Quarta, 26 de Junho de 2019
   
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Batismo ‘In Memoriam’?

Pastoral

“Doutra maneira, que farão os que se batizam por causa dos mortos? Se, absolutamente, os mortos não ressuscitam, por que se batizam por causa deles?” (1Co 15.29).

A ideia de que os vivos podem, de algum modo, auxiliar os mortos no “além” não é novidade. Desde a Antiguidade, passando pelo catolicismo medieval e chegando aos movimentos pseudocristãos contemporâneos, a ideia da intercessão pelos já falecidos sempre se fez presente. Talvez um dos exemplos mais gritantes seja o “batismo vicário”, realizado pela Igreja Mórmon. A ideia é que um fiel ainda vivo pode se batizar em favor de seu familiar já falecido e, assim, conceder-lhe algum tipo de favor. Uma das justificativas para tal prática está na doutrina antibíblica da “regeneração batismal”, que acredita que o cumprimento da ordenança do batismo é essencial para salvação. Assim, caso um parente não tenha se batizado quando ainda em vida, o problema é resolvido por meio de um batismo vicário, no lugar do falecido.

Ao que parece, tal prática era presente já no segundo século da Igreja Cristã, notoriamente em ambientes considerados heréticos. Apesar disso, alguns argumentam que, possivelmente, o batismo vicário já era praticado em Corinto aos tempos do apóstolo Paulo, razão pela qual é mencionado no texto acima. Dessa forma, ao citá-lo, Paulo estaria ratificando-o e fornecendo a base apostólica necessária para sua instituição oficial na igreja.

Entretanto, os problemas com tal doutrina são vários. Em primeiro lugar, o modelo bíblico de batismo é o credobatismo, ou seja, batismo como expressão da fé do indivíduo. Nos tempos bíblicos, ao crer em Cristo, o recém-convertido já era, quase que imediatamente, batizado a fim de se identificar com a fé cristã. É o caso dos 3 mil (At 2.41), do eunuco (At 8.38), da família de Cornélio (At 10.48) e da família do carcereiro (At 16.33). Assim, alguém só pode ser batizado depois de ouvir do evangelho e, crendo, expressar publicamente sua fé por meio dessa ordenança. É impossível “terceirizar” a identificação com o corpo de Cristo.

Outro argumento definitivo contra o batismo vicário é o juízo certeiro de Deus, encontrado em Hebreus 9.27: “... aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo...”. Enquanto o ladrão da cruz desfrutaria da presença de Cristo no paraíso (Lc 23.43), o rico passou imediatamente a sofrer condenação após sua morte, sem qualquer esperança de restauração (Lc 16.19-31). Não há nenhuma evidência bíblica que suporte a ideia de intercessão dos vivos em prol dos mortos.

Sendo assim, o que significam as palavras de Paulo, então? Ainda que existam muitas interpretações para tal passagem, a que parece mais harmoniosa com o contexto imediato de 1Coríntios e com o ensino bíblico geral é que Paulo está se referindo à identificação de novos crentes com a fé de outros fiéis que já morreram. Em outras palavras, ao se “batizar por causa dos mortos”, o apóstolo está afirmando que muitos “vivos” criam no evangelho diante do testemunho de fé daqueles que já morreram, e, por meio do batismo, identificavam-se com eles.

Em 1Coríntios 15, ao argumentar contra a inexistência da ressurreição, o raciocínio de Paulo caminha assim: se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou (v.13) e, portanto, os crentes ainda estão condenados diante de Deus (v.17). O caso dos fiéis que já morreram é ainda pior, pois, ao fechar os olhos neste mundo, esperavam vida eterna, mas encontraram perdição (v.18). Dessa forma, conclui o apóstolo, por que as pessoas vivas ainda se identificam com a fé de pessoas mortas e condenadas? (v.29) Não faria o menor sentido! Seria uma “fé inútil” (v.14).

Pela graça e poder de Deus, porém, Cristo ressuscitou (v.20). Trata-se de uma certeza inquestionável e historicamente verificável (v.3-8). Portanto, é seguro olhar para o testemunho cristão do passado e se identificar com a fé salvadora que os antigos também possuíam. A condenação deles foi completamente removida em Cristo e, agora, desfrutam da presença eterna de Deus como filhos amados. Essa é a esperança viva de todos os crentes (1Pe 1.3).

Por fim, além de não apoiar a doutrina herética do batismo vicário, o texto em questão ilustra que, em certo sentido, os mortos ainda “falam” por meio do seu testemunho registrado na história e na memória de seus queridos. Os heróis da fé do passado foram testemunhas do evangelho quando estavam vivos e suas palavras ainda ecoam no presente. O crente deve, portanto, nutrir gratidão por aqueles que transmitiram a fé salvadora ao longo da história de maneira fiel e piedosa.

Ainda no campo do testemunho, o que dizer dos que estão vivos, ocupando as trincheiras do evangelho no século 21? O testemunho deles é tão “contagiante” quanto foram as palavras dos que já morreram em Cristo? Por isso, diante de tais verdades, os crentes ainda devem ter o testemunho passado como combustível para uma fé ativa no presente e uma esperança viva no futuro! “Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, (...) corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus” (Hb 12.1-2).

Níckolas Ramos

Coram Deo

 

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