Segunda, 09 de Dezembro de 2019
   
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História dos Fiéis Anônimos

Pastoral

As narrativas bíblicas estão repletas de heróis da fé, como Abraão, Moisés, Davi, Elias e tantos outros. São verdadeiros ícones de fidelidade, mansidão, perseverança e poder, entre outras características. Realizaram feitos memoráveis, são e serão lembrados para sempre e terão suas peripécias contadas e recontadas onde quer que haja alguém conversando sobre os grandes nomes da História. Com esse verdadeiro panteão de homens de Deus contrastam, entretanto, figuras igualmente notórias, mas do “lado negro da força”, como Golias, Faraó, Jezabel e outros que, no fim das contas, ao menos nos ajudam a dar ideias de bons nomes para animais de estimação. Estes sempre serão lembrados como gente ímpia, vil e digna do juízo de Deus.

O que me tem intrigado ultimamente, entretanto, não é a história dos conhecidos homens do passado, mas a vida das pessoas comuns. Homens e mulheres normais, que não ficaram famosos nem pelas grandes virtudes, nem foram maus o suficiente para perpetuarem seus nomes em cães e gatos. Nessa massa indistinta de gente qualquer, penso, em especial, em como eram os anônimos que serviram a Deus desde os tempos remotos.

Veja o caso de 1Reis 19.10. Elias reclama com Deus de ser o único homem fiel que sobrou em Israel, na luta contra Acabe e Jezabel. A resposta de Deus revela a ingenuidade do profeta: “Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou (1Re 19.18). Sete mil!!!! Quem são esses? Se ser um profeta famoso, poderoso e respeitado já era difícil nos tempos de Acabe e, mesmo assim, significava colocar a própria cabeça a prêmio, imagine ser um dos sete mil? Eram tão desconhecidos que nem o profeta sabia que eles sequer existiam! Mas eles estavam lá, eram fiéis e Deus os conhecia muito bem, a ponto de saber quantos eram e mencionar, ao profeta, os atos de lealdade daqueles desconhecidos servos de Deus.

Outro caso interessante que revela a importância dos fiéis anônimos relaciona-se à igreja de Antioquia, em Atos 11. Muito se fala, com respeito à expansão do evangelho no período do Novo Testamento, do papel dos apóstolos e, em especial, do apóstolo Paulo, grande fundador de igrejas em suas viagens missionárias. Sem dúvida, foram, majoritariamente, os apóstolos que levaram o Cristianismo para o Império Romano e para terras longínquas. Mas no caso da igreja antioquena, em At 11.19-21, os fundadores daquela que foi a igreja mais vibrante de todo o livro de Atos foram ilustres desconhecidos, crentes normais que haviam sido dispersos por causa da perseguição a Estevão e que pregaram para judeus e gentios, especialmente gregos (e, quem sabe, troianos). A melhor igreja de Atos foi fundada por crentes comuns, cujos nomes se perderam! Quem diria?

A Bíblia fez questão de preservar histórias relacionadas a pessoas cujos nomes jamais alcançaram qualquer proeminência nos relatos que foram perpetuados. Eis um grande contraste com os tempos atuais. Hodiernamente, muito do que as pessoas, e mesmo os crentes, realmente querem é fama. Buscam ser lembrados, nem que seja por 15 minutos. Expõem publicamente seus gostos, seus corpos, suas ideias (tolas) com o propósito de serem conhecidos e admirados. Missionários e pastores, divulgam, elogiosa e desavergonhadamente, seus próprios feitos a quem quiser ouvir (e ler) suas cartas e informativos, retratando a si mesmos como heróis da fé. Tudo para fugir do anonimato. São tempos em que ser anônimo é igual a não ser ninguém.

Creio que é preciso tanto resgatar o valor da fidelidade anônima como relembrar que o cristão deve lutar por glória — não a própria, mas a divina. Se isso redundar em fama, muito bem. Se mantiver o estado de ilustre desconhecido, muito bem também. A realidade é que alguns verão seus nomes virarem verbetes da Enciclopédia (ou Wikipedia) da História, enquanto outros, igualmente crentes, piedosos e fiéis, serão ilustres desconhecidos — pelo menos até o fim dos tempos, quando a História for reescrita. E não há nada de errado com esse anonimato. Como já bem disse o famoso apóstolo Paulo: “O que se requer destes encarregados é que sejam fiéis (1Co 4.2) — não, necessariamente, que sejam famosos.

Fraternalmente,

Ev. Pedro Ninguém de Freitas


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