Terça, 25 de Setembro de 2018
   
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Dois Lugares ao Mesmo Tempo

Pastoral

Certa vez, eu estava em um restaurante com alguns amigos e, sem comentar com ninguém, presenciei um episódio que me incomoda até hoje e tem acontecido com bastante frequência. Enquanto estávamos participando de nossa refeição, um casal — assumo essa condição, pois entraram de mãos dadas — adentrou o estabelecimento e tomou lugar em uma mesa próxima à nossa, bem à frente do meu campo de visão. Por alguns minutos, tornei-me espectador dos eventos que seguiriam na vida daqueles consortes.

Após folhearem o cardápio por alguns minutos, fizeram seu pedido contemplando um prato e uma bebida. Até esse ponto nada ocorreu fora do roteiro de um jantar casual entre namorados. Só que a próxima cena, até então incomum a mim, causou um efeito angustiante. Depois da retirada do garçom, imediatamente eles pegaram seus celulares e o cenário, em que se encontrava inserido aquele casal de namorados, mudou subitamente.

O que, até então, seria um jantar casual e descontraído, fora tomado por uma quietude sombria e prolongada. Absortos em mundos completamente paralelos, aqueles amantes pareciam se distanciar cada vez mais um do outro por meio da tela de seus celulares. Completamente prisioneiro daquele evento, minha torcida era para que um deles trocasse uma palavra, um sorriso, uma expressão que confirmasse a presença do outro. Mas dez, quinze, vinte minutos se passaram e aquela agonia só foi interrompida pela chegada do jantar.

Depois de assistir a esse curta-metragem, passei a atentar e procurar por acontecimentos semelhantes e verifiquei se tratar de um filme corriqueiro. Famílias inteiras conseguem se enclausurar dentro de um celular mesmo estando em torno da mesa. Jovens se encontram fisicamente para interagir virtualmente com outras pessoas por meio do celular, até mesmo com fones nos ouvidos, aumentando, assim, seu isolamento. Casais compartilham um sofá para simplesmente conversar com outras pessoas em outros sofás!

Podem me chamar de velho ou antiquado (e só tenho 32 anos!), mas esses acontecimentos a que assisti, e alguns que até mesmo protagonizei, fizeram-me concluir que a companhia das pessoas não é mais importante e apreciada. Tanto faz quem está ali comigo, o que quero é estar com outros. Marido e esposa não se interessam pela companhia mútua, filhos não veem a hora de estar longe de seus pais, pessoas que anseiam pelo isolamento conquistam seus desejos por meio da tela do celular. E não adianta afirmar que estão prestando atenção, pois não é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Além de ser extremamente desrespeitosa, essa postura diverge daquela encontrada no apóstolo Paulo, por exemplo, que, por diversas vezes, aspirou a companhia física de seus irmãos, notadamente os mais queridos (Rm 15.24; 1Co 5.3-4; Fp 1.23-27; 1Ts 2.17; 2Tm 1.4; 4.9). Mesmo noticiando brevemente sua situação por meio de cartas, o desejo intenso de Paulo era estar com os irmãos e desfrutar de verdadeira comunhão com eles, nutrindo-os com a Palavra e sendo aperfeiçoado pela companhia deles.

No relacionamento com Deus nossa conduta deve seguir o exemplo apostólico. Lembro-me de uma professora de EBD ilustrar o momento devocional do crente como um jantar a sós com Jesus. E, por essa razão, deveríamos deixar toda e qualquer distração de lado — celular longe e desligado —, pois seria extremamente desrespeitoso com Jesus dividir nossa atenção quando ele está falando por meio da Bíblia, ou quando nós estamos falando com ele em oração. Ninguém gosta de ser interrompido ou ignorado.

Diante disso, valorizemos a companhia de nossos irmãos e entes queridos, sabendo que o sofá foi feito para os cônjuges assistirem a filmes agarradinhos; as rodas de amigos, para as brincadeiras e risos; as conversas a dois, para exortação, consolo e encorajamento; e as pequenas reuniões, para crescimento e aperfeiçoamento mútuo na troca de ideias e experiências. Interromper tudo isso por causa de um telefonema, uma mensagem no WhatsApp ou notificação do Facebook ou Instagram expressa desinteresse e até mesmo desprezo por aqueles que nos fazem companhia.

Isaac Araújo Pereira

IBR Pinheiros

 

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