Sexta, 18 de Outubro de 2019
   
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O Leão, o Macaco e o Pinheiro de Natal

Pastoral

Nas distantes estepes africanas vivia um pequeno grupo de leões. Dificilmente eles entravam na mata fechada, pois suas presas preferidas perambulavam pelas áreas mais amplas da região, onde a vegetação era baixa, o que facilitava a busca de bom alimento.

Um dia, porém, o grupo de leões ouviu o intrigante boato de que, em dezembro, em alguns lugares distantes, surgiam certos pinheiros cujas ramas exibiam dezenas de luzes pequenas, coloridas e faiscantes. Segundo o boato, esses pinheiros estavam associados a uma mensagem feliz, capaz de aquecer qualquer coração enregelado.

Curioso, o líder do grupo, que era também o rei da floresta inteira, decidiu verificar. Então, numa tarde de dezembro, entrou mato dentro na busca do tal pinheiro luminoso. Com cuidado, vasculhou a mata por várias horas, na busca da árvore fulgurante. Tudo, porém, parecia normal, exceto pelo silêncio. Realmente a mata estava bastante quieta, pois todos os bichos se sentiam pouco à vontade com a presença do leão ali.

Num dado momento, porém, o silêncio foi quebrado pela voz meio rouca de um velho macaco matreiro.

— Com licença, Majestade. Vejo que faz bastante tempo que o senhor está procurando alguma coisa. Será que posso ajudar?

Na verdade, o macaco queria sugerir que o leão fosse embora logo, para que os bichos da floresta pudessem relaxar novamente.

— Oh! Obrigado, senhor macaco. Na verdade, procuro por uma árvore.

O macaco esboçou um sorrizinho maroto.

— Ah! Bem... Como vê, há várias por aqui... — Disse com certa ironia.

O leão não achou graça.

— A que procuro é diferente — disse suspirando — É um tipo de pinheiro que produz muitas luzes coloridas, mas que só viceja em dezembro.

— Que estranho... Nunca vi essa árvore! Sem querer desprezar o conhecimento de Vossa Majestade, mas será que existe mesmo um pinheiro assim? Eu vivo aqui desde que me conheço por macaco e nunca vi nada igual... Diga-me uma coisa: para que serve essa árvore de luz?

— Bem, o que ouvi dizer é que tem uma antiga mensagem ligada a ela; uma mensagem de esperança, felicidade ou algo assim. E essa mensagem muda corações... Não sei... Quero descobrir se é verdade.

— Humm... Vamos fazer o seguinte: eu também sou um tipo de rei. É claro que não sou o rei da floresta como o senhor, mas tenho certa influência entre os macacos, por causa da minha idade e sabedoria. Vou chamar o meu povo aqui e perguntar se alguém sabe de alguma coisa.

O leão aceitou a ajuda e o velho macaco começou a berrar a plenos pulmões coisas mais ou menos assim:

— Atenção, macacada! Venham agora mesmo para a grande concentração do pinheiro luminoso! A visão dessa árvore brilhante vai mudar a sua vida e você terá cachos e mais cachos de banana caindo do céu e brotando dos galhos em que você se pendura!

O rei da floresta ficou surpreso, enquanto percebia um grande farfalhar de folhas e um alvoroço crescente vindo de todos os cantos da mata.

— Ei! Não é nada disso! Que invenções são essas? Eu só falei de um pinheiro brilhante e de uma mensagem feliz. Quem falou de bananas aqui? 

O macaco espevitado deu uma sonora gargalhada.

— Majestade, eu conheço bem o meu povo. Se eu não disser o que disse, ninguém virá à nossa reunião. Pode ficar tranquilo porque sei o que estou fazendo. Ouça o barulho que vem da mata. Em alguns instantes todos estarão aqui.

De fato, não demorou muito e todo o espaço ao redor ficou repleto de macacos barulhentos, pulando, gritando, dando gargalhadas, fazendo caretas e emitindo sons estranhos.

— Que baderna! — resmungou o leão — Será que vamos conseguir alguma ajuda no meio dessa confusão?

— Majestade, somos macacos! Nossas reuniões são assim mesmo. O que o senhor esperava? Um coro de quatro vozes? Quer saber? Esse é o nosso jeito. Queremos pular, gritar e fazer caretas. E, com todo o respeito, para nós, vocês leões são muito sem graça. Pra dizer a verdade, a conversa que “rola” entre a gente é que vocês são fracos e por isso não pulam e nem gritam.

O leão não acreditava no que estava ouvindo e vendo. Que bichos estúpidos eram aqueles? Vinham correndo atrás de bananas que caíam do céu; agiam como loucos desvairados e acreditavam ser mais fortes do que os leões! Não, aquilo não estava acontecendo. O rei da floresta ficou confuso, sem saber o que dizer diante de tanta esquisitice. Enfim, respondeu impaciente:

— Olhe, amigo macaco. Não quero discutir seus costumes. Só quero informações sobre o tal pinheiro. Será que seus amigos podem me ajudar?

— Deixa comigo. Vamos ver isso já!

E, voltando-se para os bichos alvoroçados, gritou:

— Waha lhalha huhuhuuuuuu!

A macacada, então, foi ao delírio! Alguns fecharam os olhos e começaram a emitir sons semelhantes ao emitido pelo chefe deles. Outros se penduraram nos galhos pela cauda e ficaram rodopiando. Outros tiveram um acesso de emoção e começaram a chorar freneticamente. O que era confusão, virou baderna completa!

— O que está acontecendo? — Perguntou assustado o leão (e pra assustar um leão, a coisa tem de ser mesmo muito feia!) — O que você disse a eles? Traduza pra mim.

— Sei lá. Não tem tradução nenhuma. Só fui gritando o que me vinha à cabeça. O que sei é que eles gostam disso e sempre serve pra animar as reuniões. Quem liga para “traduções”? Vocês leões são mesmo muito chatos.

— Tudo bem. Acho que entendi... Só não sei em que isso me ajudou?

— Ah, você vai ver agora!

Então o velho macaco empostou a voz para simular sabedoria e disse a todos:

— Sejam bem-vindos, nobres primatas! Quão belo é glorioso é nosso ajuntamento. Eu sinto uma força simiesca invadindo tudo e toda essa energia que vocês demonstram reflete a força de 1 milhão de gorilas. E saibam que não foi por acaso que cada um de vocês foi trazido aqui hoje. Como foi anunciado, nesta reunião será dada a oportunidade de todos terem a bendita visão do pinheiro iluminado e compartilhar essa visão com os demais. Há bichos aqui que nunca viram o pinheiro de luz (nesse momento, o velho macaco olhou discretamente para o leão), mas, com a força do testemunho dos que já o viram, uma grande mudança vai ocorrer hoje nessas vidas que estão cansadas de procurar inutilmente a árvore cintilante!

Os macacos não tinham a menor ideia do que o reizinho deles estava falando. Porém, curiosamente, alguns deles começaram a se aproximar dizendo que tinham visto o tal pinheiro. Uns diziam tê-lo visto num sonho, outros diziam que tinham sido arrebatados ao alto de uma montanha e ali passado dias e noites inteiras debaixo do pinheiro saboreando pinhas com gosto de banana; outros ainda diziam que viam o pinheiro brilhante todas as noites, brotando num galho perto de onde dormiam. Todos esses afirmavam que depois que tiveram essas visões se transformaram em macacos mais felizes e realizados, morando em árvores mais bonitas.

Aqueles que nunca tinham tido experiências assim, eram encorajados a trazer cachos de banana ao rei dos macacos e este lhes dizia que esse gesto serviria de ponte para verem o pinheiro iluminado. O leão perguntou qual era a relação entre a entrega dos cachos e a visão do pinheiro, mas o rei dos macacos somente balançou a cabeça demonstrando impaciência e fazendo o leão se sentir ingênuo e bobo.

No fim de tudo, quando a reunião acabou, o rei dos animais perguntou:

— Era essa a ajuda que você tinha a me dar na busca do pinheiro iluminado?

O macaco malandro disse com um risinho dissimulado:

— Desculpe, Majestade. Como eu disse, somos macacos. O que esperava de nós? Um mapa mostrando como chegar ao pinheiro? A gente nem sabe que raio de pinheiro é esse! Agora, se me dá licença, tenho todos esses cachos de banana para carregar.

O leão foi embora decepcionado e confuso, mas pelo menos o que viu entre os macacos serviu para tirar da cabeça dele qualquer ilusão sobre a existência de pinheiros iluminados. “Que grande bobagem!”— pensou ele — “Como pude acreditar num boato desses? Pinheiro, luzes, mensagem de esperança... Cada uma!”.

Virou-se, então, e saiu rumo às estepes, deixando a mata sombria e silenciosa atrás de si.

Silenciosa? Bem... Nem tanto. Quando o leão foi embora, uma serpente, que tinha assistido a tudo, saiu de trás de uma moita e soltou uma sonora gargalhada. Como havia se divertido naquela tarde! Vira todo o espetáculo de seu esconderijo e agora que o Sol se punha se sentia relaxada e bem humorada. O show dos macacos lhe fizera muito bem e afastara dela qualquer sombra de pessimismo. Estava sorridente e animada, prontinha para uma noite de boas caçadas. “Sem dúvidas”, pensou, “terei uma noite feliz!”.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

 

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