Sexta, 21 de Julho de 2017
   
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O Papel da Amizade

Pastoral

Quando jovem, no início da década de 1990, minha mãe se tornou presidente do fã-clube brasileiro da banda de rock Bon Jovi. Nessa função, ela interagia com muitas pessoas por meio de cartas e, assim, acabava por cultivar algumas amizades que ultrapassavam os interesses do fã-clube. Uma das “amigas de correspondência” de minha mãe morava em São José dos Campos, interior de São Paulo, e, mesmo sem nunca se conhecerem pessoalmente, estreitaram muito os laços de amizade pelas cartas que escreviam, compartilhando assuntos da vida cotidiana e as dificuldades que enfrentavam em suas realidades.

Para que fossem confeccionadas as carteirinhas do fã-clube, o associado deveria enviar uma foto 3x4 para cadastro. Em uma dessas ocasiões, a amiga distante enviou, além da foto solicitada, outra em que posavam ela e o filho de quatro anos. O nome desse menino era Nicholas. E, por incrível que pareça, essa foi a inspiração para o meu nome (no final, meus pais resolveram apenas trocar o H pelo K, em homenagem à minha mãe Kátia).

Apesar de não ter recebido meu nome por conta de algum astro do rock afinal, se fosse por isso, poderia até me chamar John! essa história me lembra o papel que uma amizade por correspondência desempenhou na vida de minha mãe. Atualmente, porém, com a comunicação instantânea ao alcance de um dedo, os relacionamentos virtuais têm sido construídos de maneira    superficial, valorizando mais a quantidade que a qualidade, algo muito diferente dos laços daqueles dias.

A Bíblia não fala sobre WhatsApp, Facebook ou Snapchat. O mais próximo que podemos chegar de um “zap-zap” no século 1 seriam, talvez, as cartas que circulavam pelas igrejas. E, curiosamente, metade do Novo Testamento é constituída por esse tipo de comunicação. Por isso, olhando para a Terceira Carta de João, podemos perceber quatro diretrizes que devem nortear nossos relacionamentos, mesmo que virtuais.

A primeira diretriz diz respeito ao cuidado que devemos nutrir por nossos amigos (3Jo 1,2). O apóstolo João destina sua carta a Gaio, alguém que não era apenas um destinatário impessoal, mas um amigo “amado” a quem o apóstolo desejava boa saúde e reconhecia seu vigor espiritual. O versículo 15 também deixa clara a preocupação de João em ser o mais pessoal possível em sua carta, pedindo que todos fossem cumprimentados “um por um”. Tão diferente das amizades superficiais que nutrimos pelas redes sociais, não é mesmo? Nem me recordo quando foi a última vez em que realmente demonstrei zelo e cuidado por algum amigo do meu Facebook, especialmente aqueles distantes. João nos mostra que, não importa a distância e o meio, pessoalidade sempre faz a diferença em nossos relacionamentos.

Em segundo lugar, percebemos que alguns assuntos só se resolvem pessoalmente (3Jo 8,10). Seja para cumprir o amor cristão em um ato de hospitalidade ou “puxar a orelha” de Diótrefes ainda bem que o nome daquele menino de quatro anos não era esse! , João deixa evidente a importância de algumas questões serem tratadas pessoalmente. É triste saber de relacionamentos de namoro que foram terminados por meio de um chat ou videochamada. Mais do que educação ou polidez, é fato que alguns assuntos são tão importantes que devem, sempre, ser tratados face a face, ainda que isso seja difícil e, muitas vezes, custoso.

Outra diretriz de grande valor para nossas amizades virtuais é a necessidade de espírito crítico (3Jo 11). Muitos jovens veem o Facebook não apenas como fonte de entretenimento, mas como estante de seus exemplos de conduta. Diante disso, assim como Gaio deveria repudiar a postura de Diótrefes e atentar para as ações de Demétrio, nós, os crentes, devemos nos afastar de amizades virtuais que compartilham lixo para nossa vida espiritual. Assim como Timóteo, devemos “seguir” com aqueles que, de coração puro, invocam o Senhor (2Tm 2.22).

Por fim, a última diretriz que podemos extrair dessa pequena carta é que devemos valorizar encontros pessoais (3Jo 13,14). João admite que as pautas em sua mente eram muitas, mas que nada seria melhor do que um encontro pessoal com Gaio para tratar disso tudo. É possível até sentir o forte vínculo dessa amizade pelas últimas palavras do apóstolo. Pois bem, sabe o cafezinho após o culto? Aquela reunião com pizza que os jovens programaram? Ou aquela tarde com as senhoras? Então, valorize esses momentos mais do que as teclas frias do smartphone. Pense mais como João e menos como Mark Zuckerberg!

É bom lembrar que, em uma época tão digital como a nossa, o verdadeiro papel da amizade não terminou com o advento das redes sociais. Ao contrário, ampliou ainda mais seu alcance. Ah! Não me refiro ao papel branquinho em que escrevíamos nossas cartas! Antes, refiro-me ao papel que minha mãe e aquela moça desempenhavam: um papel de companheirismo, zelo e interesse mútuo. Esse, sim, independentemente do quão digital nos tornemos, sempre estará presente numa verdadeira amizade.

Níckolas Ramos

 

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