Quinta, 27 de Fevereiro de 2020
   
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Debate Teórico e Irrelevante? Não!

Pastoral

Muitas pessoas pensam que o debate entre calvinistas e arminianos é inútil e infrutífero, gerando apenas divergências entre os irmãos e divisões na igreja de Cristo. Eu entendo a preocupação desses irmãos e me uno a eles na reprovação da perda de tempo com discussões tolas e estéreis que só engendram contendas. Na verdade, sou o inimigo número um de discussões assim, especialmente quando desembocam em ofensas pessoais e linguagem agressiva. Nesse aspecto em particular, creio que uma discussão assim não combina com a magnitude e a nobreza dos temas doutrinários cristãos. Pegando emprestada parte da figura de Provérbios 11.22, penso que o debate teológico na boca do homem de língua ferina e indecorosa é como um colar de diamantes no pescoço de um porco.

Contudo, devo dizer que, no tocante à questão Calvinismo ‘versus’ Arminianismo, o debate está bem longe de ser irrelevante do ponto de vista prático. Se esse debate fosse meramente teórico, sem desdobramentos vivenciais ou sem nenhum impacto para a eclesiologia aplicada, eu já o teria abandonado há muito tempo. Teria feito isso porque sou, antes de tudo, um pastor plenamente envolvido no trabalho eclesiástico há cerca de trinta anos. Não sou um teólogo de gabinete sem contato com o mundo real ou sem qualquer envolvimento com o drama do povo de Deus. Por isso, se me debruço sobre um tema teológico e o defendo, faço isso porque sei do seu impacto para a minha vida e para a vida das pessoas que o Senhor me confiou. De fato, eu não me daria ao luxo de ficar elucubrando conceitos estéreis por simples prazer intelectual.

A esta altura, alguém já deve estar pensando: “OK, OK... Já entendi. Mas se você pensa assim, porque se envolve na defesa do calvinismo que parece ser tão teórico?”. Bem, mais uma vez insisto em dizer que esse debate não é meramente teórico. Em minha opinião (e oro para que isso não fira nenhum irmão precioso), todo o quadro horrível que caracteriza a igreja dos nossos dias se deve, primordialmente, à preponderância de ideias arminianas no meio evangélico.

Mais especificamente, creio que o impacto danoso do arminianismo atual é sentido tanto na liturgia cristã como no evangelismo. Para entender isso, basta acompanhar meu raciocínio: Crendo que, pelo livre-arbítrio ou pela graça preveniente, todo homem é capaz de tomar uma decisão de si mesmo por Cristo, a igreja passa a realizar um culto voltado para o homem, tentando “apertar os botões certos” para convencê-lo a aceitar Jesus. A partir daí, quase tudo é permitido, desde apelos com artifícios emocionais até a inserção de práticas mundanas na liturgia com o fim de atrair os descrentes, agradá-los e, enfim, “ganhá-los”.

Entendo, pois, que a visão neo-arminiana está na raiz dos cultos “divertidos”, das baladas gospel, dos shows de funk evangélicos, das escolas de samba eclesiásticas e de todas as práticas absurdas que vemos nas igrejas emergentes e pós-modernas. Segundo seus líderes de orientação neo-arminiana, a ordem é: “Não faça ou diga nada que espante os incrédulos, pois isso pode fazer com que eles jamais tomem a decisão de aceitar a Cristo. Cantar hinos tradicionais, pregar por mais de quinze minutos, falar sobre a perdição eterna, mencionar a realidade do pecado... Tudo isso são erros estratégicos que atrapalham o trabalho de ‘ganhar almas’. Faça, portanto, tudo girar em torno das expectativas e gostos dos descrentes. Assim, eles não serão afugentados e poderemos, aos poucos, convencê-los a usar seu livre-arbítrio de forma correta. Afinal de contas, a conversão deles depende tão somente da decisão deles próprios e temos que, com jeitinho, como bons vendedores da fé, induzi-los a dar o passo certo”.

No fim de tudo, o que se vê é o que está por aí afora: igrejas mundanizadas, cultos profanos, comunidades cristãs formadas quase que somente por incrédulos, pregações que jamais condenam o pecado, reuniões “cristãs” centradas no homem e não em Deus e músicas que não passam de poesias rasas falando de autoestima. Mais uma vez, na raiz disso tudo há uma crença: a crença arminiana moderna de que a fé depende do homem e que a igreja precisa ter boas estratégias de marketing pra vender o peixe da salvação. É assim que, ironicamente, aqueles que acusam falsamente os calvinistas de ter uma doutrina que prejudica o evangelismo, acabam por, eles próprios, prejudicar a tarefa missionária do povo de Deus, envolvendo-a e transformando-a numa forma barata de marketing e numa justificativa para tornar a santa igreja do Senhor numa mera casa de shows, diversão e exaltação do ego.

Esse é, a meu ver, um dos prejuízos mais dramáticos do arminianismo em sua forma atual. Há outros, mas aqui quero destacar apenas esse. E se alguém, ao considerar essas coisas, ainda acreditar que o debate Calvinismo ‘versus’ Arminianismo é irrelevante, então eu não saberei definir a palavra “relevante” de acordo com a perspectiva dessa pessoa.

Pr. Marcos Granconato
Força e Fé
Soli Deo gloria

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