Quinta, 16 de Julho de 2020
   
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O Cristão e seu ‘Tempo Livre’

Pastoral

Não tenho nenhum dado estatístico, nem indicadores de pesquisa alguma, mas penso haver razões para crer que, ao longo de toda a história, nunca o ser humano gastou tanto dinheiro em lazer e diversão como nos dias atuais. O século passado e o início deste viram o surgimento de empreendimentos gigantescos no campo do lazer e do entretenimento. Parques enormes foram construídos, estruturas caríssimas foram e têm sido levantadas para atrair pessoas para passeios, viagens e diversão e existem até igrejas que investem pesado no campo do entretenimento, construindo quadras de esporte, promovendo “baladas gospel” e tentando trazer os incrédulos para um culto cheio de “grandes atrações”. Observação: a estratégia dessas igrejas sempre dá resultado. Elas ficam lotadas, comprovando, mais uma vez, que o lazer é o que o homem de hoje mais almeja até no campo da religião! Eu já vi até um batismo sendo feito num toboágua, com o candidato deslizando velozmente para a piscina e gritando “uhuuu!”.

Na verdade, tenho razões para crer que a diversão e o lazer são os únicos aspectos da experiência humana que têm dado sentido à vida de muita gente. Nutro a impressão de que uma grande maioria sonha com uma carreira profissional de sucesso apenas para ter mais dinheiro para se divertir. Outros chegam a dizer abertamente que o maior sonho da sua vida é embarcar num cruzeiro, visitar a Disneylândia ou comprar um pacote de viagem para algum destino “muito legal”.

No meu modo de ver, parece que muitas pessoas de hoje reduzem a sua existência a comer, beber e se divertir (Mt 24.38-39). Tudo que fazem além disso (trabalhar, estudar, cuidar da saúde...) tem por objetivo alcançar esses alvos. Com efeito, é bastante claro que, para os homens pós-modernos, a maior infelicidade que pode lhes sobrevir é enfrentar uma condição qualquer (física, emocional ou econômica) que impeça a sua diversão.

Evidentemente, conforme mencionei acima, isso tem um forte impacto sobre a visão das pessoas acerca do trabalho. Nessa visão mundana, o trabalho é apenas um meio de ganhar dinheiro para suprir as necessidades básicas e para se divertir. Isso vai contra a concepção cristã, de acordo com a qual o trabalho é uma vocação de Deus em que o indivíduo, ao atendê-la, enobrece o próprio caráter, supre as necessidades de sua família, ajuda os necessitados e serve a Cristo diante do mundo, exibindo dedicação e excelência. Na verdade, a visão do trabalho como veículo para o lazer não pode ser encontrada na Bíblia.

A esta altura, alguém deve estar pensando: “Pastor, aonde você quer chegar? Você já alfinetou o mundo inteiro denunciando a ênfase que as pessoas dão ao lazer. Agora diz que o trabalho não tem como alvo principal viabilizar a diversão. Tudo bem... Mas o que pensar então desse lado gostoso da vida que é o entretenimento? É errado o crente desfrutar disso ou gastar algum dinheiro com isso?”. Resposta: é claro que não! Eu mesmo gosto muito de levar minha família para passear e “curto” muito ver um filminho policial no fim de um dia puxado de trabalho. De fato, a Bíblia mostra que o homem deve sim se divertir (Ec 9.9; 11.9). Qual é então o problema que quero destacar? O que quero dizer é que é errado fazer da TV, do cinema, do show, da lanchonete, do restaurante, do parque, do passeio e da viagem a razão central da nossa existência (como o mundo parece fazer), gastando horrores para desfrutar dessas coisas, ficando irritados, frustrados e até deprimidos quando não é possível “curtir” algumas delas, como se tivéssemos sido criados para assistir a espetáculos ou ver o Mickey no Magic Kingdom.

O problema que vejo e que quero realçar é que, na cultura secularizada em que vivemos, buscar a diversão como o bem supremo é tão comum que acabamos por achar isso normal e então, também nesse aspecto, nos igualamos aos incrédulos, fazendo nossa vida girar em torno de alvos que só envolvem sensações agradáveis. Pra piorar, não percebemos que essas sensações agradáveis nunca são satisfeitas. Nunca! Sempre queremos mais, mais e mais. Então, nossa vida acaba se resumindo numa busca de novos passeios, novas viagens, enfim, novas sensações gostosas. Como jamais conseguiremos realizar tudo, o resultado é a frustração e o mau humor. E mais: fazendo a vida girar somente em torno da diversão, corremos o risco de nos tornarmos eternas crianças, pessoas fúteis e banais, sem capacidade de pensar em profundidade e impacientes diante de qualquer coisa (um livro, um sermão, uma aula...) que não seja divertida.

Como o crente pode evitar isso tudo? Bem, o cristão precisa purgar sua cabeça dos valores fúteis da cultura pós-moderna e construir uma mentalidade bíblica sobre o trabalho e o descanso. Sobre o trabalho eu já falei acima como devemos considerá-lo. Sobre o descanso, temos de adotar a ideia de que o tempo que nos é dado para descansar não deve ser empregado primordialmente em lazer. Eu sei que isso pode chocar muita gente, mas nosso tempo livre não deve ter como alvo central a diversão, seja ela em frente a uma TV ou dentro de uma sorveteria.

De acordo com a Bíblia, Deus criou períodos de descanso (os sábados e as festas) para que o homem pudesse repor suas forças e também para que, durante esses períodos, pudesse refletir sobre as obras de livramento e salvação que o Senhor havia operado (Dt 5.15). Essa reflexão não tinha de ser necessariamente isolada (ainda que a devocional individual seja importante), mas especial e principalmente coletiva, promovendo a adoração conjunta do povo de Deus.

Esses deveriam ser, portanto, os objetivos centrais do nosso “tempo livre”: o descanso e a celebração (individual e coletiva) dos atos redentores do Senhor. Ainda que, conforme já dito, as atividades de lazer não sejam erradas, nós que somos crentes não devemos nos submeter ao “Império da Diversão”, mas, como mordomos do nosso tempo, preenchê-lo primordialmente com aquilo que nosso Deus propõe em sua Palavra.

O mundo, com suas distrações passageiras e insaciáveis, vai considerar um absurdo esse pensamento. Crentes mundanos, dominados pela cultura ateísta que nos cerca, farão o mesmo. Já os cristãos que anelam a excelência mais do que a “curtição” levarão tudo isso muito a sério, revendo seus costumes e usando seu tempo livre de maneira mais sábia, mas proveitosa e (ah!) bem mais barata.

Pr. Marcos Granconato
Força e Fé
Soli Deo gloria

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