Quinta, 06 de Agosto de 2020
   
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A Santa Vocação

Pastoral

Quando alguém fala sobre vocação no meio evangélico, imediatamente as pessoas pensam no chamado para o ministério. É, na verdade, comum os crentes apontarem para um seminarista e dizer: “Aquele moço é vocacionado”.

Não há nada de errado com isso. Pessoas que anelam o episcopado muitas vezes são mesmo chamadas por Deus e devem ser estimuladas e protegidas pelos outros crentes a fim de que essa vocação se confirme e produza frutos para o Reino.

O que me incomoda nisso tudo é que a forma restrita como usamos a palavra “vocação” pode induzir ao esquecimento de uma doutrina crucial dentro da soteriologia cristã. Refiro-me à doutrina do “Chamado Eficaz”. Essa doutrina, ainda que seja central dentro da teologia do Novo Testamento, caiu em certo esquecimento há algum tempo e é ainda mais nublada pelo uso constante do termo “vocação” de forma estrita, isto é, aplicado somente a quem quer ser pastor.

Vamos aqui, portanto, refrescar nossa memória. Vocação é uma palavra que, na Bíblia, se aplica a todos os crentes (Rm 1.7), uma vez que o chamado salvador de Deus é parte integrante do seu processo de busca do homem perdido (Rm 8.30). Assim, vocação no sentido salvífico é um chamado especial que o Senhor dirige a todos os eleitos, ou seja, àqueles que, na eternidade, Deus decidiu soberanamente que iria justificar e, enfim, glorificar (Rm 8.28,30; 1Co 7.17-24; Ef 1.18; 4.1,4; Cl 3.15; Hb 3.1).

Esse chamado poderoso é um convite diferente do chamado geral, dirigido a todas as pessoas (Mt 11.28). Qual é a diferença? A resposta é simples: a vocação geral, por si só, não gera convertidos (Mt 22.14). Já a vocação especial ou salvífica é eficaz e sempre conduz o eleito a Cristo (1Tm 6.12; Jd 1.1).

Isso ocorre porque esse tipo de chamado, uma vez que é dirigido somente aos eleitos, é acompanhado pela obra de convencimento do Espírito Santo que, com paciência e docilidade, atua no coração do indivíduo até que ele entenda e aceite a mensagem cristã (At 16.14).

Vê-se assim que, por mais triste que possa parecer, a obra eficaz de vocação e convencimento, feita por Deus nos corações dos incrédulos que ele salva, não é realizada em cada ser humano (Rm 11.4; 1Co 1.23-26). Se fosse assim, todos os homens seriam salvos, hipótese que, como é sabido, jamais se cumprirá (Mt 25.46; 2Ts 1.9).

Por que Deus não realiza esse chamado maravilhoso em todos? A resposta a essa questão está guardada na mente insondável de Deus (Rm 11.33) e o fato de não entendermos essas coisas não significa que elas sejam erradas. Significa apenas que nossa mente é limitada. Por outro lado, uma coisa é certa: Deus não chama ninguém de modo especial porque vê algo de bom na pessoa. De fato, a vocação especial é baseada unicamente na graça de Deus, sem que o homem chamado tenha mérito algum (2Tm 1.9).

A verdade, portanto, é que, conforme dito, somente os eleitos são objeto do chamado gracioso (Rm 8.28; 2Ts 2.13,14). Estes, ainda que possam resistir à ação de Deus em sua vida durante algum tempo, no fim, fatalmente, se rendem à voz de Cristo e, ansiando por ele, curvam-se aos seus pés cheios de fé, arrependimento e gratidão (Jo 10.16). Os demais, porém, são deixados na incredulidade ou punidos com endurecimento ainda maior, criando temor e grande perplexidade em nossa alma (Is 63.17; Jo 12.37-40; Rm 1.24-28; 11.7-10; 2Ts 2.11).

Finalmente, é preciso destacar porque o chamado eficaz é necessário. Afinal de contas, Deus não poderia deixar a decisão de crer nele por nossa conta, sem realizar em nosso coração nenhuma obra de chamado e convencimento? Esse é o modo de pensar de algumas pessoas. Porém, esse raciocínio não considera a totalidade do ensino bíblico. Segundo a Bíblia, o chamado eficaz é necessário porque nenhuma pessoa pode se voltar para Deus ou para Cristo de si mesma, sem que primeiro o Senhor realize nela uma obra sobrenatural, inclinando-a para a verdade, para a obediência e para a fé (Lm 5.21; Ez 36.26,27; Jo 6.44, 65; Fp 2.13).

Vê-se nisso tudo que a vocação salvífica se constitui na prova de que a salvação de um indivíduo depende primariamente da vontade e da ação de Deus (Mt 11.27; Jo 1.13; 5.21; Tg 1.18). Com efeito, a salvação pertence a ele (Jn 2.9) e sem a sua iniciativa ninguém poderá ser liberto da incredulidade (Jo 6.37; Ef 2.8).

Eis aí algumas considerações acerca da doutrina do chamado eficaz. Com certeza, quem estuda um tema tão negligenciado no contexto evangélico moderno verá muitas perguntas difíceis e intrigantes surgirem em sua cabeça. Na verdade, quem se debruça sobre as grandes doutrinas da fé não tem como evitar essas perguntas. Porém, bem mais do que dúvidas, a doutrina da santa vocação gerará no coração dos crentes uma enorme gratidão, ao levá-los ao entendimento fascinante de que a fé que têm é resultado da bondosa obra de Deus neles, do começo ao fim.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria 


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