disso, ela conclama pecadores ao arrependimento (At 2.38; 3.19; 1Co 2.1-5; 15.1-5). O arauto de Deus não se preocupa com sua fama nem, tampouco, com o modo como os outros o julgam. Seu compromisso é com aquele que o comissionou e a quem deverá prestar contas um dia (1Co 4.1-4; Hb 13.17). O pregador bíblico reconhece a importância da pregação, pois sabe que é por meio dela que o Senhor salva (Rm 10.17), de modo que ele se ocupa da Escritura no preparo do seu sermão e não das ideias de Freud.

Que Deus nos livre da palavra adulterada, dos falsos mestres e desse ópio chamado autoajuda. 

Robson Alves

 

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