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A Formação da Teologia de John Nelson Darby (Parte 1/3)

A Formação da Teologia de John Nelson Darby

 

Paul Richard Wilkinson

 

* Extraído com permissão autoral do livro “For Zion’s Sake” (Por Amor de Sião), de Paul Richard Wilkinson.

** O referido livro foi recentemente relançado com o título “Understanding Christian Zionism”.

 

PARTE 1/3

 

CAPÍTULO 6

O Restauracionismo do século 19

Em 10 de novembro de 1790, Richard Beere, reitor anglicano da Sudbrooke em Lincolnshire, escreveu uma carta para William Pitt, o Novo, que é descrita como “uma tentativa memorável de influenciar a política externa inglesa de modo a favorecer a restauração dos judeus”.1 Convencido de que a restauração era iminente, Beere cria que o Primeiro Ministro Britânico havia sido instituído por Deus para efetivar o retorno do exílio judaico, assim como fez Ciro, rei da Pérsia, durante o exílio babilônico. Ele escreveu:

Minha expectativa é que você empregue vigorosos esforços na execução desse propósito grandioso (...) talvez nenhum homem que adentrou o palco do teatro desse mundo tenha desfrutado a oportunidade de fazer isso e atuar em tão grande papel como você na presente ocasião.2

Beere esperava que o Reino Unido “obedeceria a vontade de Deus”, não apenas por motivos religiosos, mas “por causa de uma política sadia”.3

Essa convergência entre teologia e política se tornou uma característica consistente do Restauracionismo do século 19, com a notável exceção de Darby e os Irmãos. Ao avaliar os pré-milenistas do século 19, que criam na prometida restauração dos judeus, é imperioso que diferenciemos o historicismo subjacente de homens como Bickersteth, Drummond, Irvin e Hechler, e o futurismo subjacente de Darby, Witherbys e Burgh. Entretanto, continuarei a classificar os historicistas como cristãos restauracionistas e os futuristas como cristãos sionistas, uma distinção que deve permanecer a fim de identificar e categorizar corretamente o curso do Sionismo cristão. Infelizmente, os historiadores frequentemente se aprofundam nas complexidades da escatologia cristã e ignoram as questões teológicas intrínsecas envolvidas. Isso tem causado classificações equívocas e genealogias artificiais que têm servido somente para turvar as águas escatológicas.

Revolução Francesa

O crescimento do republicanismo e a queda do ancien régime na França levou muitos evangélicos a reavaliarem sua concepção acerca da interpretação bíblica. A revolução francesa foi vista por muitos como a “profecia da Pedra de Roseta”4 e a chave que “abriria o baú do tesouro da profecia bíblica”.5 Essa foi a era do historicista que interpretou os 1260 dias de Daniel como anos e datou o início do seu período em 529 AD, quando o imperador bizantino Justiniano codificou a lei romana em seu Codex Justinianus. Quatro anos depois, Justiniano emitiu ao bispo de Roma um decreto epistolar que efetivamente concedia a Roma a primazia em questões eclesiásticas e, em 534, reeditou seu codex de forma expandida, fazendo vigorar o Corpus Juris Civilis. Tudo isso serviu de base para a lei civil durante todo o Império Romano e levou à união entre Igreja e Estado, confirmando a supremacia papal e garantindo que, durante todo o império, os judeus fossem mantidos em constante servidão. Historicistas que apontaram o Papa como o anticristo criam que os 1260 “dias” do “domínio papal”6 terminaram em 1789 com a eclosão da Revolução Francesa, a abolição da monarquia francesa, a ascensão de Napoleão Bonaparte e o exílio do Papa Pio VI, em 1798.

James Bicheno

Em 1793, o ministro batista James Bicheno (1752-1831) expressou sua crença de que a Revolução Francesa foi um precursor da segunda vinda7 e que uma sequência de eventos se iniciara, o que levaria à derrocada do sistema papal anticristão. Em 1800, ele publicou A Restauração dos Judeus: a Crise das Nações, discorrendo, admirado, acerca de como Deus fielmente preservou o povo da antiga aliança:

A preservação de seu povo por meio de um mar de misérias, e através de tantos séculos, e para os propósitos que a Escritura decreta é um milagre contínuo mais estupendo que todos os outros milagres que Deus realizou como prova de sua revelação divina, o que, na presente crise, mostra-se minuciosamente calculado para instigar nossa fé e confiança na providência soberana de Deus, com o fim de acalmar e confortar a mente em meio à agitação de todos os elementos da sociedade humana e sob a expectativa das mais terríveis calamidades.

De acordo com Bicheno, a crença na restauração de Israel não estava confinada a “alguns poucos indivíduos da atualidade”, mas tem sido “a opinião fixa das mais reluzentes mentes da igreja cristã de todas as eras”. Ele sugeriu que, se o retorno dos judeus foi cumprido quando 42.360 exilados retornaram da Babilônia (Ed 2.64), ou se isso deveria ser aplicado espiritualmente à igreja, então a Bíblia se tornou “mera massa de modelar que pode ser alterada a bel-prazer”. Crendo que Deus estava a ponto de levantar uma nação europeia para facilitar a restauração, Bicheno admitiu que fé e política eram inseparáveis:

Estou cansado de política e, em questões comuns, detesto sobremaneira sua intervenção em assuntos religiosos. Mas aqui é impossível separá-los, pois estão muito original e necessariamente interligados nesta questão.8

Religião e política estavam indissociavelmente ligadas na política de Napoleão Bonaparte, um jovem oficial francês que emergiu da obscuridade da Córsega para elevar o povo judeu a uma posição de importância sem precedentes. Agindo assim, ele transformou o cenário político e teológico do início do século 19 na Europa, como explica Kobler:

O encontro do povo judeu com Napoleão foi um momento decisivo na história judaica. Pela primeira vez, um estadista moderno visionou o problema judaico como uma questão fundamental na política internacional (...). Quer ele se considerasse o próximo Salomão, que reconstruiria o Templo de Jerusalém, ou um novo Herodes, exercendo autoridade sobre uma nação dispersa, Napoleão considerava o povo judeu um parceiro em seus planos mundiais.9

A Declaração de Napoleão

Apesar da inexistência de presença judaica na Córsega durante sua infância, Napoleão era fascinado pelo Antigo Testamento e pela história dos judeus. Depois de assumir o comando do exército francês, em 1796, ele libertou comunidades judaicas na Itália e em Malta. Muitos judeus o saudaram como chelek tov (Bona-parte em hebraico, que significa boa porção) e ohev Israel (amante de Israel). De acordo com Kobler, “os elementos de liberdade e restauração nacional, que eram inerentes às vitórias de Bonaparte e que eram refletidas em suas declarações, tornaram-se manifestas no tratamento com os judeus.10 Buscando “dar um golpe”11 no império ocidental britânico, Napoleão chegou em Alexandria no dia 1º de julho de 1798 e, dentro de alguns meses, alterou seu foco para a Terra Santa.

No primeiro dia da Páscoa de 1799, Napoleão emitiu uma declaração convocando os judeus a se reunirem debaixo de sua bandeira “pour retablir l’ancienne Jérusalem” (para restaurar a antiga Jerusalém). Publicado no jornal do governo francês, Moniteur Universal de Paris, a declaração tinha como objetivo atrelar o suporte do mundo judaico a seu anseio imperial por meio de uma proposta de restauração da terra natal. Ao adotar o tom de revolução e nacionalismo, Napoleão “usou livremente o dialeto moderno e denominou os judeus como nação”,12 um passo sem precedentes dado por um líder mundial. Apesar de suas aspirações políticas e da derrota definitiva de suas campanhas na “Palestina”, que “radicalmente alteraram a situação geopolítica”13 no Oriente Médio, o apelo de Napoleão aos judeus “indicava uma consciência da conexão especial entre o povo judeu e a terra de Israel”,14 uma conexão que ele tentou destruir quando retornou à França. Percebendo que os judeus franceses eram uma “nação dentro da nação”,15 Napoleão embarcou em uma nova campanha com o fim de erradicar sua singularidade, persuadindo-os a abrir mão de sua autonomia “ao se tornarem cidadãos franceses”16 e, então, “encontrar Jerusalém na França”.17 Para muitos evangélicos no Reino Unido, os eventos seguintes sofreram uma sombria reviravolta.

George Stanley Faber

O teólogo anglicano George Stanley Faber (1773-1854), admirador do trabalho de James Bicheno, cria que um dos “muitos sinais dos tempos” era o fim do Império Otomano, o qual, afirmava ele, “prepararia o caminho para o retorno das Dez Tribos” e “sincronizaria com o retorno das Duas Tribos”.18 Ele divergia do historicismo corrente e predisse que os 1260 “dias” das “apostasias papais e muçulmanas” terminariam em 1866, quando os judeus começariam a retornar à sua terra natal. Ele cria que isso seria um sinal de um período de “problemas sem precedentes”19 para Israel (Jacó). Notavelmente, à luz da futura função do Reino Unido, Faber estava convencido de que um poder marítimo seria levantado por Deus em auxílio à restauração de Israel. Assim ele escreveu em Uma geral e integrada visão das profecias (1808):

Devo adicionar que nós, membros dessa grande e protestante nação marítima, estamos particularmente interessados, pois certamente não é impossível que sejamos o povo mensageiro descrito por Isaías, destinado a desempenhar um papel notável na conversão e restauração de Judá. Até agora fomos preservados, uma coluna no meio de ruínas. Enquanto impérios poderosos cambaleiam até sua sede, e enquanto o anticristo avança a passos largos em sua tomada dominadora sobre os reis escravizados do Império Romano, nós, pela graça da Divina Providência, atingimos uma proeminência naval inédita e sem precedentes nas eras antigas. Sendo esta a nossa presente situação, não é menor nosso interesse político do que nosso dever como cristãos de nos esforçar, cada um de acordo com sua oportunidade e medida, a fim de promover a conversão da casa de Judá.20

Em um sermão pregado em nome da LSPCJ, em 1822, Faber afirmou que os crentes judeus estavam destinados a se tornar os últimos e mais bem sucedidos missionários de Deus na Terra. Ele denunciou aqueles que, “pelo processo de espiritualização”, têm “pervertido” as profecias que falaram da “glória do Senhor” se levantando sobre Sião (Is 60.1) ao aplicá-las à “igreja cristã”.21 O historicismo subjacente de Faber acabou por romper com a escatologia de Darby. Entretanto, é interessante notar que Darby possuía uma cópia do livro de Faber: Sobre os Mistérios do Cabiri (1803).

Sinal dos Tempos

Em 1840, um autor pouco conhecido, de nome J. B. Webb, escreveu Naomi, um romance ambientado nos dias da destruição do segundo templo. Foi escrito para atrair “a atenção dos jovens e imprudentes para o maravilhoso cumprimento da profética Palavra de Deus”. No prefácio, Webb fez a seguinte observação:

Os sinais da presente era apontam fortemente para uma Terra Santa e para a outrora gloriosa cidade de Jerusalém; e os olhos de muitos (judeus e gentios) estão voltados para ela em ansiosa expectativa do iminente cumprimento das promessas de favor e restauração que estão notadamente estabelecidas na Escritura, com referência à terra e seu disperso e ultrajado povo (...). Oremos sinceramente por sua conversão e preparação para encontrar seu aguardado Messias; dessa maneira, estaremos exercitando a maior das obras cristãs e (se posso assim dizer) “preparando o caminho do Senhor”.22

Recordamo-nos de como Darby fez uma observação parecida naquele ano em que escreveu sobre as nações “sitiarem Jerusalém”.23 Alguns anos depois, o Bispo J. C. Ryle proclamou em um sermão, em nome da LSPCJ, que:

Um homem deve ser cego para não ver o tamanho da atenção que políticos e líderes mundiais, nos dias atuais, concentram nos países em torno da Palestina (...) mas creio ouvir a voz de Deus dizendo: “lembre-se dos judeus, olhe para Jerusalém”.24

Apesar de os evangélicos não estarem sozinhos em seu “interesse incomum pelas ruínas de Sião”,25 Darby, Webb e Ryle acreditavam que o retorno dos judeus para a terra prometida era um dos mais importantes “sinais” que Jesus prenunciou sobre sua vinda (Lc 21.5-36; Mt 24.1-35).

De acordo com Robert Whalen, a posição daqueles que estudaram a profecia bíblica durante “o maior século em que o cristianismo foi conhecido”26 era “sóbria e acadêmica” e “eminentemente respeitável”.27 Com a fundação da LSPCJ, “uma nova dimensão foi acrescentada ao relacionamento entre milenaristas da Inglaterra e o povo judeu”.28

A Sociedade Londrina de Promoção do Cristianismo entre os Judeus

No prefácio de seu livro Os judeus e sua evangelização (1899), um manual escrito para a Student Volunteer Missionary Union, W. T. Gidney afirmou que o propósito da LSPCJ era “estimular o interesse dos cristãos, em geral, e missionários estudantes, em particular, na evangelização do antigo povo de Deus, Israel”.29 No fim do século 19, vinte e três sociedades missionárias foram fundadas na Inglaterra e na Escócia,30 sendo a LSPCJ a “mais antiga, assim como a mais abrangente”31 do mundo. Essa sociedade se tornou um “grande marco”32 para cristãos que acreditavam no retorno dos judeus à terra prometida.

Em 4 de agosto de 1808, a Sociedade Londrina (com o propósito de visitar e aliviar os doentes e aflitos, e instruir os ignorantes, especialmente aqueles da nação judaica) foi fundada sob a liderança de Joseph Frey, o filho de um rabi alemão.33 Em 1º de março de 1809, a Sociedade mudou seu nome para Sociedade Londrina de Promoção do Cristianismo entre os Judeus,34 emitindo seu primeiro relatório em 23 de maio de 1809.35 Relatórios anuais revelam quão difundido era o apoio à LSPCJ, de modo que, em 1812, seu quarto relatório incluía uma carta do missionário batista na Índia, William Carey. Assim como escreveu Kelvin Crombie, “a lista de apoiadores era como um jogo Cara a Cara evangélico e social”.36 Entre os vice-presidentes da sociedade estavam o duque de Devonshire, juntamente com sete condes, cinco viscondes e diversos membros do Parlamento. Em 1813, o pai da rainha Vitória, o duque de Kent, foi nomeado patrocinador.37

Depois de incorrer em inúmeras dívidas, a Sociedade foi posta sob a jurisdição da Igreja da Inglaterra, em 1815. Por volta de 1829, o número de comitês provinciais auxiliares da LSPCJ havia aumentado para trinta e seis.38 Desde 1841, sucessivos arcebispos de Canterbury serviram como patrocinadores da Sociedade, agora conhecida como Ministério da Igreja entre o Povo Judeu (CMJ), até 1992, quando George Carey declinou o cargo.39

Historicismo Subjacente

Com tantos evangélicos associados à LSPCJ, a questão de como interpretar a profecia bíblica se tornou um problema. Gidney explica:

Certo descontentamento foi causado por algumas visões proféticas atribuídas à Sociedade e, em um protesto dos patrocinadores, o Comitê, em 27 de outubro de 1823, rejeitou toda intenção de promulgar qualquer visão particular acerca da natureza do Milênio, sendo seu foco a conversão dos judeus para a vitalidade do Cristianismo. Esse raciocínio foi estabelecido no Expositor Judaico, uma neutralidade que deveria ser mantida em questões proféticas polêmicas.40

A primeira e mais notável vítima dessa rejeição foi o vice-presidente Lewis Way, cujo inabalável pré-milenismo e insistência na ideia de que os judeus seriam restaurados à sua terra antes de exercerem a fé em Cristo o levou à sua renúncia com o “coração partido”.41 Patterson nota quão irônico era que “o mesmo problema que trouxe os judeus à proeminência”42 afastou Way da Sociedade em que ele desempenhou um papel tão constitutivo. Entretanto, como veremos, a principal ênfase da LSPCJ passou a ser o evangelismo. A deflagração dos Pogroms russos em 1881/2 levou a Sociedade a emitir uma declaração expressando não apenas sua “sincera compaixão” para com os refugiados judeus, mas sua convicção de que seus “julgamentos” sinalizaram “o início do cumprimento da profecia bíblica acerca do retorno dos judeus à sua própria terra”. A Sociedade enxergou os eventos na Rússia como “um movimento preparatório para sua completa extração das terras que adotaram, levando-os a voltar seus olhos para a terra prometida, seu país dado como herança eterna”.43

Em débito com o historicismo subjacente da LSPCJ, ou Sociedade Londrina de Judeus, como era mais conhecida, a reivindicação de Stephen Sizer de que “o Sionismo cristão, como movimento, pode ser datado precisamente com a fundação da Sociedade Londrina de Judeus”44 é errônea. A LSPCJ era a cabeça do movimento restauracionista cristão, que era pré-milenista e político em essência, mas falhou em efetuar uma clara e bíblica distinção entre Israel e a Igreja, que Darby e os Irmãos haviam realizado. Não obstante, conforme veremos, há diversas áreas de concordância doutrinária entre eles.

Edward Bickersteth

O nome de Edward Bickersteth (1786-1850) é fortemente associado à Sociedade Igreja Missionária (CMS) e à Aliança Evangélica, as quais ele ajudou a fundar. À luz do que ele descobriu ser a “situação muito peculiar e atual da terra da Judéia e da nação judaica”, Bickersteth publicou uma série de discursos sobre a restauração dos judeus com o fim de encorajar o sóbrio e honesto estudo das Escrituras. Ele cria que a Bíblia é “cheia de uma grande e rica esperança sobre a condição futura desse povo extraordinário” e que um verdadeiro entendimento da restauração de Israel era necessário para “a completude da fé cristã”. Ele também orava para que a Inglaterra “fosse favorecida entre as nações da Terra ao auxiliar a restauração de Israel”. Bickersteth estava convencido de que o retorno dos judeus à terra prometida serviria como “um sinal para todos os habitantes da Terra acerca do retorno do Senhor”; a resposta de Jesus em Atos 1.6-8 foi fraseada de modo a “manter viva a atenção da Igreja para a glória futura de Israel”.45

Bickersteth estava convencido de que, “em seu evidente e óbvio significado”, as promessas de Deus falavam sobre a “posse perpétua” da terra de Israel e que era necessário “restaurar livremente as promessas a nossos irmãos, os judeus (...) sem empobrecer nossas reservas de bênçãos”. Por séculos a Igreja tem feito o que é “odioso a Deus” ao roubar dos judeus sua herança “sob a presunção de um discernimento espiritual superior”.46 Ele acreditava que isso se dava, em grande parte, por causa do persistente “egoísmo, incredulidade e soberba” da Igreja, o que tornou muitos cristãos surdos para a “nota de advertência” do cumprimento profético ao serem atingidos pelo “relógio da Providência”. Desse modo, ele se dirigiu à LSPCJ, em 1834, dizendo que “a Igreja perdeu a esperança da vinda iminente de Cristo e da recuperação de seu povo Israel”. Bickersteth alegava que apenas “cristãos fiéis”, que tinham um “especial e peculiar interesse” no povo judeu, entendiam os sinais dos tempos e precisavam proclamar “o retorno do Rei em Sião, assim como um Redentor crucificado no Calvário”.47

Charles Simeon

Charles Simeon (1759-1836) foi um dos mais respeitados líderes evangélicos do fim do século 18 e início do século 19. Ele trabalhou como vigário da Holy Trinity, em Cambridge, por quarenta anos e ajudou a fundar a CMS. Apesar de sua escatologia não se encaixar facilmente nos moldes de Darby, os sermões que ele pregava em nome da LSPCJ, a quem ele era “preeminentemente ligado,”48 e as notas particulares que ele fez no final de sua vida enfatizavam não apenas uma conversão dos judeus, mas sua restauração nacional. Pelas “sentinelas”49 nas muralhas de Jerusalém (cf. Is 62.6) os judeus foram, “talvez, o interesse mais caloroso de sua vida”.50

Charles Simeon era um “cristão bíblico”.51 Em 1785, ele adquiriu uma cópia do livro A autointerpretação da Bíblia, de John Brown, que acabou se tornando “uma companhia favorita de suas horas devocionais”. É notável que Brown tenha incluído uma seção em sua Bíblia intitulada Uma coleção das profecias a respeito do chamado dos judeus e a glória dos últimos dias. Simeon escreveu para Brown, em 19 de janeiro de 1787, para expressar sua gratidão:

Sua obra A autointerpretação da Bíblia parece contrapor todos os outros comentários. E estou recebendo diariamente grande edificação dela, tanto que gostaria que todos os ministros sérios a possuíssem. Eu tenho a intenção de comprar alguns exemplares para presentear aqueles ministros de Deus que achariam muito inconveniente comprá-la.52

O envolvimento de Simeon com os judeus era primordialmente canalizado pela LSPCJ, a quem ele serviu por muitos anos como “um tipo de faz-tudo, pregando para a Sociedade, recrutando trabalhadores, divulgando propagandas, arrecadando fundos, aconselhando a estratégia geral”.53 Ao lado de Leris Way e Alexander McCaul, ele tem sido descrito como um dos “três pais da Sociedade”.54

Em certa ocasião, enquanto pregava seu “tema favorito”55 para cinco mil pessoas,56 Simeon consistentemente clamava para que os judeus fossem prioridade na oração e na proclamação.57 Ele falou sobre a “criminosa”58 indiferença e preconceito da Igreja com relação ao povo judeu e sugeriu que se os cristãos fossem mais fervorosos na oração, então “Deus se levantaria e derramaria misericórdia sobre Sião”.59 Ele acusou o Reino Unido de “ser uma universal e vergonhosa oposição aos judeus, tal como poderia se esperar de qualquer comunidade civilizada”, e a Igreja de ser “sobremaneira dormente” de modo que “levantar este assunto perante audiências cristãs deveria, talvez, vir acompanhado de um pedido de desculpas”. Ele também acusou ministros de serem ignorantes a respeito da profecia veterotestamentária e do “mistério” de Israel em Romanos 11.25, admoestando os cristãos em geral por falharem na compreensão da misericórdia de Deus no trato com o povo judeu.60 Em 1822, na Universidade de Cambridge, Simeon sugeriu que avistar um judeu deveria “fazer nossas entranhas anelarem por ele”.61 Um dos que, talvez, ouviram-no pregar naquele dia foi John Gifford Bellett, amigo pessoal de Darby. Em carta dirigida a seu irmão George, Bellett escreveu:

Recentemente ouvi dois sermões muito edificantes do Sr. Simeon sobre os judeus. E, de fato, ele me convenceu de que impiedosamente e de forma desumana os tenho desprezado. Ele mostrou nas Escrituras que Deus aparentemente sempre se condoeu com os sofrimentos de Jerusalém, mesmo enquanto anunciava vingança por seus pecados, o que é particularmente exposto na lamentação de nosso Senhor sobre ela enquanto predizia sua ruína.62

Stephen Sizer alega que o “crescimento do Sionismo cristão entre os círculos evangélicos anglicanos foi, sem sombra de dúvida, cultivado em grande escala pela iniciativa de Charles Simeon”, e que Simeon “permaneceu pós-milenista e cria que o Milênio já havia iniciado”, confundindo o problema de duas maneiras. Primeiramente, Sizer incorpora a escatologia pós-milenista em sua definição de Sionismo cristão. E, em segundo lugar, faz referência à sua “leitura literal da Bíblia e escatologia pré-milenista”.63 Essa confusão necessita de correção.

Apesar de Simeon se distanciar da especulação profética,64 “ao final, o pensamento sobre a recuperação de Israel a um Messias divino estava no coração de Simeon”.65

Lamentavelmente, acadêmicos têm prestado pouquíssima atenção ao período de sua enfermidade prolongada e terminal, durante o qual ele passou considerável tempo com as Escrituras, assim como Darby fez durante sua convalescência em Dublin. Em seu discurso durante o Congresso Anual da LSPCJ em 1835, Simeon fez a seguinte confissão: “Apesar de ter estudado o assunto da questão judaica por muitos anos e escrito muito sobre isso, eu nunca a entendi plenamente até esses últimos meses66 (ênfase minha). Em “seu testemunho de morte” acerca dos judeus, que foi proferido em seu nome aos universitários da Associação Missionária, em 31 de outubro de 1836, Simeon chamou atenção para aqueles textos bíblicos que se relacionam tanto com a restauração espiritual como com a restauração física da nação judaica; ele as descreveu como “ouro, cada uma delas”.67

Seu biógrafo, William Carus, presidente da Associação Missionária dos universitários (Undegraduates’ Missionary Association) e deão sênior do Trinity College, em Cambridge, registra como Simeon “implorou” a ele para:

Observar as fortes expressões que Deus escolheu usar ao descrever sua intensa e inalterada consideração por seu povo antigo. “Veja”, disse ele, “quão maravilhosamente Ele fala; Ele os chama de (1) os amados de minha alma; então Ele diz (2) eu os estabelecerei em sua própria terra seguramente de todo meu coração e com toda minha alma; e novamente diz que (3) Ele se regozijará sobre eles com alegria, derramará seu amor e alegrar-se-á sobre ti com cântico; e ainda mais, (4) eles serão um nome e um louvor dentre todas as nações da Terra”.68

O discurso de Simeon para o Undergraduates’ Missionary Association é importante não apenas por aquilo que expressou, mas também pela forma como expressou. Conforme ele mesmo explica:

Aquilo que eu desejo trazer perante vocês é: Devemos ou não devemos nos assemelhar ao Deus Todo-Poderoso nas coisas mais próximas e queridas do próprio Deus? (...) Não temos nós razão para vergonha, arrependimento e contrição por nos assemelhamos a Ele tão pouco nos últimos tempos? (...) Podemos esperar pela benção de Deus sobre nossas almas quando temos tão pequena consideração pelas almas do seu povo amado, e parecemos tão pouco com Ele com respeito a eles? Eu cesso minha fala. Que Deus fale a todos vocês com trovão e amor. E que minha última hora seja uma fonte de vida para o propósito de Deus em suas vidas, tanto neste lugar como pelo mundo!69

A Pedra Angular da Profecia

Outros restauracionistas assentaram uma considerável tensão sobre a colheita (sukkot ― festa dos tabernáculos ou festa da colheita) dos judeus. De acordo com Charles Jerram (1770-1953), um dos alunos de Simeon em Cambridge, não havia, talvez, “nenhum assunto que seja alvo de tantas profecias como a futura restauração dos judeus”. Ele acreditava que se os anunciados julgamentos de Deus tivessem sido cumpridos integralmente, então também teriam se cumprido as bênçãos prometidas; se não, a Palavra de Deus se tornaria “totalmente ininteligível e inútil”. Jerram recorria à Aliança Abraâmica ao distinguir entre a ocupação de Israel e a posse da terra, alegando que “se o grande e todo poderoso Criador e Governador do universo pode constituir um título legal a uma posse eterna, a reivindicação dos judeus pela terra da Palestina sempre será razoável e justa”.70

John Aquila Brown, um autoconfesso “filojudeu”, insistia que “a menos que os judeus fossem a pedra angular de toda estrutura profética”, então muito da Bíblia se tornava incompreensível. Assim como Darby, ele criticava os comentaristas bíblicos que tinham aplicado à Igreja as bênçãos prometidas a Israel, enquanto deixavam de lado “a herança das maldições (...) para aquele povo afligido”. Em O judeu, a chave-mestra do Apocalipse (1827), Brown registrou:

O brilho infundado de nossas Bíblias em inglês tem (...) impedido os homens de julgarem por si mesmos o texto divino; e o ar de autoridade com que eles estão investidos, como se fossem parte do próprio texto, deixa uma insensível impressão na mente desde a infância até a terceira idade, o que se torna produtivo para o mal e tem provocado dano à causa de Israel (...). Tal é, de fato, o estado extraordinário dos dias atuais, em que uma Bíblia não é adquirida sem estes infundidos comentários e notas (...). As coisas não deveriam ser assim.71

Em 1822, John Fry, reitor da Desford em Leicestershire, publicou seu livro O segundo advento, o qual foi “muito discutido”72 por estudantes de profecia bíblica no início do século 19. Assim como Darby, Fry fez as mesmas conexões nos Salmos entre “os sofrimentos do Salvador rejeitado” e “a desolação de Israel”.73 Ele também destacou como Jesus, em Atos 1.6-8, “admite a legitimidade”74 da expectativa dos seus discípulos acerca da restauração de Israel.

Em 1829, John Hooper, reitor da Albury em Surrey e delegado nas conferências de Albury Park, publicou seu discurso sobre A doutrina do segundo advento, o qual ele deu aos membros da Igreja da Inglaterra na paróquia de Westbury, em Wiltshire. Hooper lamentava a espiritualização da Escritura, que tem arrasado a Igreja durante séculos, e escreve indignado:

É fácil, muito fácil espiritualizar qualquer passagem difícil da Escritura, mas não é tão fácil compensar a perda que sofremos ao fazê-lo. Eu não duvido que o sistema de espiritualização, que agora é comum e universalmente adotado, seja a fortaleza de Satanás nestes últimos e degenerados dias (...). Feliz é o homem que, ao ler a Bíblia, não necessita de outra razão para crer no que lê além daquela que ele encontra no texto. Feliz é o homem que sabe e acredita que nenhum jota ou til da Escritura passará até que ela seja totalmente cumprida!75

Apesar de seu historicismo subjacente, as observações de Hooper sobre o arrebatamento da verdadeira Igreja se assemelha às de J. N. Darby. Em The translation, Hopper fala sobre dispensações terrenas e celestes, sobre a apostasia dentro da Igreja no final dos tempos, sobre a preservação de um remanescente cristão fiel e sobre a “judaicidade” de Mateus 24 e das passagens sobre a Grande Tribulação. Ele também se refere ao tempo subsequente ao arrebatamento, quando Cristo será visto com seus santos por todo o mundo.76 Em um artigo para The Morning Watch, Hopper parece ter situado o arrebatamento antes do começo da septuagésima semana de Daniel, quando fala do “nosso livramento do julgamento iminente”.77

A Seita de Clapham

Entre 1780 e 1850, “o Reino Unido mudou mais do que em centenas de anos”.78 A primeira metade do século 19 foi caracterizada pela agitação social e econômica à medida que a nação se ajustava à transição da agricultura para a indústria. As classes média e alta também reagiram contra os ideais da Revolução Francesa que ameaçaram a estabilidade do povo. Charles Breunig comenta:

O “vírus revolucionário” (...) não poderia se restringir à França indefinidamente. Apesar de todos os esforços dos governantes europeus para colocar essa “doença” em quarentena, muitos indivíduos foram infectados por ela e se tornaram portadores na era da Restauração que seguiu a derrota dos exércitos revolucionários e napoleônicos.79

A transição entre a guerra e o tempo de paz econômica, durante o reinado de George III, foi acompanhada por forte depressão, em grande parte devida à aprovação da Lei dos Cereais, em 1815. A campanha pela emancipação da Igreja Católica, liderada por Daniel O’Connell e pela Associação Católica, aumentou a agitação e levou muitos protestantes “a um estudo detido, porém incomum, sobre os ‘sinais dos tempos’”.80 Dimont definiu, de maneira apropriada, esse período como sendo de “revoluções contagiosas”.81

Apesar de “nunca terem se organizado conjuntamente sob uma única bandeira”,82 os evangélicos exerceram grande influência durante o século 19. Com a morte de muitos pais do Reavivamento Evangélico, o manto foi tomado, em parte, por um grupo de leigos que “causou uma mudança permanente na história não somente da Inglaterra, mas de todo o mundo moderno”.83

Tal grupo incluiu William Wilberforce, Granville Sharp, Lord Teignmouth, Henry Thornton, Charles Grant e Zachary Macaulary, que eram coletivamente conhecidos como a Seita Clapham, uma vez que “muitos regimes de piedade e benevolência, que distinguiam a segunda geração de evangélicos, originaram-se em Clapham ou, ao menos, encontraram seus mais importantes apoiadores ali”. Caracterizados por um estilo de vida “excepcionalmente confortável”84 e uma “distintiva piedade de classe média”,85 os claphamitas fundaram e promoveram sociedades tais como a Religious Tract Society (Sociedade do Trato Religioso) em 1799, a Church Missionary Society (Sociedade da Igreja Missionária), também em 1799, e a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, em 1804. Eles se dedicaram a diversas causas filantrópicas e disseminaram sua visão por meio da revista Christian Observer (Cristão Observador).

No segundo relatório da LSPCJ (27 de dezembro de 1809), William Wilberforce é mencionado como um dos vice-presidentes da sociedade, enquanto relatórios subsequentes indicam que Robert Grant, filho mais novo de Charles Grant, e Zachary Macaulay estavam intensamente associados à Sociedade. O filho de Macaulay, Thomas Babington Macaulay, liderou a campanha pela emancipação judaica na Inglaterra86 e, num discurso dirigido ao comitê da Câmara dos Comuns em 17 de abril de 1833, respondeu àqueles que se opunham à remoção das incapacidades civis judaicas com habilidosa oratória e locução convincente:

Outra objeção que é feita a essa moção é a de que os judeus anseiam pela vinda de um grande libertador que os fará retornar à Palestina, reconstruirá o Templo e restabelecerá a antiga adoração, eu que, portanto, eles sempre considerarão a Inglaterra não como seu país, mas apenas como um lugar de exílio (...). De fato, os cristãos, assim como os judeus, creem que a presente ordem um dia acabará. Muitos cristãos creem que Jesus reinará visivelmente na terra durante mil anos. Expositores da profecia apenas fixaram uma data para o início do Milênio. A opinião prevalecente (...) indica (...) 1866; mas, de acordo com alguns comentaristas, o tempo está próximo. Deveríamos, por acaso, excluir todos os milenaristas do Parlamento e gabinete com o fundamento de que a monarquia miraculosa que eles impacientemente aguardam irá se sobrepor à presente dinastia e à constituição da Inglaterra e que, portanto, não podem ser leais de coração ao Rei William? 87

Apesar dos claphamitas se identificarem com o impulso filantrópico e evangelístico da LSPCJ, a extensão de sua preocupação com a prometida restauração dos judeus é incerta. Fica claro, entretanto, que os historiadores subestimaram ou, ao menos, minimizaram sua preocupação pelo povo judeu, talvez devido às complexidades escatológicas envolvidas. A preocupação claphamita com o avanço da sociedade contrasta fortemente, contudo, com a “outra-mundanidade” (nacionalidade extraterrestre) de Darby, o qual cria que toda esperança devia ser depositada na volta de Cristo. Mesmo assim, os claphamitas representaram uma porção importante da rede dos cristãos restauracionistas que se desenvolvia no século 19 e ambos trouxeram à tona tanto a situação histórica como a prospecção futura do povo judeu.

A Conferência de Albury Park

Em sua Narrativa das circunstâncias que levaram à fundação da Igreja de Cristo em Albury (1833), um rico banqueiro, proprietário de terras e membro do Parlamento, Henry Drummond (1786-1860), recorda como, em 1826:

A maioria do que era chamado de Mundo Religioso não acreditava que os judeus seriam restaurados à sua própria terra e que o Senhor Jesus Cristo retornaria e reinaria pessoalmente na Terra.

Drummond se autodescrevia como “um cristão bíblico” e cria em “cada palavra” da Escritura “em seu sentido natural e literal”,88 e procurou se opor “à massa de infidelidade que se escondia debaixo do véu daquilo que se chamava religião evangélica”.89 Em 1826, ele se juntou a Lewis Way, James Hatley Frere, James Stratton e Thomas White, em Londres, e constituiu a Sociedade de investigação da profecia. Tomou-se a decisão de inaugurar uma conferência em Albury Park Mansion, em Surreu, em novembro daquele ano. Albury Park tinha sido a residência de Drummond desde 1819 e também se tornaria a casa do “pré-milenismo responsável e sensato”90 pelos próximos quatro anos. Com o apoio do reitor paroquial, Hugh McNeile, Drummond convidou trinta dos mais notáveis milenaristas da época, os quais tinham “preservado sua fé” na restauração de Israel e no retorno de Cristo. Sem qualquer distinção de seita ou partido,91 eles incluíram “aquele inigualável missionário pioneiro”92 e homem de “gênio errático”,93 Joseph Wolff, e “o fanático antiliberal William Cuninghame”.94

Historicismo de Albury

A primeira conferência de Albury deliberou acerca “das grandes questões proféticas que (...) imediatamente diziam respeito à cristandade”. Estavam incluídas “os tempos dos gentios”, “a presente e futura condição dos judeus” e “o futuro advento do Senhor”. De acordo com um delegado, Edward Irving, havia “harmonia e coincidência” em todas as principais questões:

Nós, de comum acordo, acreditamos que a presente forma de dispensação do Evangelho foi, por um período, compatível com o tempo dos gentios, que, por sua vez, é compatível com o período da destruição de Jerusalém e com a dispersão dos judeus; cremos que a restauração dos judeus introduzirá uma nova era tanto na Igreja como no mundo, o que poderá ser chamado de a dispensação universal dos benefícios da morte de Cristo, ao passo que esta é a dispensação da Igreja somente (...). A conclusão da dispensação dos benefícios da morte de Cristo se encerra com os grandes julgamentos e o início da dispensação da igreja, com as grandes misericórdias, ambos acreditamos estar às portas. Todos concordamos que tanto os 1260 como os 1290 dias de Daniel foram consumados e que os 45 dias restantes se iniciaram, sendo que a plenitude da bem-aventurança chegará com sua conclusão. E cremos que durante o julgamento, que pode ter início a qualquer dia, devemos aguardar pelo segundo advento de nosso Senhor em pessoa, com o objetivo de ressuscitar os corpos de seus santos e com eles reinar sobre a Terra.95

A Declaração de Irving de que os “dias de Daniel foram cumpridos” revela o historicismo e, portanto, a natureza restauracionista cristã da escatologia formada em Albury Park. A alegação de Patterson de que “Albury teve um viés futurista acerca das profecias” é incorreta, uma vez que os delegados interpretaram os dias proféticos de Daniel e o Apocalipse simbolicamente, não literalmente. Patterson está, portanto, equivocado ao afirmar que “a perspectiva adotada pelo Círculo de Albury é essencialmente idêntica àquela encontrada no dispensacionalismo contemporâneo e conhecida hoje como pré-milenismo pré-tribulacionista”.96

Henry Drummond

De acordo com o livro Tratado sobre os últimos dias, de Drummond, o distanciamento da Igreja do “perfeito modelo” do Novo Testamento era “sem volta”. Toda esperança é depositada no retorno de Cristo e não na “gradual e progressiva expansão da pregação do Evangelho”. No tratado XXII, intitulado, A restauração dos judeus, Drummond lamentou a negligência da profecia que era “geralmente e maliciosamente predominante”97 na Igreja. Ele cria que a “presente dispensação cristã” não passaria “despercebida” no estado milenar por meio da pregação do Evangelho, mas seria “encerrada pelos julgamentos” incidentes “principalmente, se não exclusivamente, sobre a cristandade”. Os judeus seriam restaurados, mas em “um tempo de grande tribulação”.98

Drummond sustentava que a doutrina da restauração de Israel “deveria ter sido uma das tradições permanentes e um dos pontos de fé constantes da Igreja”,99 e temia por aqueles que negavam “tão simples testemunho”. Em seu livro, Defesa dos estudantes de profecia (1828), ele sintetizou sua posição:

1. Que os judeus devem ser restaurados como nação a sua própria terra; 2. Que ao mesmo tempo, os gentios serão visitados por julgamentos; 3. Que o tempo da restauração dos judeus será uma temporada de crescente alegria (...); 4. Que é necessário um longo período durante o qual essa temporada de alegria seja desfrutada; 5. Que Cristo será regente da nação judaica restaurada.100

Em seu livro Diálogos sobre profecia (1827),101 Drummond descreve o arrebatamento, ou “ascensão dos santos”, como a primeira fase da segunda vinda, o que envolverá “a aparição do Senhor para ressuscitar seus santos e novamente salvar seu Israel nacional”.102 Ele argumentou que havia muita “benevolência sem santidade” na Igreja, e que muitos perderam de vista essa “grande verdade” ao empregar suas energias “nesse contínuo alvoroço de circulação de Bíblias e folhetos, envio de missionários e emancipação dos oprimidos da humanidade”. Essa era, em sua estimativa, “uma tremenda desilusão: o último e, portanto, maior e completo instrumento de Satanás”.103 Crendo que o pós-milenismo tenha entorpecido a Igreja em uma “segurança fatal”, Drummond denunciou como “completo absurdo”104 o ensino de que a prometida restauração de Israel se cumpriu plenamente no primeiro advento de Cristo.

A Igreja Católica Apostólica

Antes de deixarmos Drummond, é importante notar que ele foi um dos membros fundadores da Igreja Católica Apostólica,105 sendo apontado como um de seus “apóstolos” em 25 de setembro de 1833. A oração pela restauração dos judeus foi incorporada na liturgia dessa igreja, apesar do foco dominante ser “a célere volta do nosso Senhor e seu Reino”.106 A teologia Católica Apostólica deve muito a Diálogos, de Drummond, e ao livro O propósito de Deus na criação e redenção, de Francis Sitwell.

Francis Sitwell (1787-1864) cria que “não havia maior fonte de erro” que “a eliminação” das profecias relacionadas à restauração de Israel. Ele notou o quanto a Igreja primitiva havia se distanciado do ensino de Cristo e de seus apóstolos ao “fechar os olhos (...) para o que Deus disse que faria contra todos que os perseguissem (os judeus) na hora de sua adversidade”. Contudo, havia aqueles de sua própria geração que foram “capazes de orar a Deus de maneira correta” pelo povo judeu.

Sitwell acreditava que a restauração de Israel ocorreria em dois estágios: “por meios naturais e por instrumentos humanos” antes do retorno de Cristo e “pela poderosa mão de Deus” quando Cristo retornasse. Com uma interpretação literal da Bíblia, ele afirmava que os judeus retornariam à sua terra descrentes e que muitos cairiam “nas mãos do anticristo” e “no fogo da tribulação que vem sobre a maioria deles como punição por seus pecados (...) e para a purificação do remanescente que será poupado” (Zc 13.8-9), mas que depois Cristo retornará, destruirá o anticristo e estabelecerá seu reino milenar em Jerusalém.107

A Igreja Católica Apostólica jaz num enigma. Não houve providência para a substituição de seus doze “apóstolos”, uma vez que seus membros viveram em constante expectativa da volta de Cristo. Apesar de a igreja ter iniciado sua dissolução quando morreu seu último “apóstolo”, Francis Valentine Woodhouse, em 1901, alguns dos descendentes dos Católicos Apostólicos primitivos continuaram a se encontrar para orar pelo retorno do Senhor e pela restauração e salvação dos judeus.108

Hugh McNeile

Hugh McNeile (1795-1879), presidente das conferências de Albury Park, formado pelo Trinity College, em Dublin, foi apontado por Henry Drummond como reitor da paróquia de Albury, em 1822. Em uma série de palestras realizadas por ele em Londres, em 1827, McNeile expôs a doutrina da restauração de Israel, a qual, segundo afirmava, tinha “caído em relativa negligência”.109 Mais tarde, ele recordou como essa verdade era “apenas o começo a ser disseminado como consequência dos trabalhos de Sr. Louis Way e Sr. Hawtrey; e mais especialmente como consequência dos escritos do Sr. Faber e de zelosa apologia do Sr. Simeon”.110 McNeile introduzia suas palestras descrevendo a história como “a providência de Deus” e a Bíblia como “a Palavra de Deus”, o que “mutuamente atestava uma à outra no que diz respeito ao povo judeu, até este dia”. Ele não teve dúvidas de que Deus preservou os judeus e os manteve distintos, e que assim continuaria fazendo até o encerramento da presente “dispensação”. Ele também cria que “o tom prevalecente do Cristianismo”, que era caracterizado por “uma mistura espúria”, era indicativo da apostasia da Igreja no final dos tempos. Assim como Darby, McNeile também efetuou uma clara distinção entre o reino celeste da Igreja e o reino terreno de Israel.111

William Cuninghame

Outro participante regular em Albury foi William Cuninghame (1775-1849), de Lainshaw, que tem sido descrito como “o mais prolífico intérprete de profecias de todos os tempos”112 e um dos principais historicistas de sua geração.113 Cuninghame foi associado à LSPCJ por muitos anos, servindo como presidente no comitê auxiliar de Glasgow. Em seu Cartas e ensaios, originalmente publicado em 1822 na revista da LSPCJ, o Expositor Judaico, ele asseverou que os cristãos que haviam renunciado à sua obrigação com relação ao povo judeu possuíam “um conhecimento superficial das Escrituras”, tendo “recebido suas visões de religião de credos e confissões compostas por homens falíveis”.114

Ao denunciar a teologia da substituição, ele arguiu que se não houvesse uma “futura redenção para esse povo maravilhoso”,115 então “não haveria qualquer sentido objetivo na linguagem”.116 Em carta dirigida ao lorde Shaftesbury, Cuninghame expressou sua consternação a respeito da falta de atenção pela restauração de Israel na Igreja da Inglaterra e apelou a Shaftesbury para que exercesse sua influência com o fim de “auxiliar e promover o assentamento agrícola dos crentes israelitas na Palestina”.117

Lewis Way

Lewis Way (1772-1840), filho do “bom e velho dissidente Benjamin Way”,118 é descrito como um homem de “excentricidades intrigantes”119 e o primeiro nos tempos modernos a convencer os judeus de que um cristão pode amá-los”.120 No livro Crônicas da família Way, Anna Stirling registra como, durante visita a Exmouth, em 1811, Way estava cavalgando com um amigo ao longo da estrada Exmouth―Exeter quando sua atenção foi tomada por uma residência estranha e circular pertencente a Miss Jane Parminter e seu primo. Ele descobriu que, ao demonstrar interesse pela propriedade, os Parminters expressaram “uma preferência por candidatos de raça judia, uma predileção devida não a questões raciais, mas somente por origens religiosas”. Os Parmintes criam que os judeus eram “o povo escolhido de Deus” e que “sua eventual reintegração na Palestina” dependia somente de sua conversão a Cristo. Um amigo de Way o informou que Jane Parminter havia morrido, mas estipulou em seu testamento que um grupo de árvores de carvalhos plantado no terreno deveriam “permanecer de pé” e que “a mão do homem não se levantaria contra eles até o retorno de Israel e sua restauração à terra prometida”. Este relato deixou a mente de Way “ao mesmo tempo agitada e descansada” e o inspirou a devotar o restante da sua vida à “conversão dos judeus e ― o que ele cria ser consequência ― sua restauração à Palestina”.

Após cobrir as dívidas da LSPCJ, que em 1815 se tornara uma missão anglicana, Way transformou o Stansted Park de Sussex em um centro de treinamento para missionários, o qual havia comprado com uma herança recebida de John Way (sem parentesco).121 Nesse empreendimento, ele teve o auxílio de seus amigos mais próximos, William Wilberforce e Charles Simeon.

Way escreveu diversos artigos para o Jewish Expositor sob o pseudônimo “Basílico”. Em um de seus artigos ele enfatizou a importância da palavra grega apokatastasis, em Atos 3.19-21, e insistiu que a “restituição” (apokatastasis) de todas as coisas está integrada ao segundo advento, ou melhor, à missão de Cristo aos judeus. De acordo com Way, a Igreja falhou em compreender o sentido evidente dessa passagem. Com sua costumeira eloquência, ele retratou o cristão que cria que a Igreja havia substituído Israel como alguém que “toma lugar em Gerizim e, ao absorver todas as suas bênçãos, entrega a seus ocupantes originais a posse e maldição de Ebal”.122

Um panfleto de grande circulação, de autoria de James Haldane Stewart, Pensamentos sobre a importância da oração especial pelo derramamento geral do Espírito Santo (1821), deu a Lewis Way a oportunidade de corrigir uma corriqueira má-interpretação das “chuvas de outono”, em Joel 2.21-32. Tal como Darby,123 Way cria que aquela profecia não se aplicava à Igreja, mas previa a restauração de Israel no fim dos tempos. Stewart, por outro lado, usou seu panfleto durante suas viagens pela Inglaterra e Escócia para chamar cristãos a orar pela “última chuva” do Espírito Santo a fim de reverter o declínio moral do Reino Unido.124 Way criticava Stewart por aplicar erroneamente as Escrituras ao insistir que:

Uma oração especial para obter a bênção, sem, contudo, considerar o significado específico que deve produzir, seria como “pedir mal” e “esmurrar o ar” de modo instável; seria perturbar a máquina divina de promessas e inverter a ordem exata do tempo, o que é averiguado em estações determinadas por Deus para cada obra debaixo do Sol.125

Lewis Way, tal como outros restauracionistas, expressou suas crenças por meio de poesia.126 Em A eficácia da oração nas questões da Igreja, escrita no caminho de Hanover, em 1817, ele apelou aos cristãos para que “se empenhassem na oração a Deus pela raça espalhada de Jacó, até que Ele retenha a vara da correção e conceda sua graça prometida.127 Contudo, Way fez sua maior contribuição pouco antes do congresso de Aix-la-Chapelle, em 1818, quando viajou a Moscou para apresentar ao czar Alexandre I seu Memorial às nações soberanas128 pela emancipação dos judeus. O czar achou a proposta de Way “muito interessante” e o encontrou em diversas ocasiões para discutir a profecia bíblica. O Memorial foi apresentado ao congresso e endossado pelos imperadores da Prússia, Áustria e Rússia, e por notáveis plenipotenciários como Metternich, Richelieu e Wellington.129 Kobler escreveu: “A presença de Way em Aix-la-Chapelle representou um marco na história do movimento restauracionista. Ele foi o primeiro porta-voz do movimento na Inglaterra a defender pessoalmente a causa dos judeus como uma nação em uma assembleia intergovernamental”.130

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