Terça, 24 de Abril de 2018
   
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Recado de Natal aos Pastores Suicidas

Pastoral

Estamos no mês do Natal. Por isso, impelido pelo tema da encarnação do Verbo, no domingo passado eu preguei sobre as razões pelas quais o Filho se fez homem. Tomei por base o texto de 1Pedro 2.21-25. Quem prestou atenção ao sermão vai recordar do primeiro ponto: “Cristo veio ao mundo para ser modelo”. Expandindo essa tese, a partir dos vv.21-23, eu disse que Jesus nos forneceu um padrão moral a ser imitado e também um exemplo de como lidar com o sofrimento e com os ataques injustos que os incrédulos fazem contra nós.

De fato, Cristo se fez homem, entre outras coisas, para nos servir de exemplo. Isso, a princípio, pode parecer simplista, trazendo-nos à mente meras noções de um protótipo que exibia altos padrões morais. Contudo, arrisco dizer que nosso Senhor foi exemplo não somente no campo ético. De fato, ele foi exemplo em tudo, podendo ensinar, com sua vida, não apenas como devemos nos comportar, mas também como devemos enxergar tudo à nossa volta. Ou seja: o modelo de Cristo não aponta apenas para a forma como devemos viver a vida, mas também para o modo como devemos ver a vida.

O que quero dizer com isso? Bem, deixem-me exemplificar... Neste mês, que deveria ser de alegres celebrações, recebemos a trágica notícia do suicídio de três lideres eclesiásticos da Assembleia de Deus. Eu acredito que as causas que levam uma pessoa a tirar a própria vida são muito complexas e variadas. Porém, sem querer simplificar muito as coisas, creio que nos casos de depressão de pastores pentecostais e arminianos há pressupostos nutridos por eles que, unidos a causas mais profundas, agravam ainda mais sua angústia e desespero. 

Pensem, por exemplo, num pastor que ministra no contexto pentecostal. Na compreensão geral desse grupo evangélico, o crente tem de estar sempre alegre, vibrando sem parar, tomado de uma plenitude espiritual que o tira do chão e o conduz a arroubos de júbilo, entusiasmo e vibração constantes. Portanto, se, por algum motivo, alguém não se mostra assim nesse meio, essa pessoa é logo exortada. Dizem que ela está fora da “unção” (seja lá o que isso signifique), que precisa buscar mais a alegria do Senhor, que está vivendo na carne, longe do fervor do Espírito e coisas do tipo. Obviamente, isso lança o indivíduo cansado e triste num abismo imenso de culpa, agravando seu estado emocional. No caso de um pastor, a complicação aumenta, já que ele se sente obrigado a dar exemplo. O fardo que tem sobre si, portanto, é infinitamente maior. E se ele estiver num vale escuro, com a cabeça repleta de pensamentos de morte, essas cobranças certamente vão afundá-lo ainda mais, empurrando-o com força para direções horríveis e inimagináveis.

Agora pensem num pastor arminiano. Fundamentando-se na crença de que as pessoas têm livre-arbítrio, de que são capazes de, por si mesmas, “tomar uma decisão ao lado de Cristo” e de que a fé salvadora é uma resposta meramente humana à boa argumentação do pregador, esse homem põe sobre seus ombros a tarefa impossível de converter pecadores. Desse modo, suas homilias terminam necessariamente com um apelo para a conversão e, se esse apelo não produz resultados, a competência do tal pastor é imediatamente posta em dúvida. Ele avalia, então, seu trabalho a partir desses pressupostos e, chegando ao fim de um determinado período, vê, à luz das estatísticas, que não teve muito sucesso. Pra piorar, ele ouve dizer que na igreja pastoreada por seu colega, todos os domingos um grupo enorme de pessoas “vai à frente”. Por que o mesmo não acontece em seu ministério?

Inconformado, esse pobre pastor tenta, então, “turbinar” seus sermões com histórias emocionantes, pede para a igreja cantar hinos bem tocantes na hora do apelo, grita em alguns pontos do sermão a fim de intimidar os incrédulos, fala, por exemplo, de pessoas que não atenderam ao apelo e foram atropeladas e mortas logo que saíram da igreja, perdendo assim, para sempre, a chance de ir para o céu... Ele faz tudo isso e, no entanto, pouco ou nada acontece. Desse modo, seu valor pessoal vai lá pra baixo; sua angústia é redobrada com questionamentos acerca de ele ter sido mesmo chamado por Deus; e oponentes cruéis o criticam, dizendo que sua mensagem é fraca e estéril e que ele não tem a vocação de um verdadeiro “ganhador de almas”.

Imaginem o peso dessa imensa frustração sobre um homem já deprimido em virtude de outros fatores. Seu coração se esfria ainda mais, seu ânimo se esvai, sua auto-imagem se desfigura. Ele ora. Ele chora. Ele pensa em ir embora. E o drama atinge um grau insustentável quando se chega à conclusão de que não há mais nada a fazer ― o seu alvo de converter centenas de pessoas é, de fato, uma causa perdida. Com isso, o coração do pastor triste fica mais pesado, podendo conduzi-lo facilmente por aquelas veredas de morte que alguns têm palmilhado.

Quão mais leve seria o fardo desses pastores se tivessem Jesus como exemplo no modo como se deve ver a vida e o ministério. Sim, pois a história do Filho de Deus, em sua visita a este mundo, mostra que o homem santo nem sempre vive pulando de alegria, podendo, sim, chorar durante a noite, sozinho, num jardim, não havendo nada de reprovável nisso. Observando as coisas com os olhos de Jesus, ele também aprenderá que a fé que salva não resulta da boa argumentação dos pregadores, de sua boa retórica, de suas habilidades ou de seus artifícios homiléticos. Antes, advém da ação de Deus, já que ninguém pode ir a Cristo sem que isso lhe seja concedido pelo Pai (Jo 6.37,44,65). João realçou essa verdade, ensinando que os crentes não nasceram da vontade da carne, mas de Deus (Jo 1.12-13). E Pedro só reconheceu que Jesus era o Messias porque não foi carne e sangue que revelou isso a ele, mas o Pai que está no céus (Mt 16.16-17).

Quão aliviadoras são essas verdades para os ministros de Cristo! Como é bom saber, a partir do exemplo de Jesus, que podemos viver nossas angústias e, ainda assim, sermos acolhidos sem censura por Deus e pela igreja madura! Como é bom lembrar, sob a ótica do Senhor, que nosso papel como pregadores é apenas lançar e regar a semente, indo depois descansar, deixando o crescimento nas mãos do Pai (1Co 3.6-7). Como é bom, enfim, perceber que a verdade do seu modelo também liberta. Liberta, inclusive, da frustração, da culpa, do fardo e até da morte.

Olhem, pois, para o exemplo de Jesus, pastores tristes. Olhem para sua forma de viver a vida e para sua forma de ver a vida. Olhem para ele e sigam em frente.

Pr. Marcos Granconato

Non nobis, Domine

 

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