Quarta, 20 de Setembro de 2017
   
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Amigos de Deus

Pastoral

Todos os crentes de verdade se sentem um pouco insatisfeitos com sua vida devocional. Mesmo os mais zelosos nesse campo, se questionados, diriam que gostariam de andar mais perto do Senhor, provando sua presença, paz, direção e cuidado de forma mais intensa.

Isso é bom, pois esse tipo de insatisfação,quase sempre, conduz o crente a tomar certas medidas que melhorem a qualidade de sua caminhada com Jesus. O problema, porém, se agrava quando o cristão se vê insatisfeito e não sabe o que fazer. Quando isso acontece, surge o perigo de seguir direções erradas.

Um exemplo disso é o homem que sai por aí à cata de experiências que ele considera de grande enlevo espiritual. Esse indivíduo procura participar de reuniões de alto apelo emocional, com choro, clamores e gemidos, tudo ao som de uma música envolvente e em meio às frases comovidas do pastor ou do dirigente do louvor. Esse tipo de “devoção”, porém, se tiver algum valor, é muito pequeno, pois decorre da construção e manipulação de um ambiente artificial, desaparecendo em poucas horas.

A vida devocional que, como crentes, buscamos, é bem diferente disso. Queremos um estilo novo de caminhada. Queremos andar com Deus assim como Enoque e Noé, sendo isso uma experiência diária que enche a alma de satisfação, segurança e alegria desde o café da manhã até a hora de dormir. Queremos a santa rotina, comum, constante, permanente, silenciosa e satisfatória de uma comunhão viva e real com Deus ― uma comunhão em que provemos de forma mais nítida aqueles “rios de água viva” de que Jesus falou correndo aos borbotões de nosso interior (Jo 7.38).

Como podemos experimentar essas coisas? Bem, creio que, antes de tudo, é preciso reconhecer que “a intimidade [ou o conselho secreto] do Senhor é para os que o temem” (Sl 25.14). Sem o temor do Senhor, qualquer aparente hábito de devoção será mero costume religioso vazio. De fato, o homem que não teme ao Senhor deve cuidar primeiro dessa falha, antes de continuar lendo este artigo.

Falando, porém, aos que temem a Deus, quero destacar que precisamos, primeiro, nos disciplinar e, eventualmente, sair um pouco do corre-corre da vida, buscando a solidão, como Jesus costumava fazer (Mt 14.23). Mas notem bem: não estou falando aqui de ir a montanhas, bosques ou desertos e passar horas e horas nesses lugares. A solidão de que falo pode ser obtida até mesmo em nosso quarto (Mt 6.6). Então, nesse isolamento, podemos derramar nosso coração diante de Deus, falando-lhe de nossas alegrias, expectativas, ansiedades e temores. Nesses instantes, também confessaremos nossos pecados, pediremos o perdão de Deus e, arrependidos, buscaremos sua restauração. De acordo com Paulo, um dos efeitos de lançar sobre o Senhor os nossos pesos será que “a paz de Deus que excede todo entendimento guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus” (Fp 4.6-7). Qual cristão duvida de que precisamos disso mais que tudo? Essa é a receita que livra o crente do pânico, da angústia, do medo, da ansiedade e da culpa. Não podemos desprezar um tesouro como esse.

Outro hábito que deve ajudar muito o crente numa caminhada mais íntima com Deus é a leitura regular da Bíblia. Por meio dela, a mente do cristão fica embebida na Palavra de Deus e, então, tudo que faz, mesmo as coisas mais corriqueiras, sofre influência desse seu estado. A Palavra de Deus guia, protege, consola, alegra, revigora e cura (Sl 19.7-11). Temos de lembrar que “nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). Não é, pois, de se estranhar que muitos crentes tenham vidas espirituais secas e improdutivas. Eles buscam o pão material várias vezes por dia, mas jamais se alimentam da Palavra santa. Como poderão ter vida em abundância? Como se sentirão satisfeitos na alma? Como crescerão no conhecimento do Senhor e na intimidade com ele? Simplesmente impossível!

Ao tentar incrementar sua comunhão com Deus, o crente também pode seguir a sugestão de ler livros exegéticos/devocionais. É importante notar a palavra “exegético” na expressão que construí aqui. O que quero dizer com ela é que a literatura devocional que devemos buscar precisa ser construída sobre dados hermenêuticos sólidos, ou seja, sobre um trabalho de interpretação bíblica muito benfeito. Digo isso porque existem muitos livros devocionais por aí que foram escritos por pessoas sem nenhum conhecimento técnico na área da interpretação. Nesses livros, os autores apenas compartilham seus insights usando palavras bonitas e apontando conclusões que talvez jamais possamos encontrar nas Escrituras. Muita gente se envolve com esse tipo de trabalho porque representa uma leitura leve. Porém, para ter uma mente mais bem-estruturada na Palavra, o ideal é que o crente leia livros de solidez teológica maior. Comentários bíblicos ajudam muito (desde que escritos por pessoas realmente preparadas). No Brasil, os livros de Russell Shedd, por exemplo, se encaixam bem nesse perfil. As devocionais publicadas em nosso site (www.igrejaredencao.org.br) pelo Pr. Thomas Tronco, também. Cuidado, porém, com as coleções de comentários de autores brasileiros. A maioria desses livros tem apenas ideias pessoais do autor, sem nenhum fundamento no trabalho exegético benfeito. Não percam tempo com literatura desse tipo.

Finalmente, na busca da vida íntima com Deus, é preciso servi-lo em comunhão com o povo santo. O culto cristão deve proporcionar essa oportunidade. Não deve ser uma reunião cheia de atrações, espetáculos e, muitos menos, desequilíbrio emocional. Antes, deve ser um tempo de oração, louvor, amizade e exortação. A piedade cristã, ainda que necessite de momentos de solidão, não é, de forma alguma, exclusivamente monástica. Na Bíblia, o povo santo vive junto, cada um trabalhando para a edificação, correção, encorajamento e alívio do outro (Ef 4.15-16), todos envolvidos numa adoração conjunta, para a promoção da glória de Deus (Cl 3.16).

Todos os crentes com alguns quilômetros rodados na estrada da vida cristã sabem que não apresentei nenhuma novidade aqui. Para esses fica o presente texto apenas como um lembrete. Para os que não sabiam dessas coisas, deixo o texto como um apanhado de lições importantes. Para ambos, fica o desafio de trabalhar na construção de uma devoção mais viva, real e edificante própria dos homens que são amigos de Deus.

Pr. Marcos Granconato

Non nobis, Domine


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