Domingo, 22 de Outubro de 2017
   
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O Machado e o Lenhador

Pastoral

“Então, falou Ilúvatar e disse: ― Poderosos são os Ainur, e o mais poderoso dentre eles é Melkor; mas, para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram. E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou” (TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion).

Todas as pessoas investidas numa função que implique o exercício de autoridade precisam obter conhecimento. Desde o simples lavrador que dirige os rumos da sua pequena casa até o presidente que governa uma grande nação devem ser dotados de algo mais do que meras noções básicas da verdade para atuarem de forma eficaz e proveitosa no comando das pessoas que lhes estão sujeitas.

O pobre lavrador, para maior segurança e felicidade dos que estão sob sua tutela, deveria ter acesso a informações no campo do direito, da saúde (higiene, vacinas, prevenção de doenças, etc.), da filosofia (especialmente a ética) e da teologia, para que, mais bem preparado, cumprisse seu papel com justiça, sabedoria e equilíbrio, conduzindo sua esposa e filhos por caminhos melhores, por meio dos quais pudessem alcançar um caráter bem moldado, um bem-estar mais amplo e oportunidades maiores de desenvolver ao máximo seu potencial humano e seus talentos individuais.

O chefe supremo de uma nação, por sua vez, também precisa de ampla instrução, pois, caso isso lhe falte, terá dificuldades para compreender valores abstratos. Seu universo será percebido apenas pela via dos cinco sentidos corporais, de forma que ele reduzirá a realidade apenas àquilo que é capaz de tocar e, valorizando somente o que é palpável, não dará ênfase em seu governo à pesquisa, à formação intelectual da juventude ou à erradicação de vícios culturais. Sua preocupação será, predominantemente, econômica e estrutural e suas medidas emergenciais serão focalizadas em um assistencialismo estagnador que transformará o povo numa massa fútil e inútil, sem alvos elevados que a estimulem e a façam se mover para a frente. No fim das contas, mesmo as providências econômicas e as provisões estruturais, tão valorizadas por um governante assim, darão em nada, pois o povo ignorante que seu governo vai gerar custará caro ao Estado, não produzirá coisa alguma em prol da nação e ainda depredará as estruturas já levantadas.

Essas considerações elementares mostram apenas num breve relance e de forma bastante superficial a importância da educação para o bom exercício do poder, seja em que esfera for, sendo frequentemente aludidas, de uma forma ou de outra, pelos analistas de hoje. Existe, porém, um lado do conhecimento que nunca (nem breve, nem extensamente) é considerado pelos experts modernos quando falam sobre a educação e seu lugar na construção de uma filosofia do poder. Trata-se da educação teológica.

Com efeito, homens como Marsílio de Pádua (c.1275–c.1342) que, em seu Defensor Pacis, expôs uma teoria de poder edificada sobre as Sagradas Escrituras, a qual não existe mais. Isso, entre outras coisas, priva a sociedade moderna de líderes dotados de uma mente teológica, mente esta que seria capaz de protegê-los da corrupção, da tomada de medidas prejudiciais ao indivíduo e à família, da prática de insanidades incríveis e da consequente ruína completa de suas “carreiras” como pais de família, como chefes de trabalho ou como políticos.

Ora, uma das verdades relativas ao exercício do poder que a educação teológica supriria e que seria bastante salutar, caso fosse acolhida por líderes em geral, é a tese de que o governo humano é um instrumento de Deus para a execução dos seus planos na história, em especial seus planos de julgar e punir o mal. Isso se vê tanto no Novo Testamento, mais especificamente em Romanos 13.1-7, como no Antigo Testamento, em que o poderio assírio, por exemplo, é retratado como uma vara na mão de Deus, usada para castigar os povos perversos (Is 10.5).

Quando alguém exerce poder sobre outras pessoas e não tem conhecimento dessa realidade teológica, sua tendência é acreditar que é mais do que uma simples vara. Na verdade, passa a pensar que é a própria mão que brande a vara! Sendo mero machado, começa a se considerar o próprio lenhador. A partir daí, então, se autodeifica. Como os grandes ditadores sobre os quais lemos na história, começa a se enxergar como o detentor único de sabedoria e habilidades supremas. Então, fecha-se para o conselho (seja da esposa, do pastor, dos amigos ou dos seus ministros), passando a realizar atos de tamanha ousadia e insensatez que sua queda se torna uma tragédia facilmente prevista.

Mas por que esse declínio acontece? Porque a fonte de todo poder e de toda sabedoria relativa ao poder é Deus. Quando, pois, um líder desconhece ser um instrumento dele e passa a agir de modo independente, seguindo meras intuições pessoais, fatalmente ficará longe dos princípios perfeitos que o Senhor estabeleceu acerca da autoridade. Tal líder passará, enfim, a se assemelhar ao maestro que pretende executar bem uma sinfonia, mas despreza a partitura escrita pelo grande compositor. Ninguém pode duvidar que a apresentação musical desse maestro será um desastre, um vexame total!

É assim que, para o bom exercício do poder, a educação é fundamental em todos os aspectos. Contudo, acima de qualquer coisa, aquele que exerce o poder deve conhecer a sã teologia e entender, por essa via, que seu papel é instrumental; que seu propósito deve ser, acima de tudo, servir aquele que o colocou na posição que agora ocupa e, enfim, agir como seu servo, como porta-voz e não como a própria Voz, como ministro humilde de um império e não como o próprio Imperador.

Pr. Marcos Granconato

Soli Deo gloria

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