Quarta, 05 de Agosto de 2020
   
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‘Corpus Christi’: a Festa da Presença de Cristo

Pastoral

No século 13, iniciou-se uma tradição que perdura até hoje na festa anual chamada Corpus Christi. Instituída pelo papa Urbano IV, a festa tem como função reforçar entre os católicos a ideia da presença do corpo de e do sangue de Cristo na eucaristia, segundo a doutrina da transubstanciação. A festa é celebrada com uma procissão pelas ruas da cidade que são previamente decoradas com um tipo de tapete feito de serragem colorida, flores e outros tipos de material. A origem dessa procissão está ligada ao fato de o clérigo Pedro de Praga, que possuía dúvidas sobre a presença corporal de Cristo na eucaristia, ter testemunhado que, no momento da consagração da hóstia, ela se transformou em carne viva e respingou sangue. O papa Urbano IV ordenou que os objetos envolvidos nesse evento fossem enviados a Orvieto, na Itália, em meio a uma grande procissão, fazendo nascer o rito.

Os evangélicos não comemoram tal festa porque discordam da doutrina da transubstanciação, que afirma que os elementos da ceia se tornam literalmente corpo e sangue de Cristo. Os batistas, em especial, assumem uma postura que interpreta a ceia como um “memorial”, ou seja, uma recordação do fato de o nosso Senhor ter morrido para nos salvar (1Co 11.24,25). Essa recordação se dá em um rito no qual o pão simboliza seu corpo oferecido em sacrifício (1Pe 2.24) e o cálice simboliza seu sangue derramado para o perdão dos pecados (Ef 1.7) na cruz do Calvário.

Porém, não crermos na presença corporal de Cristo na ceia não significa que ignoramos sua presença entre seu povo. O Novo Testamento diz que a igreja de Deus é como um edifício cuja intenção é servir de habitação para Deus na Terra: “Sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Ef 2.19b-22). Nesse edifício, cada crente é como uma das pedras dessa enorme construção: “Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (1Pe 2.5). Se a igreja, ou seja, o conjunto de todos os salvos, tem o privilégio da presença de Deus em si, cada crente em particular é também habitado por Deus por meio do Espírito Santo: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16).

Isso significa que não comemoramos a presença de Cristo? Não! Significa que a presença divina em nós nos leva a outro tipo de resposta. Em lugar de tapetes de serragem e procissões, a igreja de Cristo, tendo em vista a santa presença em seu meio, é chamada a se “santificar” – que quer dizer “se separar”. Mas se separar de quê?

Em primeiro lugar, os crentes em Cristo devem se separar da impureza: “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo” (1Co 6.19,20). Os coríntios, segundo esse texto, deviam abandonar seus hábitos antigos, incluindo os que envolviam a imoralidade. A razão disso é que eles, como “santuário do Espírito Santo”, não podiam utilizar o que pertencia a Deus para dar lugar ao diabo. O mesmo vale para nós, crentes do século 21.

Em segundo lugar, os crentes em Cristo devem se separar do mundo perdido:Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunhão, da luz com as trevas? Que harmonia, entre Cristo e o Maligno? Ou que união, do crente com o incrédulo? Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos? Porque nós somos santuário do Deus vivente, como ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (2Co 6.14-16). Isso, obviamente, não quer dizer reclusão do mundo, porque somos enviados a viver no mundo e nele fazer brilhar a luz de Cristo (Jo 17.18, 1Pe 2.9). Entretanto, significa que nosso convívio com o mundo perdido deve ser marcado pelos limites impostos pela santidade de Deus. Devemos reforçar entre nós os laços que temos como irmãos em Cristo, ao passo que precisamos ter cuidado com os limites do apego com os perdidos, já que compreendemos “que a amizade do mundo é inimiga de Deus” e que “aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4).

Por fim, mesmo sem sermos católicos romanos e não comemorarmos a festa de Corpus Christi, temos, na presença de Deus em nós, a motivação para uma vida que busca a santidade a fim de ser um templo digno da habitação do Senhor. Assim, em lugar de fazermos uma vez por ano tapetes de serragem colorida, que nossa própria vida sirva de tapete para o Senhor, cujos adereços não sejam flores e corantes, mas fidelidade, compromisso, devoção, testemunho e amor!

Pr. Thomas Tronco

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