Terça, 16 de Julho de 2024
   
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Obadias 7b

 

“Aqueles que comem o teu pão armarão emboscada para teus pés sem que se possa perceber” (Obadias 7b).

É dito que uma maneira de restaurar a humildade é ler os anúncios de empregos, nos quais você acaba se surpreendendo com o número de cargos que existem para os quais você é muito ignorante, muito pouco atraente ou velho demais para preencher. Nos dias de Edom não havia listas de anúncio de empregos, mas, de modo semelhante, a arrogância e prepotência deles acabariam diante de uma grande e impactante surpresa que teriam diante de inimigos que eram reputados por eles como grandes amigos e aliados.

Na sequência da primeira parte do versículo, que já mencionou aliados que fizerem um pacto de paz com Edom, agora é dito que eles eram pessoas “que comem o teu pão”. Essa expressão apela para uma realidade dupla da relação dos edomitas com seus parceiros. Em primeiro lugar, comer junto, no mundo antigo, era uma prática que ia além de se alimentar próximo uns dos outros sem manter qualquer amizade. Comer junto era uma prática reservada àqueles com quem se tinha comunhão e parceria. Oferecer um banquete a alguém expressava uma deferência quase cerimonial que demonstrava a união entre as partes. Nesse sentido, mencionar aqui “aqueles que comem o teu pão” é fazer uma referência paralela às expressões “os homens com quem você fez aliança” e “os homens com quem você estabeleceu a paz”, na primeira parte do versículo.

Outro aspecto que pode estar presente na menção de “aqueles que comem o teu pão” tem a ver com a atividade comercial de Edom. Já foi dito que Bozra, capital de Edom, era um grande empório do comércio sírio-árabe, onde muitos objetos de valor eram armazenados.[1] Assim, o pão de Edom pode significar o comércio que praticava com nações parceiras, cuja cooperação, além de comercial, era também militar. Pode também apontar para povos de menor posição socioeconômica que recebiam auxílio de Edom e que dependiam dessa aliança, povos dos quais os edomitas jamais suspeitariam de uma traição. Seja como for, Edom se sentia seguro na presença de tais aliados, achando que seu poder não poderia ser contestado, muito menos enfrentado. Essa era a sensação prepotente e arrogante que eles tinham, as quais, assim como ilustrado no início, estavam prestes a receber um choque de humildade ― a expressão mais adequada, na verdade, seria “um choque de humilhação”.

Essa humilhação viria quando esses aliados o traíssem. É dito no texto que eles “armarão emboscadas”. O significado da palavra hebraica traduzida aqui como “emboscada” é incerto. Ela não ocorre em nenhum outro lugar na Bíblia hebraica. É possível que ela se refira a algo “espalhado” para fins de armadilha, como uma rede. Outras possibilidades incluem “armadilha”, “grilhão” ou “pedra de tropeço”.[2] Literalmente, pode dar a ideia de uma “ferida”, o que não faz sentido no contexto, a não ser que a intenção do autor seja se referir a algo que produz uma ferida, voltando-se à ideia geral de uma emboscada. Esse quadro se completa quando é dito que a emboscada seria posta “sob ti”, traduzido aqui como “para teus pés”. Seja uma rede de caça, uma armadilha ou algo que cause feridas, tal artefato é colocado sob os pés de Edom para que caia diante desse item perigoso e traiçoeiro. Há aqui o anúncio da derrocada do povo que se sentia tão seguro no alto de suas fortalezas nas montanhas e bem firmado por suas alianças comerciais e militares.

Tudo isso já tinha ficado claro na primeira parte do versículo. O que chama a atenção no final do texto é a menção de que tanto a falsa aparência de amizade como a efetivação dos planos de traição aconteceriam “sem que possa perceber”. Esse é um trecho difícil de interpretar, pois, literalmente, quer dizer que “não há entendimento nele” ou “não há prudência nele”. Parece que o escritor quer dizer que Edom seria pego de surpresa por não conseguir perceber nem antever a traição. Mais uma vez, há uma ironia presente ao dizer que não há entendimento neles. “Entendimento” é frequentemente usado como sinônimo de “sabedoria”, pela qual Edom era bem conhecido (cf. Jó 2.11; Jr 49.7). Nesse sentido, há quem costume interpretar a cláusula final do versículo com o sentido de “os edomitas nem percebem que seu fim está próximo”,[3] o que consegue transmitir bem a ideia do texto. Parece também significar que o engano dos supostos amigos de Edom seria tão ruim que mal se poderia acreditar, ou então que a armadilha que eles armariam seria tão inteligente que ninguém poderia adivinhar que estaria lá.[4] O fato é que a consequência da confiança irrestrita de Edom, tanto em sua própria sabedoria como na fidelidade de seus aliados, chegaria de modo fatal e irreversível.

O mesmo tipo de falta de prudência, precaução e entendimento costuma fazer muitas vítimas em toda parte e em todas as épocas. Salomão teve muito a dizer sobre a prudência e a sabedoria, tentando fazer com que seus leitores evitassem não apenas os caminhos da tolice, mas suas consequências tristes e amargas. Ele ensinou, por exemplo, a não acreditar em palavras bonitas que não condigam com a vida de quem as diz: “O simples dá crédito a toda palavra, mas o prudente atenta para os seus passos” (Pv 14.15). Ele também alerta para a necessidade de não subestimar o mal e seus efeitos, orientando a precaução de levá-lo a sério e fugir dele: “O prudente vê o mal e esconde-se; mas os simples passam adiante e sofrem a pena” (Pv 22.3).

Salomão ainda diz que o conhecimento deve ser buscado como algo precioso: “O coração do sábio adquire o conhecimento, e o ouvido dos sábios procura o saber” (Pv 18.15). Mas onde estão o verdadeiro conhecimento e a sabedoria capazes de nos proteger das surpresas perigosas desse mundo? O próprio Salomão estabelece firmemente que “o temor do SENHOR é o princípio do saber, mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino” (Pv 1.7). É por essa razão que Oseias, em suas últimas palavras, associa corretamente o sábio àquele que busca andar nos caminhos apontados por Deus, dizendo: “Quem é sábio, que entenda estas coisas; quem é prudente, que as saiba, porque os caminhos do SENHOR são retos, e os justos andarão neles, mas os transgressores neles cairão” (Os 14.9). Em quais caminhos você tem andado? Tem nutrido amizades perigosas? Confia irrestritamente em pessoas de quem deveria se afastar? Você tem buscado e atendido os conselhos da Palavra de Deus ou é mais uma provável vítima a ser surpreendida por consequências danosas e muitas vezes irreversíveis?

Pr. Thomas Tronco


[1] Keil, C. F.; Delitzsch, F. Commentary on the Old Testament (electronic ed.). Peabody, MA: Hendrickson, 1996, vol. 10, p. 238.

[2] The NET Bible, First Edition. Biblical Studies Press: www.bible.org, 2006 [Ob 7, nota 33].

[3] Smith, Billy K.; Page, Franklin S. Amos, Obadiah, Jonah, vol. 19B, The New American Commentary. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1995, p. 188.

[4] Clark, David J.; Mundhenk, Norm. A translator’s handbook on the book of Obadiah. UBS Handbook Series. London; New York: United Bible Societies, 1982, p. 15-16.

 

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