Quinta, 06 de Agosto de 2020
   
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Como um Crente de Verdade É?

Pastoral

Em um tempo de perguntas e respostas em umas das reuniões da igreja, um irmão perguntou: “Já que 1Timóteo 3 tem uma lista de qualificações para pastores e diáconos, a Bíblia também tem uma lista de qualificações para crentes?”. Respondi fazendo um “apanhado” de algumas características cristãs marcantes, ressaltando que boa parte das Escrituras se rende a nos ensinar sobre nosso papel no plano de Deus e o modo como devemos nos portar diante dele, da igreja de Cristo e do mundo em geral.

Depois disso, fiquei pensando em um texto bíblico que pudesse traduzir nosso lugar e nossa responsabilidade como servos do Deus vivo. Existem muitos textos que apontam nesse sentido, como as bem-aventuranças (Mt 5.1-12), o canto sobre o amor (1Co 13.4-7), o fruto do Espírito (Gl 5.22,23), a exortação paulina à santidade (Ef 4.25-32), a armadura de Deus (Ef 6.10-18), as recomendações aos tessalonicenses (1Ts 5.4-22) e a lista de virtudes cumulativas de Pedro (2Pe 1.5-8).

Contudo, há um texto que acredito que dá um resumo das diversas vertentes da realidade que abrange e orienta a vida cristã: Hebreus 10.19-25. Segundo esse texto, o crente tem certas características que o define:

1. O crente tem acesso a Deus por meio de Jesus (vv.19-21): “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus...”. Esse texto faz uma alusão à estrutura do templo de Deus, em que o lugar central e mais inacessível era chamado Santo dos Santos. Ali era o local em que ficava a arca da aliança (pelo menos até o exílio babilônico) e representava a presença de Deus entre os israelitas. Ninguém podia entrar nesse recinto, a não ser o sumo sacerdote, uma vez por ano, para fazer expiação pelo povo (Hb 9.6,7). Entretanto, para o crente, Cristo se tornou o sumo sacerdote a fim de interceder pelo seu povo e lhe dar acesso a Deus pela sua morte (significado de “pela sua carne”), eliminando a separação representada pelo véu do Santos dos Santos (Mt 27.51). Ninguém pode se dizer um crente de verdade se não recebeu, pela fé em Cristo, tal acesso a Deus.

2. O crente foi purificado em seu íntimo (v.22): “Aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura”. Duas palavras são utilizadas para fazer referência ao íntimo das pessoas: coração e consciência. A primeira é sempre usada no Novo Testamento em sentido figurado que aponta para os desejos, sentimentos, afeições, paixões e impulsos do homem. A segunda tem relação com a capacidade que o homem tem de fazer julgamentos morais, ou seja, de avaliar algo como certo ou errado, bom ou mau, sendo que tal consciência age como uma testemunha interna aprovando ou reprovando nossos próprios atos. Segundo o autor de Hebreus, essas duas fontes dos conceitos, atitudes e ações dos cristãos foram purificadas, produzindo uma nova realidade em que o cristão pode aproximar-se de Deus com “sincero coração” e sem uma “má consciência”, de modo que o rumo da sua vida será outro. Assim, o cristianismo não é um conjunto de atitudes, preceitos e programações sociais, mas uma nova vida a partir da transformação promovida por Deus naquele que ele salva (1Co 6.11; 2Co 5.17). É como se um navio fora de rota dispensasse a bússola quebrada e colocasse uma nova, mostrando o caminho correto e seguro até o porto.

3. O crente conhece o sentido da fidelidade (v.23): “Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel”. Apesar das vagas que se abatem sobre a vida de todos os homens, o crente não é uma pessoa de convicções e de fé vacilantes. Isso não se deve a nenhuma característica pessoal acima da média, mas à esperança que ele tem de completar seguro e vitorioso sua carreira. Essa esperança foi dada pelo próprio Deus ao lhe conceder a habitação do Espírito Santo (Ef 1.13,14) como um selo de propriedade divina e uma garantia – um “penhor” – de que o que ele começou, ele terminará (Fp 1.6 cf. Rm 8.30), apresentando-nos irrepreensíveis (1Co 1.8) e levando-nos finalmente ao céu (Jo 14.2,3; 17.24). A certeza dessa esperança não se baseia na força do homem, mas na fidelidade de Deus (1Ts 5.23,24), cuja “promessa é fiel”. Desse modo, o próprio crente passa a desenvolver traços dessa fidelidade em sua vida e é capaz de guardar “firme a confissão da esperança”.

4. O crente se importa e se relaciona com os irmãos (v.24): “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras”. O cristianismo pressupõe – e instrui nesse sentido – o amor a Deus por parte dos seus discípulos. Contudo, um ponto marcante é a instrução do amor fraternal (1Ts 4.9). Esse amor não é algo meramente social, nem tampouco um sentimento ao sabor das intempéries (Hb 13.1). Em lugar disso, ele é uma decisão de amar os irmãos com sinceridade e com uma entrega tal (1Pe 1.22) que o outro é tratado com prioridade (Rm 12.10) e como motivo de abnegação pessoal (Rm 14.15). Dessa maneira, a edificação mútua é uma prática buscada constantemente pelos crentes (Rm 14.19; 15.2), razão pela qual eles vivem em união (Ef 4.16), na prática do amor e das boas obras.

5. O crente deve ser frequente aos cultos públicos (v.25): “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima”. A vertente moderna da igreja que defende um cristianismo individualista – cada um em sua própria casa – não conhece nem de perto as Escrituras, nem a função da igreja unida e dotada de dons para uso mútuo. A Palavra de Deus ensina que o culto a Deus deve ser coletivo (Mt 18.20) de modo a manter íntegros o ensino dos apóstolos, a comunhão, o temor a Deus, o amor fraternal, o testemunho cristão (At 2.42-47), a oração (At 16.16) e as ordenanças de Cristo (At 20.7). O “falso cristianismo” que despreza a união da igreja e sua função de louvar a Deus como um corpo produz apenas adeptos egoístas, cujo único interesse é o bem-estar pessoal e a busca de um tipo de entretenimento religioso. Em lugar disso, o texto orienta a, juntos, lançarmos mão da prática de admoestarmos uns aos outros, certamente visando à pureza que evita as quedas (Gl 6.1). Se a propaganda desse “falso cristianismo” é que, nos dias de hoje, não é mais necessário se reunir como igreja de Deus, o autor de Hebreus diz que seu conselho é tanto mais importante quanto mais “o Dia se aproxima”.

Acesso a Deus pela fé em Cristo, purificação interna, fidelidade, esperança segura, amor fraternal e frequência aos cultos não são todas as marcas daquilo que o crente é. Mas, certamente, se elas faltam a alguém, há algo de errado com essa pessoa. Ou ela não nasceu de novo, ou ela, banhada com a água limpa e pura da justificação de pecados, insiste em viver na lama e no lixo da velha vida, atraindo para si todo tipo de perturbações.

Se, com este texto, você descobriu “como um crente de verdade é”, suas duas próximas questões são: “Eu sou um crentes de verdade?”, e “eu tenho vivido como um crente de verdade?”. E então, você já sabe essas respostas?

Pr. Thomas Tronco

 

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