Quarta, 16 de Outubro de 2019
   
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Futilidades

Pastoral

“O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos” (1Co 3.20).

Até onde posso enxergar, há três formas dominantes de futilidade: a futilidade verbal, a futilidade laboral e a futilidade mental.

A futilidade verbal se expressa, quase sempre, em discursos vazios, em conselhos que não passam de jargões enunciados mecanicamente, em rezas decoradas, em brincadeiras e piadas de duplo sentido (geralmente com sugestões maliciosas) e, principalmente, em conversas tolas que não produzem coisa alguma positiva em quem participa delas.

A futilidade laboral pode ser vista na realização de empreendimentos que não servem para nada. A religião está repleta desse tipo de futilidade. Subir escadas de joelhos, orar no alto de montanhas ou em florestas, fazer jejum de televisão, de música ou de carne vermelha, construir templos “sagrados”, ir ao hospital passar óleo na cabeça dos doentes, ungir automóveis, objetos ou cômodos da casa... Os exemplos no campo da religiosidade são intermináveis.

A futilidade laboral, porém, também se expressa na área do lazer. Nem todo lazer é fútil, mas, para que a recreação seja proveitosa, é preciso que ela traga restauração, aproximação e edificação. A restauração ocorre, em regra, quando o lazer gera descanso e alívio em vez de desconforto e irritação — ver um bom filme, por exemplo, pode aliviar um pouco o estresse. A aproximação se torna real quando o lazer une a família, os amigos e os irmãos em vez de isolá-los ou separá-los — almoços, retiros da igreja, reuniões de congraçamento ou um bate-papo no Starbucks ajudam na aproximação. Já a edificação se concretiza quando o lazer enriquece o caráter, estimula as virtudes, gera aprendizado e faz do indivíduo uma pessoa melhor — viagens, esportes e leituras são formas de lazer que edificam.

Há, contudo, o labor fútil manifesto em formas de lazer que escravizam e são estéreis, transformando as pessoas em gente oca que joga pela janela os melhores anos da vida. Passar horas a fio diante de uma TV e circular incessantemente pelas redes sociais são os exemplos mais comuns desse tipo de lazer. Antes, essas formas de desperdício de tempo eram vistas mais entre os jovens. Hoje, pessoas de todas as idades se entregam a elas.

Finalmente, há a futilidade mental que é a futilidade do pensamento. Esse tipo de futilidade é dominante em nossa época e se espalha entre gente culta e inculta, rica e pobre, crente e incrédula. Ela consiste em abrigar e nutrir ideias vãs. A futilidade mental hipervaloriza coisas de segunda importância como roupas, cortes de cabelo e o tamanho do bíceps. Ela também acolhe mensagens mentirosas implícitas em comerciais de TV, em novelas e em filmes de Hollywood.

É em grande parte por causa da futilidade mental que muitos cônjuges, por exemplo, abandonam o lar dizendo que têm o direito de “buscar a própria felicidade” ou de “fazer o que gostam”. É também por causa da futilidade mental que muitos jovens, que antes eram “normais”, mudam o corte de cabelo, vestem roupas estranhas (o tipo “alternativo”), agem de forma irreverente e abraçam causas heterodoxas (o velho feminismo das mulheres infelizes e frustradas ainda está em alta) dizendo que têm de se valorizar, se destacar e se impor no meio em que vivem, não importando o que os outros pensam — futilidade sobre futilidade... Meras tolices.

A futilidade mental também se expressa em autocomiseração, autoindulgência e orgulho. O homem que nutre a autocomiseração é aquele que olha para si e se entristece, pensando em como as coisas podiam ter sido diferentes. Ele não pretende despertar a pena das outras pessoas. Em geral, contenta-se com a pena que tem de si mesmo e a curte intensamente a ponto de se recusar a abandoná-la. Ele gosta de se enxergar como alguém que padeceu as injustiças da vida mas não se rebelou, antes se resignou e agora sofre em silêncio. Quanta virtude! Já o autoindulgente é aquele que constrói explicações para todas as suas culpas (“eu sou compulsivo”; “eu fui criado num ambiente difícil”; “eu estou passando por uma fase ruim”). Em sua mente ele se apega a essas explicações e as transforma numa poltrona para sua consciência. O homem orgulhoso, por sua vez, é aquele que se tem em alta conta. Pode parecer estranho, mas o autocomiserado e o autoindulgente são muito orgulhosos. Ambos se consideram bons demais.

Qual o perigo da futilidade em todas as suas formas? Bem, as futilidades verbal, laboral ou mental são capazes de transformar as pessoas, lançando-as na inutilidade. O homem que se entrega aos diversos aspectos da futilidade se torna vazio, incapaz de dar um bom conselho. Vira uma pessoa sem conteúdo, que só repete o que todo mundo diz. Além de vazio, o homem apegado à futilidade também se torna insensível e indiferente. Não reage diante de males que parecem “pequenos” e chega a dizer que certos pecados são “normais”. Ele faz pose de tolerante, mas, na verdade, é um covarde — alguém que, nutrido apenas por vento, não encontra forças em si para enfrentar o erro e combatê-lo, não importando se esse erro está dentro ou fora da vida dele.

Sendo, desse modo, apenas um boneco cheio de ar, o homem que abraça essas formas de futilidade, tornando-se inútil e covarde, é, por assim dizer, a obra-prima de Satanás que, sendo assassino, compraz-se em transformar as pessoas em nada.

Pr. Marcos Granconato
Força e Fé
Soli Deo gloria

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