Quarta, 22 de Maio de 2019
   
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O Deus que Dá Pão (e Brioches)

Pastoral

“Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia” (Mt 6.11).

Conta-se que o período que antecedeu a Revolução Francesa foi marcado pela miséria da plebe e pela ostentação da nobreza. Talvez, a mais célebre expressão dessa realidade tenha sido uma declaração atribuída a Maria Antonieta (1755-1793), esposa de Luís XVI, rei da França. Diante da desgraça do povo, que padecia por não ter pão para comer, a princesa teria dito: “Se não têm pão, que comam brioches”.

Ainda que muitos historiadores questionem se tal frase foi realmente pronunciada por Maria Antonieta, fica evidente a grande infelicidade da declaração, já que brioche é um tipo de pão da nobreza, produzido de modo diferenciado. Assim, a completa falta de tato não estava em propor uma simples alternativa à falta de pão, mas em não entender que o alimento estava em falta por causa da profunda crise vivida no país e, também, em esperar que o “povão” pudesse comer dos nobres brioches presentes na corte real.

Quer tal insensatez tenha vindo dos lábios da nobreza da França ou não, o fato é que o Soberano das Escrituras é completamente diferente no trato com a criação. O “pão” apontado por Jesus, em Mateus 6.11, não se limita à mistura de ingredientes com farinha, mas se refere às necessidades físicas como um todo. Israel bem sabia disso, já que viveu anos no deserto. O Senhor, porém, sustentou o povo com o maná, uma espécie de grão que caía do céu todas as manhãs (Êx 16.4; Nm 11.7-9). Assim, mesmo em condições inóspitas, Deus supriu o povo diariamente, sem nunca faltar em seu compromisso.

O Senhor reconhece que todo ser vivo possui necessidades básicas e que é totalmente dependente do cuidado divino (Sl 104.27-30). Aquilo que o crente precisa, portanto, não está oculto aos olhos do Pai. Por isso, a oração ensinada por Jesus mostra que não é errado pedir ao Senhor por aquilo que, de fato, é necessário. Deus é bondoso e pródigo em abençoar (Mt 7.11). Os meios pelos quais supre tais necessidades podem ser milagrosos, como aconteceu com Elias de diversas formas (1Rs 17), mas também incluem o trabalho comum feito na dependência do Senhor (2Ts 3.10-12).

Entretanto, a mesma falta de tato atribuída a Maria Antonieta pode acometer o crente. Isso porque, ainda que Senhor seja abundante em seu sustento, a ameaça da ingratidão sempre bate à porta do cristão. Como R. C. Sproul lembrou com sabedoria, “Deus supre o que é necessário, mas nem sempre o que é supérfluo”. Assim, muitas vezes, os crentes tornam-se murmuradores como o povo de Israel, que, enjoado do maná, desejou nunca ter saído do Egito, onde era escravo (Nm 11.4-6).

O viver do crente, porém, deve ser marcado por gratidão e dependência, como exemplifica o apóstolo Paulo (Fp 4.6-13). Um modo prático de experimentar tal verdade é viver um dia de cada vez, confiando nas promessas do Deus que não muda (Tg 1.17). Afinal, o pão de amanhã não virá hoje, adiantado; nem mesmo o pão de hoje será dado amanhã, em atraso. É bom lembrar que “para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu’ (Ec 3.1). Viver ansioso é duvidar se Deus dará mesmo o “pão” prometido ou ainda questionar, de modo ingrato, se o “pão” que ele dará é bom o suficiente.

De fato, inúmeras vezes, além do pão, Deus também presenteia seus filhos com bolos, frutas, sucos e muita fartura... E ainda mais! Aqueles que possuem Cristo como Salvador, deliciam-se também com o verdadeiro “pão da vida”. Este, sendo o próprio Jesus, acaba completamente com a miséria espiritual dos pecadores arrependidos e garante a vida eterna (Jo 6.47-58). É o banquete da nobreza ofertado diariamente à plebe. Quão bondoso é o Deus que dá o “pão” — e também os “brioches”!

Níckolas Ramos

Coram Deo

 

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