Quinta, 06 de Agosto de 2020
   
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Quando a Negligência Custa Caro

Pastoral

Na manhã de 8 de maio de 1902, quase 30 mil pessoas morreram na cidade de Saint-Pierre, na Martinica, em um dos piores desastres naturais da história: a erupção vulcânica do Monte Pelée. A causa da catástrofe, além dos milhões de toneladas de rocha e lava fervente, foi o somatório da insensatez e da ganância, já que se tratava da capital comercial da Martinica. O vulcão começou a dar mostras do que ocorreria uma semana antes do desastre final, incluindo um gigantesco deslizamento de rochas e lama que matou centenas de pessoas em uma fábrica fora da cidade. Mas, com poucas exceções, nenhuma das autoridades fez qualquer esforço para evacuar a cidade que ficava aos pés do vulcão. O relatório sobre a vistoria no vulcão dizia que estava tudo bem. No final, houve apenas dois sobreviventes: um morador da periferia da cidade e um detento que estava na solitária da prisão.

Que tragédia! Pior ainda porque podia ser evitada. Houve tempo mais que suficiente para evacuar a cidade, o que não aconteceu. Lamentavelmente, muitos são os exemplos na história que demonstram o perigo da atitude negligente e parece que nem experiências como a do Monte Pelée, do Bateau Mouche IV (1988) e da Boate Kiss (2013) provam ao homem que é imperativo que ele seja responsável e pense na consequência dos seus atos.

Infelizmente, há um tipo de tragédia bem maior e com muito mais vítimas que não é noticiado nos meios de comunicação. Ela não envolve apenas a negligência em relação aos homens, mas a negligência diante de Deus. Há dois grupos de “vítimas” acometidas por essa tragédia.

Em primeiro lugar, há o grupo dos que negligenciam a salvação. Dentre eles, há os que não se importam com Deus ou com as coisas eternas, bastando-lhes os bens e os valores desse mundo. São como o homem que, segundo contou Jesus, teve uma grande colheita e que a armazenou em um grande celeiro, dizendo para si mesmo “tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te” (Lc 12.19). Contudo, ambos acabaram diante de Deus, que “lhe disse: ‘Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?’” (Lc 12.20). Também há os que brincam de ser religiosos, mas que negligenciam diretamente o ensino do Senhor sobre a salvação. Diferente dos primeiros, esses se aproximam de igrejas e gostam de ouvir e falar sobre a Palavra de Deus. Entretanto, quando recebem as verdades que deveriam transformar suas vidas pela fé em Cristo, permanecem inertes, de modo que a mensagem da cruz não frutifica em suas vidas. São como o servo mau que, recebendo o tesouro do seu senhor, não o fez render, ouvindo de patrão: “Servo mau e negligente, sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Cumpria, portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros, e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu” (Mt 25.26,27). O final desses é o mesmo daqueles que só buscam satisfação: “E o servo inútil, lançai-o para fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 25.30).

Porém, há ainda outro grupo. Trata-se do grupo dos que negligenciam a santificação. Levando em conta que santificação tem um duplo sentido — ser “separado do pecado” e “separado para cumprir os propósitos de Deus” —, podemos compreender que se trata do processo de crescimento espiritual e envolvimento na obra de Cristo. Infelizmente, as vítimas desse grupo são tão negligentes quanto as outras, já que, apesar de serem salvas, ouvem a Palavra de Deus no tocante à sua responsabilidade cristã e a deixam de lado, protelando o que deveria fazer parte de todos os dias da sua vida. Normalmente, essa negligência vem emoldurada por promessas e desculpas como “ano que vem eu vou me envolver mais na igreja”, “tenho de fazer um curso de evangelismo para pregar às pessoas”, “vou me dedicar mais assim que meus filhos crescerem”, “estou sem tempo para ler a Bíblia, mas o farei assim que a situação melhorar”, “não tenho ido aos cultos, mas um dia voltarei a frequentá-los”, “tenho estado ocupado, mas é só uma fase”, “não estou com cabeça para as coisas de Deus”. Infelizmente, a maioria dessas frases é tão vazia quanto a falsa responsabilidade que elas tentam aparentar. O fato é que a negligência com as coisas de Deus vai fazendo o crente enfraquecer e não ter mais forças para sair desse marasmo espiritual. E tão inevitável como um rio de lava é o resultado na forma de esfriamento e afastamento do Senhor e da sua igreja, mesmo que não sintam o que está ocorrendo.

A orientação divina tende a levar seus servos ao extremo oposto da negligência: “Tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a proporção da fé; se ministério, dediquemo-nos ao ministério; ou o que ensina esmere-se no fazê-lo; ou o que exorta faça-o com dedicação; o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce misericórdia, com alegria” (Rm 12.6-8). Basta ver a presença das ideias de “dedicação”, “esmero” e “diligência” para notar que o Senhor realmente espera de nós empenho e responsabilidade. E as palavras “liberalidade” e “alegria” dão um caráter de grande energia à responsabilidade que nos é exigida.

Diante disso, o que nós, crentes em Cristo, estamos esperando para nos mobilizar enquanto ainda podemos crescer e trabalhar na obra do nosso Mestre? Não basta o alerta da Palavra de Deus? Será preciso arcar com o custo de ser atingido por um rio de lava? Espero que não! O que sei é que há muitos crentes sendo soterrados por sua negligência para com o Senhor e sua igreja e continuam a dizer calmamente: “Está tudo bem”. 

Pr. Thomas Tronco

 

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