Quinta, 06 de Agosto de 2020
   
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Os Sábios Dizem ‘Eu Não Sei’

Pastoral

Basicamente, a teologia lida com a construção de um conceito acerca de Deus, prosseguindo para o enunciado de verdades relacionadas a ele. Partindo disso, é possível dizer que, num grau ou noutro, todo mundo é teólogo ou, pelo menos, tem uma teologia. Sem medo de errar, ouso afirmar que até os ateus têm uma teologia! Sim, pois eles constroem um conceito acerca de Deus e enunciam proposições ligadas a esse conceito.

De fato, seguindo as propostas de certas vertentes da psicologia secular, muitos ateus definem Deus como uma projeção mental, algo que a pessoa inventa pra encontrar sentido na vida ou conforto na hora da dor. Outros, acolhendo ideias comunistas, definem Deus como um instrumento criado por elites privilegiadas a fim de dominar e controlar as massas. Os de esquerda dizem isso indignados, como se o comunismo achasse absurda a ideia de dominar e controlar as massas (hahaha!).

Seguindo a proposta de que todo mundo tem uma teologia, a questão que vem a seguir é: como alguém pode ajustar sua teologia ao que é verdadeiro, ou seja, como pode ter uma teologia substancialmente correta, livre de desvios grosseiros, de concepções infundadas e de pareceres equivocados?

Entre os cristãos, a preocupação com essa pergunta é muito sincera. Convictos da existência de Deus e tendo sido fortemente impactados por seu amor quando foram alcançados pelo Evangelho de Cristo, esse povo anela mesmo por conhecer os contornos reais dos caminhos de Deus, do seu caráter, da sua vontade, dos seus planos e do seu modo de agir. Porém, mesmo entre os cristãos ocorrem erros terríveis na construção da boa teologia, gerando noções doutrinárias perigosas que acabam, enfim, por destruir vidas, famílias e igrejas. Como e por que isso acontece?

Estando envolvido diretamente e há décadas com o povo evangélico das mais variadas denominações, origens e formações, suspeito conhecer a resposta. Penso que o povo de Deus se divide entre aqueles que fazem teologia a partir de noções gerais da Bíblia somadas às intuições lógicas e aqueles que fazem teologia a partir da hermenêutica objetiva que só se ocupa do significado real do texto bíblico, sem se importar se suas conclusões satisfazem a lógica ou não.

Deixe-me explicar melhor. O primeiro grupo é composto por irmãos que leem a Bíblia e captam as doutrinas elementares da fé, acolhendo-as sem nenhuma resistência. Porém, quando se veem diante de textos difíceis, isto é, de porções da Bíblia que desafiam suas noções básicas de coerência, racionalidade e lógica, imediatamente rejeitam o que esses textos dizem ou os distorcem para que se encaixem no seu modo de pensar (2Pe 3.15,16). Para eles, se têm de escolher entre a lógica e o sentido real do texto, ficam com a primeira opção.

Vou dar um exemplo típico disso: a Bíblia diz que o homem deve orar (1Ts 5.17) e diz também que Deus já prefixou o futuro (Sl 139.16). Os crentes de que estou falando percebem que é impossível conciliar esses dois ensinos. Eles não veem coerência ou harmonia entre esses enunciados. Dizem que é ilógico e, então, em vez de rejeitar a lógica, rejeitam uma das verdades bíblicas em questão ou distorcem os textos que as embasam para que tudo se encaixe em sua mente, sem nenhuma dificuldade ou contradição.

O problema é que destruir uma das duas verdades mencionadas constitui um golpe severo contra a teologia cristã e também um desvio típico de qualquer seita! O crente que se baseia predominantemente na razão, porém, não enxerga isso e, preservando o que para ele é lógico, sacrifica a revelação de Deus. Eis aí, então, uma das principais fontes da teologia deturpada que se propaga no meio evangélico.

Já o segundo grupo de cristãos é diferente. É um grupo formado por crentes que têm como autoridade última de fé a Bíblia e não o mero raciocínio tipo dois mais dois é igual a quatro. Eles percebem que muitas vezes não há como conciliar duas ou mais verdades da Escritura. Percebem que muitas vezes algumas doutrinas bíblicas parecem se anular mutuamente. Contudo, eles sabem que sua mente é limitada e que nem tudo na revelação de Deus pode ser explicado a partir da lógica (Rm 11.33,34). Por isso, se recolhem em humildade e aceitam a totalidade do que a Bíblia ensina, sem rejeitar nada, mesmo quando não são capazes de conciliar tudo perfeitamente em suas cabeças.

Esse é o grupo da boa teologia. É o grupo da teologia feita sob o primado da revelação e não da razão. É o grupo que, humildemente, diz “eu não sei” quando se vê diante de algo inexplicável e, nesse aspecto, é mais louvável aos olhos de Deus do que o outro grupo que, orgulhosamente, diz “eu não aceito”.

Como eu disse a princípio, todos são teólogos em algum grau. Todos têm seus conceitos acerca de Deus e constroem sistemas doutrinários ligados a isso. A questão é: você é um teólogo que prioriza a razão ou um teólogo que prioriza a revelação? É do tipo que, diante de questões difíceis que o incomodam, diz “eu não sei”, ou do tipo que, irritado com verdades bíblicas que desafiam a lógica, diz “eu não aceito”?

É importante definir o tipo de “teólogo” que você é, pois a defesa da sã doutrina e a promoção da glória de Deus por meio da sua vida dependerão fatalmente disso.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

 

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