Quinta, 06 de Agosto de 2020
   
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A Caverna da Autoindulgência

Pastoral

Muito recentemente, um famoso líder religioso disse que manteria certo tipo de afastamento devido a problemas, inclusive médicos, decorrentes da reprovação de suas posições por parte da igreja evangélica. Ele confessou estar muito triste e ferido, necessitando de um tempo, como uma reclusão em uma “caverna”, a fim de “trocar de pele”. Não enfocando as questões teológicas e doutrinárias que envolvem essa “quebra de namoro” da igreja brasileira pelo antigo líder – já tratei delas em outras ocasiões –, o que me chamou a atenção foram as explicações para o rompimento. Segundo o líder, isso tudo se deveu à atitude agressiva da igreja, à manutenção de posições conservadoras, à traição dos amigos e interesses escusos de antigos parceiros. O que não se viu em lugar algum foi este questionamento: “Será que isso não é resultado das posições heterodoxas que eu assumi?”; “acaso eu não terei perdido o rumo em algum lugar de modo a provocar tal resistência?”; ou “será, mesmo, que todo mundo está errado e só eu estou certo?”.

Essa situação está longe de ser um caso isolado. Ela é, na verdade, algo muito fácil de ser percebido dentro da igreja de Cristo. É comum cometermos erros, pois ainda travamos uma guerra contra o velho homem que quer que voltemos a andar nos passos dos quais fomos libertos (Rm 7.14-25). Por isso, uma das nobres tarefas dentro da fraternidade cristã é aplicarmos a disciplina bíblica uns aos outros. Esse processo começa com abordagens amorosas no sentido de convencer o irmão do seu mal (Mt 18.15; Lc 17.3; Gl 6.1; 2Tm 2.25; Tg 5.19,20) e que, em certos casos – graça ao bom Deus, muito poucos –, pode chegar à excomunhão. Esta, por sua vez, deve ocorrer depois de outros passos (Mt 18.16,17a) e diante de um estado de obstinação que somente a excisão da convivência possa proteger a igreja da contaminação, marcando o impenitente de um modo tal que o ajude entender seu pecado e se arrepender (Mt 18.17b; 1Co 5.5; 1Tm 1.20). Apesar da santidade e da sabedoria de Deus expressas nessa orientação, pelo menos dois problemas são ocasionalmente testemunhados ao se exortar ou admoestar um irmão.

O primeiro problema é a recusa autoindulgente em dar ouvidos à correção. Apesar de o arrependimento e a restauração serem uma das glórias do cristão – já que, diferente do mundo, nosso objetivo é o crescimento rumo ao caráter de Cristo –, certas pessoas consideram uma desonra serem aconselhadas, censuradas ou corrigidas. Isso é tão forte nelas que inventam uma série de desculpas e explicações para seus erros. Podem ser muito severas com os outros, mas são extremamente indulgentes consigo mesmas e hábeis em se apresentar como vítimas de irmãos e líderes maldosos. Nesse sentido, conheci um homem que se importava com a suposta contaminação contida em uma árvore de Natal, mas ignorava o veneno contido em seus comentários maldosos sobre os outros. Certa irmã se submetia a regras contra o consumo de ovos de Páscoa, mas não se submetia a quem devia conforme o ensino bíblico. Lembro-me ainda de um líder sempre pronto a apontar o erro de outros, mas plenamente incapaz de dizer “eu errei”; e de uma jovem que recitava uma lista de razões causadas por terceiros que a faziam não se envolver na igreja, mas que mantinha uma lista de objetivos sem qualquer lugar para Deus, para seu povo ou para sua palavra. Em lugar disso, as Escrituras nos ensinam humildade (Rm 12.3; 1Co 15.9), sujeição aos irmãos (Ef 5.21; Fp 2.3), caráter tratável (Tg 3.17), prontidão para o arrependimento (Lm 3.40; Tg 4.7-10) e sujeição a Deus (Tg 4.10; 1Pe 5.6).

O segundo problema é a fidelidade fraternal à custa da fidelidade a Deus. A amizade – às vezes impetrada pelo parentesco sanguíneo – pode ser um empecilho à restauração de um crente em pecado. Apesar da união que os irmãos devem manter entre si e da confiabilidade com que devem se portar, agir ignorando o dever maior de defender e obedecer aquilo que Deus ensinou, inclusive no campo disciplinar, é promover a perpetuação da rebeldia por parte daqueles que devem – precisam, na verdade – se arrepender e se voltar para Deus. Quando um pai dá razão ao erro do filho e o defende daquilo que não é um ataque, quando uma moça rende ao namorado todo o respeito ao passo que ignora totalmente as orientações paternas, quando um amigo oculta os erros do companheiro para que ele não seja repreendido e quando alguém assume um lado político dentro da igreja em lugar de trabalhar pelo bem do corpo de Cristo, sabemos que os problemas da igreja são bem maiores do que aparentam. Em lugar disso, a Bíblia mostra que os servos de Deus devem amar mais o Senhor que a seus próprios parentes e amigos (1Sm 2.29; Mt 10.37) e devem agir sempre com imparcialidade (Fp 2.3; 1Tm 5.21; Tg 3.14-16).

Desse modo, temos de escolher como proceder quando somos exortados à obediência da Palavra de Deus — e isso vale também para nossos queridos — e quando a igreja reprova nossos malfeitos e escolhas equivocadas. Podemos, quando repreendidos, entrar em uma caverna para nos lamentar, nos apiedar de nós mesmos e culpar o mundo por todo mal que se ergue. Ou podemos sair dessa caverna e nos colocar à luz do dia, diante da luz de Deus e da sua palavra a fim de ser transformados na imagem do nosso Senhor (2Co 3.18). Afinal, de que adianta trocar de pele – ou de igreja, de amigos e de pastor – e manter, no íntimo, a mesma mente e o mesmo coração?

Pr. Thomas Tronco

 

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