Sexta, 15 de Novembro de 2019
   
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O Sonho de um Mundo Melhor

Pastoral

Desde que os efeitos da Queda sobrevieram à humanidade (Gn 3.14-24), o sonho de um mundo melhor se tornou presente no coração das pessoas. É verdade que a intensidade desse sonho tem variado ao longo da história, mas é inegável que, de uma forma ou de outra, o homem sempre abrigou no peito o anelo de viver numa sociedade mais justa, livre de misérias, violências e sofrimentos.

No decorrer dos séculos, essa expectativa se enfraqueceu, especialmente na Idade Média, depois que as promessas bíblicas de um glorioso Reino de Deus estabelecido literalmente neste mundo foram espiritualizadas, sendo afirmado que esse Reino já havia se “concretizado” por meio da entronização de Cristo no trono celeste. É claro que os teólogos medievais entendiam que esse Reino espiritual devia provocar reflexos na moral e na política, mas a noção do advento de uma era histórica de completa felicidade foi deixada de lado, sendo proclamada, geralmente, por profetas visionários que eram aclamados pelos pobres e perseguidos pela igreja.

Quando a Idade Média, com sua visão de mundo, acabou, as esperanças de uma sociedade perfeita ressuscitaram. Livros descrevendo o ideal de um mundo feliz começaram a surgir (um dos primeiros e, talvez, o mais conhecido seja Utopia, escrito em 1516, por Thomas More) e se multiplicaram até o começo do século passado. Os filósofos humanistas do século 18 e os escritores socialistas do século 19 contribuíram para a criação de um ambiente de entusiasmo quanto ao futuro, apontando para um lindo horizonte à frente. Ademais, as conquistas científicas e tecnológicas pareciam confirmar isso. Inclusive, no meio protestante, os avanços missionários do século 19 deram força à escatologia pós-milenista que pregava um otimismo exacerbado, dizendo que o mundo todo seria aperfeiçoado pela fé em Cristo, antes que o Senhor voltasse para reinar absoluto.

Ocorreu, porém, que, logo no início do século 20, a esperança de um mundo rico, justo e feliz começou a desmoronar. A Primeira Guerra Mundial, com todas as suas atrocidades, foi o primeiro golpe nessa esperança. Em seguida, veio a crise econômica do final da década de 1920. Depois, o mundo viu a Alemanha, um dos países mais civilizados do mundo, promover a barbárie e o fanatismo numa escala jamais vista na história da humanidade. Crueldades indescritíveis foram praticadas sob o governo de Stalin e todas as nações envolvidas na Segunda Guerra Mundial exibiram a face horrível e perversa do homem, reduzindo o humanismo iluminista a uma fábula infantil.

Pra fechar tudo com chave de ouro, veio a bomba atômica, arrasando as cidades japonesas e devastando de vez o sonho de um mundo melhor. De fato, em lugar desse sonho, surgiram pesadelos, pois começou então a se falar no fim da humanidade causado pela guerra nuclear. Quando o medo não era esse, as pessoas tremiam sob a ameaça do fim da liberdade, caso o “comunismo” tomasse conta de tudo, acabando com a propriedade privada, a religião e a livre expressão do pensamento.

Felizmente, as piores previsões estavam erradas. A humanidade não foi destruída durante a Guerra Fria e o medo desse perigo passou. O comunismo também perdeu força e as pessoas não se preocupam muito mais com ele — pelo menos não como há cinquenta anos. A impressão que se tem é que a humanidade sossegou um pouco no tocante a esses temores, voltando eventualmente os olhos para outras ameaças que parecem se desenhar no cenário mundial, mas que ainda não deixam as pessoas comuns muito apavoradas.

E quanto ao velho sonho de um mundo melhor? A impressão que se tem é que esse sonho foi reduzido a expectativas predominantemente ecológicas pregadas por uma minoria. As pessoas que vivem bem não nutrem esperanças gloriosas quanto ao amanhã e pouco se importam com isso. As que vivem mal não buscam conforto em utopias, nem sonham com um mundo paradisíaco. De alguma forma, o passado incutiu nelas a noção de que tudo isso é bobagem, importando apenas que sobrevivam hoje, tentando tirar o melhor proveito da vida aqui e agora — “comamos e bebamos porque amanhã morreremos” (1Co 15.32).

E nós, os crentes? Bem, nós seguimos com os pés no chão e os olhos nos céus, de onde aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo (Fp 3.20). Para o cristão, a esperança de um mundo melhor não está construída sobre a expectativa da invenção de novas máquinas, sobre a erradicação da pobreza, sobre o progresso da educação ou sobre a vitória da ciência em sua luta contra doenças e outros males. Para os salvos pela fé em Cristo, a esperança de um mundo melhor se fundamenta na vinda gloriosa do Rei dos reis que transformará espadas em pás e lanças em foices (Is 2.4), trazendo paz sem fim e firmando seu reino em juízo e justiça para sempre (Is 9.7), num tempo em que o leão comerá palha como o boi e em que toda a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar (Is 11.7-9).

Nossa esperança, assim, uma vez firmada sobre promessas sólidas e sobre a palavra de um Deus que não pode mentir, permanece inabalável. Épocas, tendências, filosofias e cosmovisões vêm e vão, sempre fadadas ao fracasso e à frustração. Nós, porém, prosseguimos confiantes num futuro em que a criação será redimida (Rm 8.19-23), numa era que a Bíblia chama de fim dos tempos, quando os tempos não terão mais fim.

Pr. Marcos Granconato
Força e Fé
Soli Deo gloria

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