Quinta, 06 de Agosto de 2020
   
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Gente Sem-vergonha

Pastoral

“Porventura envergonham-se de cometer abominação? Pelo contrário, de maneira nenhuma se envergonham, nem tampouco sabem que coisa é envergonhar-se; portanto cairão entre os que caem; no tempo em que eu os visitar, tropeçarão, diz o SENHOR” (Jr 6.15).

Meu avô materno gostava de repetir que um homem pode perder tudo, menos a vergonha. “Se perder a vergonha” — dizia — “aí não sobra mais nada”. Com isso ele nos dava a entender que a capacidade de alguém sentir vergonha estava ligada ao seu nível moral. Uma pessoa que não sentia vergonha de nada, segundo o meu velho avô, tinha um padrão moral composto pelo nada e, portanto, era uma pessoa que, pelo menos no tocante ao caráter, não valia nada.

Se meu avô estava certo, então, quanto mais baixo for o padrão moral de alguém, menor será sua capacidade de ficar com o rosto enrubescido. Isso explica porque, numa sociedade tão carente de valores éticos como a nossa, o número de sem-vergonha cresce a cada dia. Exemplos disso são incontáveis, mas eu me lembro aqui de dois bem recentes: o primeiro é de uma atriz de novelas da Rede Globo que afirmou pra quem quisesse ouvir que é “totalmente sem-vergonha” e que faz qualquer cena sem nenhum pudor; o outro exemplo é de alguns “mensaleiros” presos há alguns meses. Depois de tudo que fizeram, eles saíram a público erguendo os punhos como se fossem grandes heróis nacionais, quando seria de se esperar que, se tivessem alguma noção de honra, jamais pusessem o nariz para fora de casa.

O problema dos sem-vergonha é que eles causam um impacto muito negativo na formação da mentalidade ética de uma sociedade. Fazendo o que fazem sem qualquer discrição, e ainda por cima sorrindo ou se exibindo em suas baixarias, essa gente promove a banalização da decência e o sepultamento de conceitos como honra, virtude e dignidade. O resultado é que, inclinadas naturalmente a adotar esses padrões e familiarizadas com o constante martelar do desprezo por tudo que é respeitoso, as pessoas começam a ver o obsceno e o indecoroso como traços normais de comportamento. Então, nascem mais sem-vergonha e nós, os cristãos bíblicos, nos vemos cercados por uma atmosfera de desdém, em que as pessoas exibem o corpo, falam palavrões, zombam da fé, afrontam autoridades, fazem arruaças ou desfilam numa “parada gay” e simplesmente dão de ombros, dizendo “tô nem aí”.

Na Bíblia, a capacidade de se envergonhar está fortemente ligada à noção de pecado. O homem que entende a baixeza daquilo que o Senhor considera iniquidade se recolhe, agoniado, numa caverna de timidez quando pratica qualquer ato desonroso. Ele percebe o quanto aquela conduta destoa de sua dignidade como ser humano, criado à imagem de Deus e, então, baixa a cabeça constrangido, emudece ruborizado e sofre só ao pensar que alguém talvez alardeie seus desatinos.

Essa noção de pecado, porém, só pode nascer no coração de alguém de maneira satisfatória e permanente quando essa pessoa abraça a mensagem do evangelho. Na conversão, o “sistema de valores” do indivíduo é radicalmente transformado e ele passa a sentir vergonha das sujeiras que antes expunha a céu aberto, sem nenhum recato. Foi isso o que aconteceu com os crentes de Roma, de maneira que Paulo escreveu a eles dizendo: “Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça. E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais? Porque o fim delas é a morte” (Rm 6.20,21).

Aquelas pessoas provaram uma mudança de mente e de coração. Entenderam a santidade de Deus, a beleza da sua lei, a grandeza de sua dignidade como povo escolhido do Senhor e, então, passaram de incrédulos despachados, imorais e escandalosos a pessoas decentes, respeitosas, reverentes e recatadas — gente que sentia vergonha do que tinha feito antes.

Hoje vemos políticos propagando suas mentiras sem nenhuma reserva, vemos mulheres vulgares (às vezes esposas e mães) falando, dançando e se vestindo como a escória do baixo meretrício, vemos adultérios em reality shows sendo transmitidos via satélite em tempo real, vemos travestis expondo suas mutilações, deformidades e protuberâncias artificiais sob a luz do dia, em passeatas escandalosas, enquanto todos olham para isso com um sorrisinho nos lábios. Sim, vivemos na era da falta de vergonha; vivemos na era em que os homens só se envergonham das palavras e da Pessoa de Cristo, e isso, para sua própria condenação, pois o Senhor disse com firmeza: “Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos” (Lc 9.26).

Por isso, por vivermos num tempo assim, temos de afinar ainda mais nossos sentidos e percepções espirituais, mantendo viva e ardente a nossa capacidade de ter vergonha de tudo que é indecente e desonroso, crescendo no conhecimento da vontade de Deus e fugindo da mentalidade sem-vergonha dos homens sem Cristo.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

 

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