Quarta, 05 de Agosto de 2020
   
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A Festa da Fé

Pastoral

Pode ser mera impressão minha, mas acho que o cristianismo é a religião cujos adeptos mais têm prazer em participar de refeições comuns. Em nossa igreja, particularmente, nunca perdemos a chance de preparar uma mesa com doces, salgados e refrigerantes. Qualquer que seja a ocasião — um aniversário, uma reunião especial, a presença de um visitante querido —, lá estamos nós fazendo um almoço ou cortando um bolo. Às vezes realizamos refeições comuns sem nenhum motivo especial; apenas com o objetivo de comer e de ficarmos juntos. De fato, a meu ver, o cristianismo não é a melhor opção para aqueles que querem viver isolados ou mesmo para quem quer emagrecer!

Acredito que nossa fé, nosso amor e nossa união se expressam tanto ao redor da mesa porque o próprio Senhor estimulou essa prática. Uma das ordenanças que ele nos deu foi a Ceia do Senhor, precisamente uma refeição; e sabemos que, na igreja primitiva, essa celebração tão simples, feita somente com vinho e pão, acontecia num contexto festivo maior, a Festa de Agape, em que um banquete era servido para alegria de todos os participantes.

Além disso, parece-me que o Senhor estimulou o comer e o beber festivo do seu povo ao trazer à luz, por obra do Espírito Santo, um cristianismo livre de qualquer restrição alimentar. Com efeito, sabe-se que as diversas seitas têm, quase todas elas, proibições ligadas à comida e à bebida. Era assim com o gnosticismo incipiente do século 1 (contra o qual os apóstolos lutaram com todo vigor) e é assim com heresias modernas como o Adventismo do Sétimo Dia (que proíbe a carne de porco e outras iguarias), as diferentes ramificações do hinduísmo (que impõem o vegetarianismo) e até o romanismo (que proíbe que os fiéis comam carne durante a Quaresma — ???).

O cristianismo autêntico, porém, não tem restrição nenhuma em seu cardápio (Mt 15.11; Mc 7.19; 1Tm 4.1-5). O crente pode comer o que quiser e quando quiser, tendo apenas cuidado para não se tornar glutão, não cometer excessos e não ferir os escrúpulos de pessoas que pensam diferente (Rm 14.14,15; Gl 5.21). Afinal de contas, na vida cristã o autocontrole e o amor são virtudes que nunca podem ser esquecidas (Gl 5.22). Basicamente, porém, somos livres para comer de tudo e essa ausência de restrições alimentares concede ao cristianismo um tom de liberdade que ecoa em nossas festas, tornando-as mais ricas e agradáveis de se participar.

Além de não ter restrições alimentares, o cristianismo também não tem jejuns obrigatórios. Os crentes em Cristo jejuam sim, mas fazem isso quando querem, sendo essa uma decisão livre, tomada em ocasiões em que um crente ou um grupo de crentes se veem diante de grandes desafios, ocasiões em que ocorre até a perda do apetite, o que ajuda a jejuar enquanto se busca socorro e direção de Deus. O jejum institucional, porém, não existe na igreja de Cristo. Nela, o comando geral de Deus é: “Reúnam-se como uma família e partam juntos o pão, comam e se alegrem diante do Senhor que os salvou, e satisfaçam suas almas na alegre comunhão do meu povo, enquanto fortalecem sua vida com as boas dádivas que lhes concedo à mesa”.

Diferente, pois, do islamismo, que tem um mês inteiro de jejum compulsório (o Ramadã), nossa fé nem de longe impõe isso aos santos. A fé que temos não é, pois, a fé do autoflagelo. É a fé da alegria. Não é a fé do altar sangrento. É a fé da mesa saborosa!

Por que, afinal, a religião de Deus é assim? Resposta simples: a religião de Deus é assim porque Deus é assim. Nosso Deus é um Deus Trino, um Deus que vive sua unidade num intercâmbio trinitário perfeito, em que cada Pessoa vive em intensa e viva comunhão com a outra, participando todos da mesma essência. Ora, esse Deus quer que o seu povo reflita essa realidade gloriosa (Jo 17.21,22). Por isso, anela que participemos juntos de alegres refeições.

No antigo Oriente, nos tempos de Jesus, participar de uma refeição com alguém era coisa muito séria. Naqueles dias, comer com uma pessoa era um gesto de intensa afinidade, um ato de plena comunhão e unidade. Para aquele povo, participar do mesmo alimento era participar da mesma vida, posto que a vida dependia do alimento. Comer de uma mesma carne ou de um mesmo pão e beber de um mesmo vinho eram partilhar a mesma bênção, o mesmo vigor, a mesma alma... Assim, quando os crentes comiam juntos, eles sabiam estar produzindo com isso um pequeno lampejo da realidade trinitária. Comendo juntos, se uniam numa dimensão que ultrapassava os liames de sangue e, dessa forma, por meio da comunhão e da amizade em torno da mesa, revelavam ao mundo como é o próprio Deus. E não somente isso. Havia algo mais: comendo juntos, evocavam a esperança de um dia participarem todos de um banquete escatológico, sentados à mesa com o próprio Cristo, no Reino eterno do Pai (Mt 26.29).

Eis aí o porquê de tantas refeições nas igrejas de Deus. O Senhor mesmo um dia nos convidou para um banquete, oferecendo a si próprio como alimento para nossas almas. Agora, todos nós que, pela fé, nos sentamos à sua mesa e fomos nutridos com sua carne e saciados com seu sangue, participamos de uma família festiva que reflete (de modo imperfeito, é claro) a sublime unidade de Deus e revive, a cada refeição conjunta, a esperança de um glorioso banquete — um banquete que marcará o fim que jamais terá fim.

Quão doce e feliz é, assim, a nossa fé! E mesmo ela também alimenta! Na verdade, até nesse aspecto vemos no cristianismo a realidade de uma boa refeição. E, com esse sentido espiritual em mente, temos que convidar à mesa todos os corações que têm fome e sede. Sim, pois o povo que come e bebe à saciedade nessa grande festa de fé não pode fechar a porta insensível, deixando os famintos desfalecer aos poucos lá fora.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

 

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