Segunda, 23 de Setembro de 2019
   
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Um Preço Alto Demais

Pastoral

Quanto custa negar a inerrância bíblica? Certa vez, conversando com um pastor sobre textos bíblicos que parecem indicar que Deus foi injusto ou demasiadamente cruel, fui surpreendido com um parecer que não esperava sair da boca de um líder ortodoxo. Ele disse que os textos que atribuem essasões a Deus não refletem a verdade, mas sim a visão meramente humana dos autores, especialmente do Antigo Testamento. Segundo ele, uma vez que a revelação de Deus foi dada de forma progressiva, os escritores bíblicos mais antigos não tinham uma concepção clara da pessoa de Satanás e, por isso, atribuíam tudo a Deus, inclusive os atos cruéis e injustos que o diabo praticava. O pastor disse que os autores do AT erraram ao fazer isso, mas, mais tarde, o NT forneceu a forma certa de como devemos ver as coisas.

Assim, segundo a concepção daquele colega, o Antigo Testamento tem erros teológicos graves, pois seus autores transpuseram noções pessoais equivocadas para o texto sagrado, trazendo à luz passagens cujas ideias não podem ser acolhidas pelos crentes de hoje, dotados de uma visão doutrinária mais ampla.

Os problemas desse ensino são vários. Em primeiro lugar, confunde “revelação incompleta” com “revelação incorreta”. É verdade que o Senhor nos deu sua Palavra aos poucos (revelação progressiva). Contudo, isso não significa que, em seus estágios iniciais de formação, o texto sagrado trouxesse inverdades. Pensem num bebê. Nenhum nenezinho vem ao mundo plenamente desenvolvido. Esse desenvolvimento ocorre com o passar do tempo. No entanto, não é certo dizer que o bebê é defeituoso. O mesmo é verdade em relação à Bíblia. Seus primeiros livros não trouxeram a revelação plena do que Deus tinha a transmitir. O que trouxeram, porém, era e é “verdadeiro”. Mais uma vez: “Revelação incompleta” não é “revelação incorreta”!

Em segundo lugar, o ensino do meu colega esbarra diretamente no que diz o Novo Testamento. Nesse sentido, tenho em mente 2Pedro 1.20-21. Esse texto diz que “nenhuma profecia da Escritura é de particular elucidação”. Antes de prosseguir, é importante enunciar uma palavrinha de esclarecimento. Algumas pessoas entendem que essa frase de Pedro significa que nós não devemos aceitar somente uma interpretação em particular dos textos bíblicos, havendo várias que podem ser aceitas. Essa concepção entende que Pedro, vivendo no século 1, ensinava uma hermenêutica pós-moderna, dizendo que o texto bíblico tem vários sentidos, todos igualmente válidos. Obviamente, isso é um anacronismo absurdo! Ademais, é crucial observar que nesse texto Pedro se refere à ação do escritor e não do leitor. Ele ensina, na verdade, que nenhuma profecia da Bíblia decorreu das impressões ou percepções particulares dos autores sagrados. Então, dando sequência ao seu argumento, Pedro diz de onde, afinal, as profecias decorreram: “Antes, homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo. Assim, 2Pedro 1.20-21 mostra como a profecia se originou e não como ela deve ser interpretada por nós.

Isso nos leva de volta ao assunto principal. Notem bem: contrariando a proposta do meu colega pastor, Pedro diz que os autores bíblicos jamais transpuseram seus insights pessoais aos textos sagrados. Eles não tiveram ideias equivocadas sobre Deus, nem as inseriram em seus livros. Não! Eles “falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito”, de forma que tudo que escreveram encerra a mais absoluta verdade. Assim, quando eles dizem que Deus fez algo terrível (como mandar matar bebês, por exemplo, cf. 1Sm 15.3), por mais cruel e injusto que isso possa eventualmente parecer, temos de aceitar que foi o Senhor mesmo que o fez, e não satanás ou qualquer outro personagem.

Em terceiro lugar, a concepção do meu colega, se for aceita, produz um danoso “efeito dominó”. Deixem-me explicar: se aceitarmos que os autores do AT escreveram de acordo com suas percepções pessoais erradas, então teremos de concluir que Pedro também errou, pois disse que eles não produziram nada com base em ideias particulares. Pronto! Agora, tendo acolhido o que meu amigo disse, não temos uma Bíblia com erros somente no AT. Temos uma Bíblia com erros também nos escritos de Pedro! Some-se a isso o fato de que Paulo disse que toda a Escritura é “theópnestos” (soprada por Deus, cf. 2Tm 3.16) — ou seja, de origem divina — e teremos um erro também nas epístolas paulinas. E a coisa não para aí. Mateus também disse que os profetas bíblicos falaram “da parte do Senhor” (Mt 1.22). Vejam: agora temos erros no AT, nos escritos de Pedro, nas cartas de Paulo e no Evangelho de Mateus! Segundo a teoria do referido pastor, ao que parece, Pedro, Paulo e Mateus também transpuseram suas noções erradas aos escritos que produziram!

Aonde isso vai parar? Ah, não vai parar! Lembrem-se que Jesus também disse que Davi falou pelo Espírito Santo e não com base em ideias particulares (Mt 22.43) e que “a Escritura não pode falhar” (Jo 10.35), ou seja, que não pode ser desmembrada, sendo um corpo unificado em que a verdade e somente a verdade é revelada. Agora temos erros não somente no AT e no NT, mas também nas palavras do próprio Cristo! Mais uma vez, aonde isso vai parar? E eu respondo novamente: não vai parar! Se nosso Senhor errou, então ele não é divino e seu sacrifício por nós não valeu coisa alguma. E se seu sacrifício não valeu coisa alguma... Opa! Será que estou indo longe demais?

Não! Estou apenas apontando os desdobramentos lógicos de um “errinho” doutrinário. O fato é que não se brinca com a Palavra de Deus. Um pequeno desvio implica uma grande guinada lá na frente, capaz de destruir todas as bases da nossa fé e de transformar o cristianismo numa filosofia morta, sem valor algum. Por isso, jamais negocie a inerrância da Palavra em nenhuma porção dela. O preço disso será alto demais!

Pr. Marcos Granconato
Força e Fé
Soli Deo gloria

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