Terça, 17 de Maio de 2022
   
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Substituição Penal na Cruz de Cristo

De tempos em tempos surge algum “pretenso teólogo” com novidades que são frutos da sua criatividade, associada à negação de pontos claros da Bíblia e da história da teologia cristã. Talvez, tais “teólogos” façam coisas assim a fim de se apresentar como pessoas de mente aberta e percepção aguçada, uma espécie de “mente à frente do seu tempo”, não sei. O fato é que os erros e os prejuízos recorrentes desse tipo não são raros ou inesperados. A moda da vez é negar o conceito da “substituição penal na obra de Jesus na cruz”. O intento desses “teólogos” é, aparentemente, reduzir o conceito do sacrifício de Jesus a fim de minimizar o pecado e a culpa das pessoas, bem ao estilo dos pregadores modernos — mais “animadores” que pregadores — da teologia do coaching, cujo papel é encher o ego dos ouvintes e fazê-los crer que, tendo o mesmo valor de Jesus e sendo o centro da existência de Cristo, são uma inigualável aquisição da parte de Deus e uma grande vantagem para sua divindade.

Bem, sem tentar mais adivinhar o que está por trás de uma proposta tão bizarra, heterodoxa e até herética, vejamos o que a Bíblia diz sobre o tema. Para tanto, deve-se ter em mente que o conceito de “substituição penal” significa que Jesus foi punido no lugar dos pecadores, satisfazendo as justas exigências de Deus contra o pecado, a fim de perdoar pecadores que creem em Cristo. Dizer que ele foi “punido no lugar dos pecadores” significa que ele “substituiu tais pecadores na aplicação da punição dos seus pecados”, compondo, assim, o sentido da expressão “substituição penal”.

Dentre tudo que os pretensos teólogos argumentam, a primeira afirmação contra a substituição penal na obra de Cristo na cruz é que a Bíblia nunca apresenta os modelos de expiação “substitutiva” e “penal” juntos, em um mesmo contexto. Bem, esse argumento lança mão de um tipo de falácia na qual duas verdades deixam de ser verdades se não aparecerem no mesmo contexto, como se a Bíblia não fosse o contexto de todas as verdades teológicas. Entretanto, esse nem sequer é o caso aqui, pois as duas realidades — tanto a “morte substitutiva” como a “aplicação penal” — surgem, sim, em contextos únicos e imediatos, muitas vezes, em um mesmo versículo. Exemplo disso é quando Pedro, falando de Jesus, diz: “Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados” (1Pe 2.24). Pedro mostra a substituição quando afirma que Jesus, na cruz, carregou em seu corpo os nossos pecados. Os pecados eram nossos, mas não fomos nós que os carregamos na cruz, mas Jesus, em nosso lugar. Já a punição que ele recebeu fica clara no resultado da cruz, ou seja, a morte que sofreu, não aleatoriamente, por uma razão específica: os nossos pecados. Assim, o texto resume a substituição penal afirmando “pelas suas chagas, fostes sarados”, ou seja, pela morte que ele sofreu por nossos pecados, abriu-se para nós a porta do perdão divino.

O mesmo apóstolo acrescenta que “também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito” (1Pe 3.18). Ao dizer que morreu “pelos pecados”, é óbvio que não se trata de pecados do próprio Jesus, pois o próprio Pedro afirmou a impecabilidade de Jesus dizendo: “O qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca” (1Pe 2.22). Assim, os pecados pelos quais Jesus morreu pertencem a outros, recebendo, portanto, a punição que era devida a outros, “o justo pelos injustos”, ou seja, o justo Jesus no lugar de pecadores injustos como nós.

O apóstolo Paulo faz a mesma relação ao dizer que Jesus “se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai” (Gl 1.4). Entregar-se, aqui, não tem outro sentido senão morrer, entregando sua vida, ao que Paulo explica que Jesus o fez “pelos nossos pecados”, ou seja, recebendo a condenação que nos era devida, como um substituto penal, de modo que o resultado foi nossa salvação e retirada “deste mundo perverso”. A mesma relação de entrega pessoal de Jesus para morrer no lugar dos que nele creem se vê quando o apóstolo diz que Jesus “a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.14).

Para tanto, foi preciso uma substituição de modo que Jesus, sem pecado, recebeu uma punição como se tivesse pecado — não o seu, mas o nosso pecado —, pelo que Paulo completa dizendo que “aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21). Com isso, ele deixa clara uma troca na qual Jesus leva nossa iniquidade e nos dá sua justiça, substituindo um pelo outro. Negar a substituição penal nos textos acima exigiria fazer afirmações inconcebíveis como negar que as expressões “entregou a si mesmo” ou “a si mesmo se deu” tenham qualquer relação com a morte de Jesus. Além disso, seria preciso afirmar que a morte de Jesus teve alguma outra função — como “dar apenas um bom exemplo”, “encorajar as ovelhas” ou algo assim — diferente do recebimento da punição devida àqueles que são citados em expressões como “por nós”, “pelos injustos” ou “pelos nossos pecados”. Mas, como resultado, afirmações como essas criariam heresias ainda piores que a negação da substituição penal.

A segunda afirmação frequente contra a substituição penal na obra de Cristo na cruz é que ela não pode ser considerada parte do evangelho, pois não aparece em nenhum dos quatro evangelhos. Essa, obviamente, é mais uma falácia, associando a mensagem do evangelho apenas aos quatro evangelhos, desprezando todo o restante — o que fazem, é claro, apenas quando interessa ao argumento imediato. Mas quando Paulo escreveu aos Romanos, como pregador justamente do “evangelho” (Rm 1.15-17), envia-lhes uma carta que contém a mensagem dos quatro evangelhos, mas que vai além, contendo verdades de Deus e das boas novas da salvação que não foram detalhadas nos quatro evangelhos, o que torna o livro de Romanos tão rico doutrinariamente e, especialmente, no evangelismo. Desse modo, a mensagem do evangelho não é apenas o que está escrito em Mateus, Marcos, Lucas e João, mas toda a mensagem bíblica sobre a salvação em Cristo. Aliás, pregando o evangelho aos coríntios, Paulo diz que “antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1Co 15.3), uma menção direta à substituição penal na morte do Senhor Jesus.

Ainda assim, essa falácia se demonstra falsa mais ainda quando o próprio Jesus, no escopo dos quatro evangelhos, fala da sua função de morrer em lugar das pessoas a quem salvaria, como o faz na ceia pascal, antes de ser preso, dizendo: “Porque isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.28). Aqui ele expressamente anuncia sua morte, nas figuras dos seu corpo e sangue, e o diz que seria “em favor” de outros, a fim de trazer perdão mediante um pagamento, ou seja, a “remissão de pecados”. A mesma verdade é expressa nas palavras de Jesus quando afirmou que “o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45). Deve-se, mais uma vez, lembrar o caráter da morte de Jesus, sendo uma punição e não apenas um bom exemplo, ou algo semelhante, e a razão para isso é a morte ser a consequência e a punição pelo pecado, visto que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23a).

Jesus repete sua função salvadora e o meio de promover a salvação ao dizer “eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas... assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10.11,15). Qualquer ouvinte de Jesus que conhecesse ao menos um pouco da atividade pastoril conseguiria entender a ilustração aqui apresentada na forma de ovelhas prestes a serem devoradas por predadores ou inimigos, sendo, contudo, protegidas por seu pastor que morre a fim de preservar as ovelhas. Essa clara figura de um pastor morrendo no lugar das ovelhas, a fim de que elas não morressem, é descrita pelo apóstolo quase na forma de uma gravura quando diz que Jesus “se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus” (Ef 5.2). É a essa obra que Jesus se referiu em João 10 — a de morrer em substituição de pessoas que são suas ovelhas, livrando-as não de lobos, mas da penalidade de seus pecados, em um grande ato de amor, pelo que disse que “ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (Jo 15.13).

A terceira afirmação frequente contra a substituição penal na obra de Cristo na cruz é que ela se baseia na noção de que Deus exige a punição do pecador, o que tiraria do Senhor seu tratamento gracioso e misericordioso. Segundo os críticos da substituição penal, se Deus exigir punição pelo pecado, isso o torna um legalista e não alguém que perdoa pela graça. Por mais irônico que seja, tal afirmação constitui mais uma falácia: a de que algo gratuito não exige pagamento que lhe faça provisão. Um exemplo claro para entender essa falácia é lembrar que, por exemplo, os serviços públicos gratuitos são gratuitos para os usuários, mas são pagos por outros meios, outros fundos, a fim de ter provisão suficiente para oferecer o benefício com gratuidade àquele que não pode pagar. Exatamente o mesmo ocorre com a salvação e por razões que a Bíblia deixa claras e as enfatiza à exaustão, expondo a incapacidade humana de, com obras ou valor pessoal, resolver o pecado contra Deus e reatar a comunhão com o Senhor. Nesse sentido, a Bíblia afirma que o homem não é capaz de salvar-se a si próprio (Gl 2.16; 3.10), ao mesmo tempo que Jesus é o único caminho para o Senhor (Jo 14.6) e o único intermediário entre Deus e os homens (1Tm 2.5), o que ele fez quando “a si mesmo se deu em resgate” (1Tm 2.6), fazendo um pagamento — lembrando que o sentido de “resgate” é libertar mediante um pagamento (a morte de Jesus, pelo que ele “a si mesmo se deu”).

Para piorar, esse argumento contra a substituição penal flerta com o universalismo (doutrina que defende que todas as pessoas são salvas independente da sua fé), pois propõe um tipo de salvação para a qual não é necessário um pagamento, dispensando e tornando inútil, assim, a morte de Jesus e abrindo a salvação a todos, crentes e incrédulos, já que não haveria necessidade de crer em Jesus e em sua obra na cruz. Seria uma salvação sem cruz e sem pagamento de Jesus pelos pecados de quem ele salva, algo mais próximo do que creem os universalistas, os espíritas, os budistas e os hinduístas.

Porém, basta uma rápida leitura bíblica para perceber que o conceito de graça está ligado à provisão para que as bênçãos e o perdão sejam gratuitos. Paulo, por exemplo, diz: “Para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado” (Ef 1.6), associando, na sequência imediata, a mesma graça ao “sangue”, ou seja, à morte do redentor Jesus, dizendo: “No qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” (Ef 1.7). Portanto, se somos salvos de graça — e somos mesmo (Ef 2.8) —, não é porque valor algum foi pago, mas porque Cristo fez o pagamento em nosso lugar e nos “comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

Um texto clássico que demonstra a substituição penal de Cristo por nós, possibilitando que recebêssemos bênçãos pela fé, de modo gratuito, diz que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro), para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido” (Gl 3.13-14). A penalidade recebida por Jesus é patente e gritante no trecho “fazendo-se ele próprio maldição”, assumindo, com isso, uma maldição que não era dele, mas nossa, enquanto a substituição fica mais que clara nas palavras “em nosso lugar”. Em resumo, a “maldição da lei” que estava sobre nós foi sofrida por Jesus ao ser morto “pendurado no madeiro”. Essa expressão é uma menção de Deuteronômio 21.22-23, que estipulava que pessoas punidas com a morte por causa da lei de Deus deviam ser penduradas a fim de demonstrar a punição de Deus sobre elas, ou seja, a maldição. Com isso, fica claro o caráter punitivo e penal da morte de Jesus, a qual ocorreu “em nosso lugar”, substituindo-nos na punição penal de Deus. Tendo explicado isso de modo claro e enfático, Paulo prossegue dizendo que o resultado dessa obra foi fazer com que “recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido”, Espírito que o mesmo apóstolo diz que recebemos gratuitamente, pela graça, por meio da fé (Gl 3.2,5).

Desse modo, a justificação gratuita só existe mediante o pagamento de Jesus, substituindo-nos na punição do pecado, de modo que “aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21). É preciso explicar que, quando o texto diz que “ele o fez pecado por nós”, não está afirmando a pecabilidade de Jesus, mas sua substituição penal, substituindo-nos não na nossa natureza pecaminosa ou na nossa prática de pecados, mas assumindo nossa “culpa” pelo pecado — essas três realidades são descritas na Bíblia sob o nome “pecado”, a saber, a “natureza pecaminosa” (Sl 51.5; Rm 7.15-25), os “atos de pecado” (Sl 51.4; 1Jo 1.8-10; 3.4) e a “culpa pelo pecado” (Rm 5.15-19; 1Co 15.22). Isso quer dizer que Jesus nos substituiu na punição penal da culpa do pecado para que fôssemos justificados (Is 53.5; 1Pe 2.24; 3.18) e não mais condenados (Rm 5.1; 8.1).

Portanto, por mais que os críticos da substituição penal digam que a ira de Deus não recaiu sobre Jesus, a Escritura afirma: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (Is 53.6-7). Tal verdade deve tocar profundamente nossa alma, compungir-nos o coração, transformar nossa mente e nos tornar servos bem melhores de um Deus que nos amou mais do que é possível descrever e de um Senhor que sofreu em nosso lugar a culpa devida por nós para, por meio disso, nos salvar, dar uma nova natureza, tornar herdeiros das bênçãos celestiais e conceder a vida eterna ao lado do Deus criador e sustentador de tudo que existe.

E ainda dizem que teologia não tem valor algum para a vida cristã. Que equívoco tolo!

Pr. Thomas Tronco

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