Quinta, 03 de Dezembro de 2020
   
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A Negligência dos Falsos Mestres

Pastoral

Recentemente, li uma reportagem que dizia que a língua portuguesa está em constante evolução. Segundo o responsável pela publicação, isso se refere a uma consequência natural de toda cultura que se desenvolve. Ou seja, quando o idioma se modifica, significa que a cultura também está se modificando. O autor argumentava que, em meio a esse processo, algumas expressões ou palavras caem em desuso à medida que há transformação tecnológica e social. De fato, ao longo dos anos várias expressões usadas por nossos pais e avós se tornaram praticamente esquecidas. Por exemplo, quando minha mãe queria me apressar para realizar alguma tarefa, era comum ela dizer: “sebo nas canelas, menino”. Nos dias de pagamento do seu salário, meu pai se referia ao dinheiro como “tutu”, nada a ver com aquele prato tipicamente mineiro. Muitas palavras caíram em desuso como supimpa, cacareco, fuzarca e várias outras. Palavras que eram comuns, mas que, com o passar dos anos, se extinguiram.

Infelizmente, a cultura moderna também riscou de seu dicionário alguns termos que representam temas centrais para a doutrina cristã. Sendo assim, muitos líderes evangélicos seguiram a mesma tendência e deixaram de proferi-las em seus sermões por pura conveniência, com o objetivo de não afugentar mantenedores e simpatizantes. Por isso, não é de se espantar que várias igrejas pastoreadas por esses homens estão sempre abarrotadas de pessoas. Em lugares assim, prevalece a velha máxima de que “o cliente tem sempre razão”. Afinal de contas, o que importa mesmo é que a felicidade dos consumidores da fé esteja sempre em primeiro lugar — e que suas ofertas generosas não cessem jamais. Se é verdade que algumas palavras caem em desuso conforme a cultura sofre alterações, isso explica o abandono dos falsos mestres de certos conceitos e, consequentemente, da teologia cristã ortodoxa. Nossa cultura, assim como o meio evangélico contemporâneo, tem se transformado em algo estranho, totalmente distante da verdade.

Entre os termos e expressões que, em tempos recentes, foram abandonados por alguns evangélicos, gostaria de destacar três que chamam atenção por serem fundamentais para a doutrina acerca da salvação do homem. Refiro-me às expressões que denotam os aspectos do pecado. A primeira delas é ação pecaminosa. Embora as Escrituras afirmem que se alguém diz que não comete pecado engana-se a si mesmo (1Jo 1.8), não são raros os que tentam desconfigurar a noção de pecado atribuindo um sentido patológico às suas práticas. Se um indivíduo rouba frequentemente é chamado de cleptomaníaco. Uma criança desobediente e indisciplinada, que se opõe a seus pais e professores e não assume seus erros, devendo por isso ser disciplinada (Pv 29.15), é vista como alguém a quem os especialistas atribuem o chamado Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD).

A segunda expressão que tem sido abandonada pelos evangélicos é natureza pecaminosa. No Salmo 51.5, Davi declara: “Eu nasci na iniquidade e em pecado me concebeu minha mãe”. A natureza pecaminosa diz respeito às inclinações que cada pessoa tem para o mal desde a mais tenra idade. Com o advento da queda (Gn 3), os seres humanos se tornaram totalmente depravados, o que afetou todas as suas faculdades — mente, intelecto, emoções e vontade. A natureza pecaminosa diz respeito à depravação total do ser humano e, juntamente com a ação pecaminosa, é um aspecto do pecado do qual os crentes ainda não estão completamente livres (Rm 7.15-25). No entanto, não são poucas as investidas para tentar anular tal realidade. Muitos evangélicos insistem em afirmar que o ser humano é livre para realizar suas escolhas e que pode fazer isso sem nenhum tipo de tendência que o faça inclinar para determinadas direções. É o caso dos arminianos que, no campo da soteriologia, contrariando Romanos 9, afirmam que Deus se submete ao livre arbítrio dos homens. Nada mais distante da verdade, já que a Bíblia ensina que a salvação é um ato livre do Senhor e que ela não depende de quem quer, mas de Deus
usar sua misericórdia (Rm 9.15-18).

Por fim, a última palavra que vem sendo abandonada é culpa. John MacArthur, em seu livro Sociedade sem Pecado, foi preciso ao afirmar que “nossa cultura declarou guerra contra a culpa. Seu conceito literal é considerado medieval, obsoleto e improdutivo. Geralmente, aqueles que têm problemas com sentimento de culpa são os que recorrem a um terapeuta, cuja tarefa é melhorar a autoimagem do paciente. Afinal, ninguém deve sentir culpa”. Ao abandonar o conceito de culpa, um discurso silencioso é pronunciado: o de que o sacrifício de Cristo foi em vão e que não há punição para o pecado. Mas se não há culpa, por que, afinal de contas, Jesus doou sua vida? E mais: se não há culpa, qual é a necessidade de salvação? Falsos mestres têm anulado a ideia de culpa e, fazendo isso, assemelham-se aos fariseus hipócritas dos tempos do Senhor Jesus, que não entram no Reino, nem permitem que outros entrem (Mt 23.13). A Bíblia fala claramente sobre a realidade da culpa que foi imputada a toda humanidade como consequência da desobediência de Adão (Rm 5.15-19). Todos são alvos da ira de Deus. Porém, para os crentes verdadeiros, unidos a Cristo por meio da fé, já não há condenação, mas paz com Deus (Rm 5.1; 8.1).

Como diz Millard Erickson, em sua Teologia Sistemática, “negar a existência do pecado é uma forma de se livrar da dolorosa consciência de nossa maldade”. Minha súplica a Deus é que nenhum de nós enverede pelo caminho negligente e inconsequente dos falsos mestres, mas que, apegados à sã doutrina, trilhemos a passos firmes o caminho proposto pelo Supremo Mestre.
 
Que Deus nos proteja!

Pr. Robson Alves

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