Domingo, 08 de Dezembro de 2019
   
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A Igreja e a Ação Social

Pastoral

A aparente piedade da teologia liberal

Os cristãos devem tomar cuidado ao se envolverem com comunidades evangélicas que dão muita ênfase ao trabalho social. Isso porque essa tônica pode ser decorrente não de uma concepção bíblica acerca do sofrimento e da pobreza, mas sim de tendências doutrinárias liberais.

O liberalismo foi um movimento teológico que surgiu no século 18 e que acolheu a cosmovisão reinante na modernidade gerada pelo iluminismo. Essa cosmovisão dava lugar de supremacia à razão (a lógica humana e não a revelação bíblica define o que é verdadeiro), propunha o funcionamento uniforme da natureza (a ordem natural não se altera; logo, não existem milagres) e cria no progresso da humanidade por meio do uso da razão, do avanço científico e da educação moral.

Os teólogos liberais perceberam que uma visão de mundo desse tipo não atribuía nenhum sentido às doutrinas ortodoxas cristãs, uma vez que estas entram em choque com a mentalidade científica moderna. Por isso, temas como a transcendência divina, a inspiração bíblica, a divindade de Jesus, a morte expiatória de Cristo, a ressurreição e o juízo eterno foram totalmente rejeitados pelos teólogos liberais ou, no mínimo, reinterpretados em termos meramente morais ou simbólicos. Seu objetivo com isso era tornar o cristianismo atraente e relevante para as novas gerações que não estavam mais dispostas a sacrificar a razão, aceitando o sobrenatural.

Como, porém, manter as portas de uma igreja aberta quando o coração de sua mensagem é removido? Em outras palavras: como a igreja poderia continuar existindo e fazendo alguma diferença se a doutrina do Deus-homem que morreu e ressuscitou para livrar os pecadores da condenação eterna é, segundo diziam, somente uma fábula inspirada em velhos mitos pagãos? Despojada de sua mensagem fundamental, não seria melhor que a igreja fechasse suas portas e colocasse seus prédios à venda?

A resposta dos teólogos liberais a essas questões foi a seguinte: a igreja deve mesmo abandonar seus velhos dogmas tão inaceitáveis para a mente científica moderna, mas pode ainda assim continuar funcionando e até se tornar relevante para o mundo desde que abrace a tarefa de educadora moral e agente de auxílio social. Em vez de ser, portanto, a proclamadora de um evangelho sem sentido e de histórias bíblicas fantasiosas, a igreja deveria agora mostrar sua importância para o mundo agindo como uma promotora de valores éticos e como uma entidade assistencial.

Filósofos e teólogos como Immanuel Kant (1724-1804), Albrecht Ritschl (1822-1889) e Adolf Harnack (1851-1930) restringiram então o cristianismo ao âmbito da ética e, especialmente Ritschl e Harnack, realçaram a tarefa da igreja de promover o reino de Deus e a fraternidade universal, transformando este mundo por meio de gestos práticos de amor e de justiça.

Os danos doutrinários do liberalismo foram devastadores e são percebidos claramente ainda hoje em muitas igrejas e seminários onde essa vertente teológica permanece viva e ativa. Com efeito, como resultado de suas propostas, os dogmas cristãos foram desacreditados, sendo hoje ridicularizados em alguns círculos teológicos.

Em termos de eclesiologia aplicada, porém, o legado do liberalismo foi a construção de uma mentalidade em que a igreja mostra especialmente sua relevância na medida em que atua como escola de valores éticos ou associação de amparo aos necessitados e às vítimas de injustiça social.

Essa mentalidade, ao que parece, se tornou bastante popular no Brasil na década de 1970 graças ao forte impacto causado pelo livro Em seus passos o que faria Jesus?, de Charles M. Sheldon — um livro que não propõe ideais liberais mas que realça muito a necessidade de a igreja realizar grandes obras sociais. Numa atmosfera de notável entusiasmo liberal, marcada ainda pelos atraentes desafios propostos por obras como a de Sheldon, muitas igrejas passaram a abrir creches, distribuir alimentos, fazer campanhas de agasalho e oferecer cursos de alfabetização aos menos favorecidos.

Ainda que essas ações não fossem erradas em si mesmas, todas eram desdobramentos de uma teologia que negava ou deixava em segundo plano a mensagem pura do evangelho e tentava resguardar a relevância da igreja transformando-a numa entidade assistencial, com pouca ênfase no ensino, na pregação, na santidade e na disciplina.

A ironia disso tudo pôde ser vista no fato de que, ao tentar dar relevância à igreja, privando-a da sã doutrina e dando-lhe uma função social, o liberalismo a tirou do seu foco principal e acabou por diminuí-la. De fato, em muitos casos, a igreja, única detentora da mensagem de salvação, envolveu-se em distrações assistenciais, pondo de lado a pregação da cruz. Adotando um discurso demagógico, sentimental e apelativo, ela deixou de cumprir a missão dada por Deus de distribuir a verdade salvadora e passou a cumprir tarefas que cabiam ao Estado, distribuindo sopa e cobertores.

Em outras ocasiões, igrejas que se deixaram levar pelos discursos sociais se tornaram organizações realmente inúteis e até prejudiciais, dando ajuda a famílias e indivíduos desocupados, financiando indiretamente, dessa forma, o ócio, a bebida, a farra, a prostituição e as drogas. Também algumas igrejas, seguindo as mesmas aspirações de “causar impacto” na comunidade em que estavam, se tornaram verdadeiramente banais, promovendo campanhas de proteção a animais, realizando cultos de oração pelas árvores ou formando grupos que distribuíam abraços aos transeuntes na rua (!).

Assim, o povo, que deveria formar um exército de soldados que defendem corajosamente a fé e a verdade, foi, em alguns casos, transformado num grupo de escoteiros sentimentais que acariciam gatinhos abandonados nas praças.

A proposta da chamada Missão Integral

Em julho de 1974, reuniu-se em Lausanne, na Suíça, o 1º Congresso Internacional de Evangelização Mundial, com o objetivo principal de definir a identidade e a missão evangélica no mundo contemporâneo.

Os líderes reunidos em Lausanne revelaram preocupação com muitas ameaças atuais dirigidas contra a igreja. Eles perceberam corretamente que uma dessas ameaças eram as propostas liberais que privavam o cristianismo da genuína mensagem bíblica. Posicionando-se, então, contra esse e outros perigos, os teólogos de Lausanne reafirmaram algumas doutrinas centrais da fé e se dispuseram a estimular a igreja a oferecer novamente ao mundo o evangelho verdadeiro.

Envolvidos nessas reflexões e debates, alguns teólogos presentes em Lausanne, especialmente os procedentes da América Latina, como René Padilha e Samuel Escobar, ambos palestrantes no congresso, insistiram na afirmação de que esse evangelho verdadeiro, ao ser anunciado, deveria abarcar ações de impacto social, econômico e político. Mesmo participando de um congresso antiliberal, o fato é que esses teólogos suspiravam os ares assistencialistas soprados pelo liberalismo da época e pela Teologia da Libertação, tão influente em seus países de origem.

Assim, segundo eles, o envolvimento da igreja com as necessidades sociais da humanidade era parte integrante de sua tarefa de testemunho cristão. No entender desses teólogos, para que o evangelho fosse anunciado de forma integral, era preciso acentuar o que entendiam ser sua “dimensão social”.

Os teólogos de Lausanne acolheram substancialmente essas concepções e, ao fim do congresso, produziram um documento denominado Pacto de Lausanne (redigido por John Stott) que, mesmo sendo claro e enfático em seus enunciados ortodoxos (como a afirmação da autoridade bíblica, a rejeição do universalismo e a crença no retorno literal de Cristo), deixou-se infiltrar por ecos da Teologia da Libertação, um modelo de forte coloração liberal.

De fato, o Pacto de Lausanne afirmou que a igreja deve mostrar interesse “pela libertação dos homens de todo tipo de opressão” e que “a evangelização e o envolvimento sociopolítico são ambos parte do nosso dever cristão”.

É verdade que o Pacto de Lausanne, sendo predominantemente ortodoxo, declarou expressamente que a ação social não é evangelização, que a libertação política não é salvação (Artigo 5) e que a igreja não pode se identificar com nenhum sistema social ou político, nem com ideologias humanas (Artigo 6).

No entanto, apesar dessas ressalvas, pastores de tendências liberais e marxistas, considerando as conclusões do congresso muito tímidas no tocante ao papel social da igreja, deram ênfase aos enunciados do Pacto que lhes eram mais convenientes. Então passaram a falar sobre a missão integral da igreja com uma tônica nitidamente libertária e esquerdista, algo certamente jamais pretendido pelo próprio texto do Pacto de Lausanne.

Foi assim que a expressão Missão Integral da Igreja passou a ser fortemente relacionada com um “evangelho” que é pouco mais do que a defesa de uma ideologia política igualitária, contrária à distinção entre classes — uma ideologia que insiste na necessidade de grandes intervenções sociais por parte da igreja, mas que, em regra, não dá nenhuma ênfase à cruz, ao perigo da perdição eterna e à necessidade de arrependimento do pecador diante do Deus santo. De fato, o evangelho proposto pelos defensores liberais e marxistas da Missão Integral da Igreja acaba por encher estômagos (às vezes!), deixando os corações vazios (sempre!).

Obviamente, a igreja de Deus deve recusar o discurso assistencialista da chamada Missão Integral. Os princípios e prioridades relativos à ajuda aos carentes estão todos expostos nas Escrituras e é com eles que o povo de Deus deve se comprometer e não com vertentes filosóficas, sociológicas ou partidárias de esquerda que são, na verdade, versões evangélicas da Teologia da Libertação.

A igreja de Deus deve fugir disso tudo não só porque a ênfase exacerbada na ação social a afasta de sua tarefa essencial de proclamadora da cruz e do arrependimento. A igreja deve fugir disso tudo porque a proposta aparentemente piedosa da Missão Integral é apenas um reflexo mais ou menos velado da teologia liberal e libertária que permanece viva e que não aceita a realidade da perdição eterna, anunciando, por isso, uma salvação meramente política e social no presente.

Além disso, é preciso destacar que, ao contrário do que muitos crentes de hoje pensam, nunca foi dever nem responsabilidade da igreja ser fonte de socorro material para o mundo. Com efeito, a igreja jamais foi idealizada por Deus como uma organização que tem por obrigação reduzir a pobreza e o sofrimento das pessoas. Se, conforme visto, ela tem essa responsabilidade em relação aos domésticos da fé (Gl 6.10), isso de modo nenhum se estende à sociedade como um todo. É sobre esse assunto que a parte final desta série vai tratar.

O real dever da igreja

As afirmações feitas na seção anterior podem chocar os ouvidos dos cristãos modernos, familiarizados que estão com os constantes apelos da Missão Integral, mas a verdade é que Deus jamais colocou sobre os ombros da comunidade da fé a tarefa de melhorar o mundo por meio de programas sociais ou obras assistenciais. Absolutamente nada na Bíblia ensina ou mesmo sugere isso. Israel, o povo da aliança, nunca recebeu essa incumbência em face das nações a quem deveria anunciar o Deus verdadeiro e as igrejas neotestamentárias jamais foram instadas a isso.

Há quem diga que as mensagens dos profetas do AT era centrada em apelos sociais e que a igreja deve acolhê-las também nesse aspecto. Porém, essa percepção está equivocada. Ainda que condenassem os pecados sociais de seus contemporâneos, os profetas não viam isso como sua preocupação central, mas sim como evidências adicionais de que o povo havia abandonado os preceitos da aliança com Javé. O centro de suas denúncias era, na verdade, a apostasia religiosa da nação. Por isso, na visão dos profetas, a solução para as injustiças que tanto atacavam era o arrependimento e não a implementação de programas assistenciais.

Por isso, é errado dizer que os profetas eram reformadores sociais urbanos e que a igreja precisa ouvir suas mensagens como uma espécie de voz dos oprimidos. Na verdade, a única tarefa que cabe à igreja diante do mundo é pregar o evangelho da cruz, o evangelho do Deus verdadeiro que dá salvação eterna e completa. Esse evangelho, quando acolhido por alguém por meio da fé, acaba por enobrecer a pessoa, tirando-a da ignorância, da vadiagem, da sujeira, das más companhias, dos vícios e da criminalidade.

Vê-se, assim,  que o real convertido sofre e promove um impacto que se faz sentir não apenas na sua vida espiritual, mas também no seu trabalho, nas suas escolhas políticas, na sua avaliação do direito e das leis, nas suas concepções éticas, no seu comportamento moral, na sua visão e prática econômica e na importância que passa a dar à educação.

O indivíduo transformado pela fé também começa a agir em prol do seu semelhante (especialmente seus familiares e irmãos em Cristo), não movido por conceitos marxistas ou por tendências político-filosóficas, mas sim por uma santa inclinação que passa a ter como criatura nova (2Co 5.17). Ele é o homem que furtava mas agora não furta mais, antes trabalha para socorrer o que tem necessidade (Ef 4.28).

Todo esse impacto social do evangelho não é, contudo, o alvo final do trabalho da igreja diante do mundo que a cerca. É “apenas” o efeito transformador comum que o Espírito Santo opera no homem salvo. Mais uma vez: o alvo supremo da igreja diante dos perdidos é tentar livrá-los da condenação do pecado, mostrando que a única forma de se protegerem da ira de Deus é buscando refúgio na cruz de Cristo. Realizando essa tarefa proclamativa, a igreja verá pecadores sendo salvos do inferno e, como um “bônus”, os verá também sendo libertos de inúmeras outras formas de opressão, inclusive a social.

Note-se que o evangelho de Cristo sempre produziu esse efeito magnífico, basta observar a mudança de vida de incontáveis indivíduos alcançados pela graça salvadora no decorrer da história; basta também olhar para os inúmeros hospitais, creches, escolas e abrigos fundados por cristãos ao longo dos séculos, muito antes de surgir qualquer proposta liberal ou de “missão integral”. Isso tudo mostra quão desnecessários são os apelos demagógicos desses movimentos e leva a suspeitar que se tratam apenas de artifícios para transformar a igreja numa aliada na promoção de doutrinas heréticas e ideologias de esquerda, sob o disfarce de serva de Cristo.

Por isso, se a igreja quer realmente causar impacto no mundo, concentre seus esforços na pregação do evangelho autêntico, destacando a obra de Cristo, o arrependimento, a fé e o livramento do castigo eterno. Isso fará com que ela veja o homem perdido ser liberto da ira vindoura e de muitas desgraças presentes. Se não cumprir essa tarefa, não verá nem uma coisa nem outra.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

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