Quarta, 05 de Agosto de 2020
   
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Os Milagres e a Produção da Fé

Pastoral

Muitos crentes acreditam que se a época dos milagres voltasse, a igreja veria uma enorme onda de conversões a Cristo. Esses crentes não se referem aos milagres piratas que os falsos pastores apregoam por aí, mas sim aos milagres reais, do tipo que Moisés, Elias, Jesus e os apóstolos realizaram. “Já imaginou” — dizem — “se vissem o mar se abrir ou um morto sepultado há dias sair do túmulo? Toda a incredulidade seria varrida pra bem longe e o ateísmo morreria de vez!”.

Será, porém, que os milagres são mesmo tão eficazes na produção da fé? É fácil descobrir. Os estudiosos das Escrituras dizem que existiram três períodos ao longo de toda a história bíblica em que a incidência de sinais e maravilhas foi realmente intensa. Não que em outras épocas não tenham ocorrido milagres. O que se diz, porém, é que as épocas de numerosos sinais miraculosos foram apenas três: os anos do êxodo, o tempo de ministério de Elias e Eliseu e os dias de Jesus e seus apóstolos.

Pois bem. Nessas épocas de tanta demonstração de poder sobrenatural, como os incrédulos reagiram? Aconteceram grandes avivamentos? Reis e governantes se converteram aos montes? Multidões se voltaram quebrantadas para o Senhor abandonando seus ídolos e pecados? Infelizmente, não! Na realidade, é surpreendente notar a dureza do coração humano mesmo diante das mais claras evidências do poder de Deus.

Considere-se, por exemplo, a figura de Faraó. Ele viu sinais fantásticos sendo feitos por Moisés (Êx 5–10). Contudo, só cedeu à ordem de Deus depois que seu filho primogênito foi morto (Êx 12.29-33). E mesmo esse “arrependimento” não durou muito. Logo ele voltou atrás e saiu no encalço dos israelitas (Êx 14.5-9).

E quanto aos homens dos dias de Elias? O ápice da ação sobrenatural de Deus naqueles tempos ocorreu quando o profeta do Senhor enfrentou os profetas de Baal no Monte Carmelo e fez descer fogo do céu que consumiu o que havia no altar e toda a água derramada ao redor (1Rs 18.20-40). Depois disso, ocorreu acaso algum avivamento nacional? A família real abandonou o paganismo? Ocorreram conversões em massa? Quem dera! A leitura do relato bíblico revela que, depois de uma empolgação passageira do povo, o profeta se viu sozinho, tendo de fugir da fúria dos perversos (1Rs 19.3,4) num país em que só uma minoria permanecia sem curvar os joelhos a Baal (1Rs 19.18).

Nos dias de Jesus e dos apóstolos não foi diferente. Os evangelhos afirmam que Jesus fez muitos milagres e vários deles são descritos, mostrando que eram realmente espetaculares. Multiplicação de pães, ressurreição de mortos, cura de cegos de nascença... Tudo isso era feito diante dos olhos das pessoas que, boquiabertas, diziam que coisas do tipo nunca tinham sido vistas em Israel (Mt 9.33).

Mais uma vez, porém, essas reações não passaram de entusiasmo passageiro. Mesmo testemunhando tantos sinais, a maioria das pessoas virava as costas para Jesus tão logo ele expunha sua mensagem (Jo 6.60-66). No final, em vez de um avivamento em Israel, o que houve foi um levante da multidão pedindo a crucificação do Filho de Deus (Lc 23.21).

E por aí vai... De fato, o relato bíblico mostra que os milagres não são a chave que abre o coração das pessoas para a fé. É claro que existiram exceções (2Rs 5.14-17), mas o padrão geral mostra que demonstrações de poder são capazes de gerar admiração, mas não conversão (At 8.9-24).

Por que isso acontece? A resposta é simples. A Bíblia ensina que Deus determinou que a salvação das pessoas acontecesse por meio da pregação (1Co 1.21). Paulo escreveu que o evangelho (não o ato milagroso) é o poder de Deus para a salvação de quem crê (Rm 1.16) e afirmou que a fé salvadora se instala no coração dos homens por intermédio dos ouvidos e não dos olhos (Rm 10.17). O próprio Jesus disse que se alguém não ouve as Escrituras (“Moisés e os profetas”) não poderá crer ainda que veja uma pessoa ressuscitar dentre os mortos (Lc 16.31).

Assim, a ideia de que precisamos de um retorno às épocas dos milagres para que ocorram conversões é um sonho bobo. Somente a Palavra pregada em toda a sua pureza é o instrumento que Deus usa para transformar incrédulos em crentes. Se essa Palavra não quebrar o coração de uma pessoa, nada mais o fará.

Por isso, o dever da igreja hoje não é realizar feiras de milagres, anunciando aos berros que Deus vai “operar maravilhas” aqui ou ali (o que nunca se cumpre). Seu dever é pregar o puro evangelho com vigor, constância, clareza e coragem para que veja o maior milagre que pode ocorrer na vida de uma pessoa: a sua transformação, pela fé, em nova criatura (2Co 5.17).

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

 

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