Sexta, 24 de Novembro de 2017
   
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Privação, mas só para Oração

Pastoral

“Não privem um ao outro de terem relações, a menos que ambos concordem em abster-se da intimidade sexual por certo tempo, a fim de se dedicarem de modo mais pleno à oração. Depois disso, unam-se novamente, para que Satanás não os tente por causa de sua falta de domínio próprio. Digo isso como concessão, e não como mandamento” (1Co 7.5-6).

Muitos incrédulos acreditam que os cristãos odeiam o sexo, vendo-o como algo ruim, pecaminoso e sujo, uma prática vergonhosa cujo propósito exclusivo é a reprodução da raça. Não podemos culpar exclusivamente os descrentes por terem essa visão do cristianismo. Na verdade, os cristãos contribuíram muito para que eles pensassem essas coisas a seu respeito.

De fato, em séculos passados, os mestres cristãos, com sua quase divinização de Maria, colocaram a virgindade num pedestal muito mais alto do que a Bíblia permite, exaltando as virgens acima das mulheres casadas. Também interpretaram de forma equívoca a história da queda dizendo que o fruto proibido de que o primeiro casal se serviu no Paraíso foi o sexo. Isso sem falar na leitura absurda que fizeram do Livro de Cantares, alegorizando todas as passagens que falam do amor conjugal e dizendo que se referem ao relacionamento espiritual vivido entre Cristo e a igreja.

Toda essa repugnância demonstrada pelos cristãos antigos no tocante ao sexo criou uma imagem errada acerca do que o verdadeiro cristianismo ensina sobre o assunto. Essa imagem errada foi ainda mais acentuada quando surgiu o termo “puritanismo”, no século 17. A rigor, esse termo designa um movimento surgido dentro da igreja anglicana que anelava um retorno às doutrinas do NT em toda a sua pureza. Contudo, ainda hoje muita gente acha que a palavra “puritano” serve apenas para definir crentes que nutrem escrúpulos severos no campo da moral sexual.

Em que pesem os conceitos errados sobre sexo que tanto cristãos como não crentes atribuem à nossa fé, a verdade é que o cristianismo tem uma visão bastante saudável e até aberta sobre esse assunto. Não há dúvida alguma de que, na Bíblia, a prática do ato sexual só é correta quando realizada entre pessoas casadas. De acordo com as Escrituras, a união de corpos fora do matrimônio implica imoralidade ― um pecado que Deus julgará com extremo rigor naquele Dia (Hb 13.4). No entanto, de forma surpreendente, a Bíblia ensina que, dentro do casamento, a vida sexual do casal deve ser extremamente dinâmica, constante e ativa. Basta observar o texto transcrito acima para se deparar com uma das provas mais claras disso.

De fato, os versículos em destaque mostram que Paulo encorajava os casais da igreja de Corinto a não se negarem um ao outro. Certamente, doutrinas protognósticas haviam se infiltrado naquela comunidade. Essas doutrinas, considerando a matéria intrinsecamente má, incentivavam a rejeição de prazeres físicos, deixando os casais confusos, sem saber como viver a vida conjugal em sua dimensão mais íntima. Por causa disso, alguns membros da igreja talvez estivessem evitando seu cônjuge, o que era perigoso, pois, segundo ensina Paulo, a abstinência pode deixar os casais cristãos vulneráveis aos ataques do diabo.

Foi assim que Paulo se viu no dever de estimular os casais de Corinto a desfrutar dos prazeres do casamento com vivacidade e constância. E ele disse que essa dinâmica só poderia ser interrompida numa única hipótese: a prática da oração. Ainda assim, o apóstolo estabeleceu duas condições fundamentais: a abstinência deveria ser de comum acordo e não poderia ser demorada.

Essas lições são importantes para os casais crentes de todas as épocas. Assimilando-as, os cônjuges cristãos vão evitar, por exemplo, brigas prolongadas em que se negam um ao outro por vingança ― um expediente tão comum entre maridos e esposas mal-ajustados.

Há, no entanto, uma lição menos explícita no texto. Essa lição se refere à importância singular da oração. Para Paulo, a oração é tão importante que somente a dedicação a essa prática (e nada mais!) pode justificar um eventual e breve “jejum sexual” dos cônjuges. Ao expor essa visão, porém, o apóstolo deixa transparecer que a oração não é somente um aspecto muito importante da vida cristã, mas também que, às vezes, em certos momentos da vida, ela pode ser praticada de forma tão intensa, numa dedicação tão contínua, que até os atos mais comuns do dia a dia podem ser postos de lado, dando lugar exclusivo a ela.

Com efeito, há momentos na vida a dois em que os cônjuges crentes passam por desafios, dores e incertezas tão grandes que “não têm cabeça para mais nada”. Não conseguem pensar direito, não conseguem trabalhar direito, não conseguem dormir direito... Sentem-se dentro de uma atmosfera meio paralisante, com a mente obscurecida e anestesiada ― os pensamentos flutuando lenta e desordenadamente dentro da cabeça.

Nessas horas, a concessão de Paulo pode servir como bom auxílio. Então o casal cristão, de comum acordo e por um breve período, poderá descobrir o efeito restaurador da oração contínua, constante, derramada e transbordante, o santo remédio que pacifica a mente e o coração dos aflitos muito mais do que qualquer deleite corporal.

Pr. Marcos Granconato

Non nobis, Domine

 

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