Sexta, 28 de Fevereiro de 2020
   
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Dever e Esperança

Pastoral

A Queda foi um dos eventos mais impactantes da história da humanidade, gerando efeitos universais e perenes. Todos os personagens desse evento sofreram a maldição de Deus por consequência da desobediência humana. A serpente foi condenada a rastejar para sempre e a comer pó (Gn 3.14). A natureza viu diminuída sua fertilidade e proficuidade (Gn 3.17). Homem e mulher receberam na pele as sequelas do pecado: suor, fadiga e dores de parto (Gn 3.16,19). O que antes era uma relação de união e correspondência (Gn 2.23-24) se tornou convívio de desejo e dominação (Gn 3.16).

Toda criação, que um dia recebeu o selo “bom” no controle de qualidade divino, depois da Queda foi submetida à futilidade (Rm 8.20) pela mesma Palavra que a criou. Entretanto, talvez o personagem que mais perdeu nessa história toda foi Adão. Ele era, por assim dizer, a criação inédita à imagem e semelhança de Deus. Ganhou um presente formado a partir do seu próprio corpo (Gn 2.21). Tudo lhe estava submisso (Gn 1.26, 28) e o alimento, pronto, prescindia, a priori, de cultivo (Gn 1.29).

Contudo, a Queda impôs a Adão uma nova realidade. A expulsão do jardim resultou no afastamento de seu Criador particular, o mesmo que lhe soprou o fôlego da vida (Gn 2.7). Essa nova circunstância mudou, fundamentalmente, os benefícios que Adão obteve antes da Queda. Entretanto, não houve qualquer alteração em seus deveres. E ele os seguiu cumprindo.

Adão foi incumbido da tarefa de multiplicar e dominar (Gn 1.28), além de dar nome a cada ser vivo (Gn 2.19). E, apesar de se encontrar em uma situação diferente daquela quando as ordens foram proferidas, ele seguiu cumprindo seu dever sem hesitar, multiplicando-se (Gn 4.1-2,25; 5.4) e nomeando a criação (Gn 3.20).

Note que Adão não estava motivado unicamente por seus deveres, cumprindo-os irrestritamente como todo homem deve fazer, mas por uma promessa, feita com poucas palavras, que o estimulava a executar suas obrigações. Quando proferiu seu juízo sobre os personagens da Queda, Deus emitiu uma profecia que encheu Adão de esperança (Gn 3.15): o seu descendente subjugaria a descendência daquele que os havia enganado.

Não foi à toa que, pós-queda, Adão deu nome a Eva (Gn 3.20), que até então lhe chamara de mulher (Gn 2.23), pois ela seria a mãe de toda a humanidade. E ao exercer o encargo de gerar e multiplicar, vislumbrava o descendente de quem falava a promessa.

A vida cristã segue esse mesmo molde da vida de Adão. Temos diversos deveres estabelecidos por Deus concernentes ao relacionamento com ele e com nossos irmãos em Cristo. Mas o Senhor, em sua infinita bondade, não somente nos preenche de obrigações, mas soma às nossas responsabilidades o doce sabor de suas promessas.

E. geralmente. dever e esperança vêm juntos no mesmo capítulo. Em Romanos 8.17 somos ordenados a participar dos sofrimentos de Cristo, mas, logo no próximo versículo, somos inundados com a esperança da glória que em nós será revelada. Aliás, até a natureza, amaldiçoada a gemer com dores de parto (Rm 8.22), espera com grande expectativa a revelação dos filhos de Deus e a libertação da escravidão da decadência (Rm 8.19,21).

A esperança, por outro lado, não tem efeito meramente cognitivo ou estático. Ela impulsiona aquele que a detém a cumprir, com esmero e prontidão, suas obrigações e deveres (2Co 7.1; Cl 1.4-5; Tt 2.12-13; 1Jo 3.2-3). A esperança é revelada no cumprimento dos deveres.

Adão, ainda que sob maldição, desempenhou seu papel movido pela esperança, mas não viu seu descendente pisar a cabeça da serpente. Nós, entretanto, somos abençoados pelo descendente e desfrutamos de inúmeras promessas. Não há qualquer motivo que nos leve a uma vida pesada e repleta apenas de obrigações. Do mesmo modo, a esperança não tem efeito letárgico, mas nos entusiasma ao desempenho excelente. Dever e esperança devem sempre andar juntos no desenvolvimento da vida cristã.

Pr. Isaac A. Pereira


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