Terça, 19 de Junho de 2018
   
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Cobertura Espiritual

Pastoral

Um dos livros mais interessantes que li no meu 1º ano do curso de Direito foi A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges. Essa obra, entre outras coisas, expõe a mentalidade dos pagãos da Antiguidade, mostrando que, via de regra, mesmo nas mais variadas culturas, os homens de outrora acreditavam que o poder de seus deuses estava adstrito a certas porções geográficas.

Assim, os deuses denominados “lares” só atuavam dentro da propriedade de uma determinada família, devendo essa propriedade ser bem demarcada para que os tais deuses não extrapolassem os limites dentro dos quais deveriam agir e, por engano, começassem a proteger gente de outros clãs. Havia também os deuses das cidades e dos países, de modo que, quando os moradores de certa localidade tinham de viajar, eles se sentiam desprotegidos, pois tinham de ficar fora das fronteiras dentro das quais estariam supostamente amparados pelas divindades da terra. Talvez fosse por causa dessa visão que os estrangeiros eram tão maltratados fora de seu país de origem. Os habitantes locais viam os forasteiros como gente sem proteção divina e se aproveitavam disso para lhes fazer mal. Também por causa dessa visão, o exílio era tido como uma das penas mais severas a ser aplicada a alguém.

Na Bíblia vemos um lampejo dessa visão pagã em 2Reis 17.26: “Por isso falaram ao rei da Assíria, dizendo: A gente que transportaste e fizeste habitar nas cidades de Samaria não sabe o costume do Deus da terra; assim mandou leões entre ela, e eis que a matam, porquanto não sabe o culto do Deus da terra”. A ideia de um “Deus da terra” é nítida aqui, mostrando que os assírios acolhiam essa noção tão comum no paganismo.

Isso nos ajuda a entender o impacto que, naqueles tempos, deve ter causado a concepção judaica acerca de Javé como o “Deus de toda a terra” (Sl 47.7; Is 37.16), isto é, o Deus que não podia ser definido simplesmente como a divindade de uma cidade ou país específico. Isso tudo, talvez, também esclareça por que, ao ouvir sobre esse Deus, os marinheiros que viajavam com Jonas entraram em pânico! O profeta fujão disse aos assustados marinheiros que Javé não era mera divindade local, mas sim o Deus de todos os lugares, incluindo o céu e o mar (Jn 1.9). Os marinheiros viram, desse modo, que não havia saída pra eles. O Deus de Jonas não estava vinculado a uma região específica, mas era o Deus do universo inteiro! Não havia, pois, como escapar da ira desse Deus, nem que eles fugissem para a Lua!

Quando olhamos para os homens do passado, carentes de qualquer instrução teológica verdadeira e distantes um milhão de anos-luz das doutrinas cristãs, não estranhamos muito o fato de acreditarem em bobagens como a possibilidade de haver deuses daqui e dali, podendo alguém sair fora dos limites de atuação dessa ou daquela divindade. Aqueles coitados viviam debaixo de um monte de crendices tolas, sem acesso a qualquer porção da revelação especial do Senhor e levados por invenções da própria cabeça ou da cabeça de seus sacerdotes enganados e enganosos. O que esperar, portanto, daquela pobre gente? Para aquele povo, era assim que as coisas funcionavam e nós até entendemos o fato de acreditarem em tantas superstições.

O que a gente não entende é o fato de muitos líderes cristãos adotarem versões modificadas daquelas velhas crenças absurdas e as espalharem por aí afora. Isso mesmo. Há hoje em dia supostos chefes eclesiásticos que dizem ser possível um crente ficar fora do que chamam de “cobertura espiritual”. Para esses mestres neopagãos, existe uma proteção especial de Deus que está atrelada ao “ministério” que realizam ou à igreja que lideram. Assim, quando algum membro de sua comunidade começa a estudar a Bíblia e, descobrindo que está no lugar errado, cai fora daquela arapuca, os tais “pastores” tentam assustar esse crente dizendo que ele está “sem cobertura espiritual”. A safadeza desses malandros é tão grande que eles usam esse tipo de ensino para engendrar o medo nas pessoas e ameaçá-las a fim de mantê-las no cabresto. Então, da mesma forma que o pagão antigo tinha medo de sair de sua cidade e ficar sem a “cobertura” dos deuses locais, muitos crentes de hoje têm medo de fugir das igrejas erradas em que estão, achando que, se o fizerem, ficarão sem “cobertura espiritual”, sujeitos a males terríveis e quedas irremediáveis.

Como a ignorância escraviza! Por causa dela, muitos homens de hoje, com pleno acesso à Palavra de Deus, vivem debaixo do mesmo temor que os antigos que não tinham a menor noção da verdade! O fato é que, se os cristãos modernos conhecessem um pouco mais a Santa Palavra, saberiam que sua “cobertura espiritual” não está ligada à sua filiação a esse ou aquele “ministério”. Com efeito, eles saberiam que os crentes verdadeiros são todos “guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (1Pe 1.5); que Deus sempre cuida dos que são seus (1Pe 5.7); que as ovelhas do Senhor estão nas suas mãos, de onde ninguém pode arrebatá-las (Jo 10.28-29); que a ação do Pai guarda os cristãos do maligno (2Ts 3.3); que o Espírito Santo habita permanentemente neles (1Co 6.19-20) e que essa presença vai perdurar até o dia da sua redenção final (Ef 1.13-14). Como, pois, alguém assim poderia ficar sem “cobertura espiritual”, especialmente quando se dispõe a escapar do erro e fugir dos líderes perversos que tentam manipulá-lo e escravizá-lo?

Que o Senhor abra os olhos do seu povo e o livre das mentiras escravizantes que os falsos mestres não se cansam de inventar. Que o Deus poderoso liberte seus servos das velhas doutrinas pagãs que circulam por aí usando roupagens novas. Que esses mesmos servos aprendam que, como filhos amados que são, o Senhor sempre os guiará, mantendo sua mão protetora sobre eles à medida que obedecem à sua vontade. Que o povo fiel ao Deus da Bíblia não se deixe escravizar pelas ameaças dos impostores e fuja sempre da mentira cruel que prende e tortura os tolos, tornando-os objeto da exploração dos maus.

Pr. Marcos Granconato

Non nobis, Domine  

 

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