Sexta, 18 de Outubro de 2019
   
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Epafras, Onde Estás?

Pastoral

O nome de Epafras aparece algumas vezes na Bíblia designando um fiel servo de Cristo que ministrava na igreja de Colossos. As poucas vezes que ele é mencionado refletem o fato de ser uma figura realmente especial, fornecendo um belo modelo para todo crente. Nesta pastoral, quero destacar alguns aspectos desse modelo, na expectativa de que os irmãos se sintam encorajados a reproduzir em seu convívio eclesiástico as mesmas práticas e virtudes demonstradas por Epafras.

Em primeiro lugar, Epafras foi um agente comunicador (Cl 1.7,8). Ele trabalhou não somente como um mestre na igreja de Colossos (Cl 1.7), mas também (não se assustem!) como um “fiscal” que relatou a Paulo as coisas boas e más que viu ali, tudo com o objetivo de ajudar o apóstolo a cuidar melhor do rebanho de Cristo.

De fato, Epafras visitou Paulo, que estava preso em Roma, e lhe falou acerca da fé e do amor dos colossenses, apresentando um relatório ao apóstolo que o deixou muito satisfeito e também deu ensejo a que ele estimulasse os crentes a continuar cultivando aquelas virtudes (Cl 1.7-9).

Além disso, de acordo com os comentaristas, foi certamente por meio de Epafras que Paulo soube da heresia que ameaçava as igrejas da região (o gnosticismo incipiente) e, então, pôde advertir os crentes quanto ao seu perigo. Isso foi muito importante porque o curso posterior do cristianismo mostra o quanto o rigor de Paulo influenciou os pastores antigos na rejeição dessa heresia. Na França, por exemplo, Irineu de Lião (século 2) lutou bravamente contra os mestres gnósticos, fornecendo muita “munição literária” para outros ministros do evangelho. No fim das contas, essa firme resistência cristã fez o gnosticismo praticamente desaparecer.

De fato, no ano 860, Floro de Lião, no prólogo das obras de Irineu, referia-se ao gnosticismo dizendo que havia caído um “grande silêncio” sobre as heresias. Não há dúvidas, portanto, da grande importância de Epafras no enfraquecimento daquela mentira doutrinária, já que, atuando como agente comunicador, tornou possível o ataque contra o desvio.

A atuação de um agente comunicador — esse tipo de fiscal que vê e avisa — é fundamental porque o pastor, mesmo sendo o epískopos (isto é, o supervisor), só conta com dois olhos. É claro que Deus lhe mostra perigos e aponta desvios de maneiras surpreendentes, mas a ajuda de agentes comunicadores é crucial e bíblica (1Co 1.11), pois faz o pastor ver o que deveria ver, mas que, por alguma razão, não consegue.

Epafras também foi um agente lutador. Ele lutava para que os colossenses permanecessem firmes, fossem maduros e tivessem convicção da verdade (Cl 4.12,13). Como ele lutava?

Ele se esforçava em orações. A oração requer esforço, zelo, disciplina, dedicação e perseverança. Por exigir isso tudo, é fácil perceber porque muita gente ora pouco. O agente lutador, porém, permanece em sua trincheira de clamor, empenhando-se numa batalha em que ele ora pela igreja sangrando no coração para que ela seja forte e madura.

Ao agir assim, Epafras também manifestava preocupação com a igreja. Essa preocupação se revelava em interesse, envolvimento e participação. Com efeito, o agente lutador se preocupa com a igreja e, por isso, sofre por ela como Epafras sofreu. Esse sofrimento, porém, mostrava que a visão de vida de Epafras estava correta, indicando que um dos alvos principais da sua existência era o bem do povo de Deus. Aliás, ao sofrer pela igreja, Epafras mantinha essa visão ainda mais viva.

Quando eu era menino, li uma história de Julio Verne chamada O correio do Czar (1876), em que o personagem Miguel Strogoff sai no cumprimento de uma missão que envolvia entregar uma mensagem secreta do Czar ao Grão Duque. No caminho, porém, ele foi preso e cegaram seus olhos com um ferro em brasas. Quando, enfim, Miguel foi liberto e tiraram as bandagens do seu rosto, todos perceberam que seus olhos estavam feridos, mas não cegos. É que quando os olhos do nosso herói estavam sendo queimados, ele se lembrou da moça que amava e chorou, de modo que as lágrimas impediram que o ferro quente o cegasse.

Nossas lágrimas também impedem que fiquemos cegos. Enquanto choramos pela igreja, mantemos a visão certa sobre o que é importante neste mundo. Quando, porém, o povo de Deus deixa de ser a razão das nossas lágrimas de preocupação, em breve nossa visão do essencial desaparece e passamos a gastar a vida em busca de coisas secundárias.

Finalmente, Epafras foi um agente confortador. Em Filemom 23 descobrimos que ele estava sempre ao lado de Paulo na prisão. É isso que faz dele um agente confortador, sendo difícil imaginar o quanto a igreja precisa de irmãos assim.

Sem dúvida, nós também temos irmãos aprisionados. São discípulos de Jesus que estão acorrentados numa masmorra de medo, de dúvidas, de ansiedades, de enfermidades, de solidão, de dificuldades familiares, de opressões domésticas, profissionais ou sociais... São ovelhas que foram feridas, que estão sangrando, cansadas e com sede. Elas precisam de agentes confortadores como Epafras, homens e mulheres de Deus que apareçam no meio da escuridão trazendo algum alívio.

Sim, a igreja precisa de mais homens como aquele agente comunicador, lutador e confortador que Paulo conheceu. Epafras, onde estás?

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria


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